Lula da Silva (PT), se quiser reverter essa vantagem de mais de dois milhões de votos que Flávio Bolsonaro (PL) alcançou nesse primeiro turno, vai ter que ralar muito. Não será fácil. Até os mais raivosos dos bolsonaristas (quase todos são) se espantaram com a varrida de votos que o Partido Liberal fez em todo o país, elegendo governadores, senadores, deputados e regionais, sinalizando um Congresso Nacional abarrotado de direitistas em 2027, mesmo que haja um revertério rumo à Presidência ainda neste mês de outubro. Foi um massacre, pura realidade.
Registro feito, vamos a alguns lances pouco lembrados por aqueles que levantaram as taças, empolgados. Nenhum dos Bolsonaros eleitos, desde a senadora Michelle até o candidato Flávio, mencionou, uma só vez, qualquer agradecimento a Jair Bolsonaro, aquele mesmo, ex-presidente da República, ainda preso por tentativa de golpe de Estado, segundo a Justiça.
Carlos, o outro agraciado pelos votos, também agradeceu a Deus e sequer citou que todos os votos que recebeu vieram da prisão, e não da sua frágil e desacreditada campanha.
A bem da verdade, (pura realidade), 90% dos bolsonaristas, ainda no começo do ano, queriam mesmo era que Tarcísio de Freitas fosse o candidato do partido, e não Flávio Bolsonaro, inclusive o próprio Tarcísio. A política surpreende, muitas vezes assusta, e muitas vezes incomoda. Mas, abastecida pela vaidade e arrogância, prevalece e supera vontades e desejos mil.
Contra tudo e contra todos (inclusive Michelle), Jair, o condenado, fez valer sua vontade e bancou o mais amador dos candidatos, e deu no que deu. Fazendo dancinhas nos palcos do interior, se defendendo de rachadinhas, Vorcaros e outras citações nada elogiosas, o candidato chegou ao topo. E agora tirá-lo de lá não vai ser fácil, não impossível.
Quem gosta de política, e a pratica sem rancor e sem armas na cintura, de alguma forma concorda com tudo isso. Tarcísio de Freitas, reeleito em São Paulo, é infinitamente mais qualificado e habilitado do que Flávio, mesmo que sobre ele paire algo mais do que apenas desconfiança partidária.
O que Jair Bolsonaro fez com o filho Flávio equivale ao que Lula fez com Dilma Rousseff, de 2011 a 2016. Entre um poste e Dilma, ele escolheu Dilma. Até as pedras de qualquer caminho por onde passe o PL sabem que o nome do partido jamais foi, e jamais seria, Flávio, mas, por ordem soberana e direta do capitão, assim foi feito, e assunto encerrado.
Muita coisa ainda por vir. Se Flávio vencer a eleição (favorito), Bolsonaro sairá da prisão, o Supremo Tribunal ganhará nova roupagem, Donald Trump terá um busto em frente ao Palácio do Planalto e muitos dos condenados do 8 de janeiro serão homenageados com a Medalha Belfort Duarte, por bom comportamento.
Essa demagogia de campanha, que prega salvar o Brasil, é pura balela, todos nós sabemos disso, realidade. Caso Flávio vença a eleição, segundo ele, não haverá reeleição. Abrirá as portas para Bolsonaro livre, ou para Tarcísio de Freitas, já postulante ao cargo.
Tudo indica que, politicamente, o Brasil ligou a seta para virar à direita. Há quem diga que ainda existe uma luz no fim do túnel. Pode ser também que seja um trem, acelerado, em sentido contrário.
José Natal
Jornalista

