Petrobras adia avanço da contratação da infraestrutura que vai escoar o gás de Sergipe enquanto avalia os efeitos do programa de desconcentração do mercado
Por Luciana Leão
O projeto Sergipe Águas Profundas (SEAP), que durante este ano ganhou novos contornos com a aprovação dos investimentos da Petrobras e a contratação das plataformas, volta a enfrentar uma incerteza em uma etapa importante: o gasoduto responsável pelo escoamento da produção.
A Petrobras decidiu adiar o início da licitação da infraestrutura para avaliar os possíveis impactos do programa de redução da concentração do mercado de gás natural, conhecido como gas release. A informação foi dada pela diretora de Engenharia, Tecnologia e Inovação da companhia, Renata Baruzzi, durante a ROG.e 2026.
“A gente, na verdade, estava pronta para ir ao mercado, iniciar a licitação, mas a gente resolveu dar um passo atrás e avaliar o impacto do gas release no nosso portfólio”, afirmou Baruzzi. Segundo ela, ainda que as regras em discussão não tenham impacto direto sobre o gás do SEAP, a Petrobras avalia os efeitos sobre o conjunto de seus negócios.
A preocupação da estatal está relacionada à possibilidade de mudanças futuras nas regras. Segundo Baruzzi, não há garantia de que uma eventual desconcentração do mercado não possa, posteriormente, alcançar também o gás produzido pela própria Petrobras.
A ANP, na proposta atualmente em discussão, preserva a molécula própria da companhia e concentra o mecanismo em gás importado pelo Gasbol e em volumes adquiridos de terceiros na cabeça do poço.
Um projeto que já passou por vários adiamentos
A nova incerteza ocorre depois de uma sequência de revisões no cronograma do SEAP. Em abril deste ano, a Petrobras aprovou a Decisão Final de Investimento (FID) do SEAP I, que se somou à aprovação do SEAP II, em dezembro de 2025. As duas plataformas, P-81 e P-87, serão construídas pela SBM Offshore. Juntas, terão capacidade para produzir até 240 mil barris de petróleo por dia e processar 22 milhões de metros cúbicos de gás natural diariamente.
O histórico do projeto, porém, é marcado por mudanças de prazo e de modelo de contratação. Em 2024, a Petrobras já havia prorrogado o prazo para recebimento das propostas para os FPSOs, alegando a necessidade de aprimorar as condições dos editais e aumentar a atratividade dos certames. Naquele momento, a companhia estimava que o SEAP poderia disponibilizar até 18 milhões de metros cúbicos de gás por dia ao mercado.
A estratégia mudou posteriormente. Para o SEAP II, a Petrobras adotou o modelo BOT (Build, Operate and Transfer), enquanto o SEAP I passou a ser tratado como opção no processo. No Plano de Negócios 2026-2030, a entrada em operação do SEAP II está prevista para 2030, com exportação de gás a partir de 2031. O SEAP I ficou previsto para depois do horizonte do atual plano.
Mais recentemente, em maio, a própria Petrobras informava que pretendia lançar ainda em 2026 a licitação do gasoduto, estimado em 134 quilômetros de extensão e capacidade de escoamento de 18 milhões de metros cúbicos por dia.
É justamente essa etapa que agora entra novamente em compasso de espera.
O gás como parte central do projeto
O interesse pelo SEAP vai além da produção de petróleo. O projeto representa uma nova fronteira de oferta de gás natural no Nordeste e é apontado pela Petrobras como estratégico para ampliar a disponibilidade do energético no país.
Estudo apresentado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), em julho, destacou os impactos que a chegada dos volumes do SEAP poderá provocar no mercado sergipano.
A expectativa é de grandes volumes de gás a partir de 2030, o que, segundo a EPE, exige que Sergipe se prepare para atrair indústrias intensivas no consumo do energético e pode abrir espaço para a formação de um hub de gás natural no estado.
O governo de Sergipe também vem trabalhando na antecipação da comercialização dessa produção. Em março, assinou com a Petrobras um protocolo de intenções para estudar a venda antecipada do gás do SEAP. O Estado estima que o projeto possa gerar impactos relevantes sobre a economia sergipana.
Gas release entra em uma nova fase
A discussão que agora interfere no cronograma do gasoduto está avançando na ANP. A agência encerrou em 28 de setembro a consulta pública sobre a minuta de resolução do Programa de Redução da Concentração no Mercado de Gás Natural. Nesta terça-feira (29), realiza o segundo workshop com representantes de consumidores, produtores, transportadores, distribuidoras e governos estaduais.
A Petrobras vem se posicionando contra mudanças que possam afetar sua estratégia de compra de gás de terceiros. Durante a ROG.e, a presidente Magda Chambriard afirmou que a viabilidade de grandes projetos, entre eles o SEAP, depende da possibilidade de a companhia adquirir a molécula de seus parceiros.
O debate, portanto, não é apenas regulatório. Para Sergipe, ele envolve também o ritmo de chegada de uma nova oferta de gás e os investimentos que poderão ser atraídos para aproveitar essa produção.
Por enquanto, o projeto de produção segue mantido, mas a infraestrutura necessária para levar o gás do SEAP ao mercado volta a depender do desfecho de uma discussão que ultrapassa as fronteiras de Sergipe.
Projeto não será cancelado, assegura Governo de Sergipe
Em nota ao site da revista Nordeste, o Governo de Sergipe, por meio da Sedetec, afirma que acompanha as discussões relacionadas ao projeto Sergipe Águas Profundas (Seap) e à contratação do gasoduto de escoamento.
A reavaliação anunciada pela Petrobras está relacionada às discussões regulatórias sobre o mercado de gás natural e, neste momento, não representa o cancelamento do projeto.
O Estado reforça a importância estratégica do Seap para Sergipe e para o país e destaca que o início da produção, até então, encontra-se mantido pela Petrobras para 2030. O Governo continuará dialogando com a estatal e com as instituições federais, defendendo previsibilidade, segurança jurídica e continuidade dos investimentos que irão gerar emprego, renda e novas oportunidades para os sergipanos.

