John Cioffi alerta: IA esbarra em gargalo das redes de telecomunicação

Conhecido como o pai do DSL, professor aponta limites na transferência de dados como desafio para a expansão da inteligência artificial; especialistas debateram 6G, pesquisa e propriedade intelectual em evento do Licks Advogados no Rio

A inteligência artificial enfrenta um gargalo crítico para continuar ampliando sua capacidade: a infraestrutura de comunicação não evolui no mesmo ritmo que o poder computacional. A avaliação é do professor John Cioffi, referência mundial em comunicações digitais e pioneiro nas pesquisas que pavimentam o caminho para o 6G.

Conhecido como o pai do DSL, tecnologia que deu origem aos padrões usados na internet de banda larga, Cioffiparticipou nesta quinta-feira (24), no Rio de Janeiro, do seminário Redes Inteligentes para 6G e Além, promovido pelo Licks Advogados e apoiado pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (ABINEE).

Segundo Cioffi, o avanço acelerado da capacidade de processamento esbarra na dificuldade de movimentar volumes cada vez maiores de dados entre chips, servidores e centros de processamento. Nesse cenário, a infraestrutura de comunicação se torna uma peça central para que a evolução da IA possa continuar.

“Há uma lacuna crescente entre o poder computacional e a capacidade de transferência de dados. A IA é limitada agora, e será ainda mais no futuro, pelas capacidades de comunicação”, afirmou.

O desafio aparece em diferentes escalas, desde a comunicação entre microchips e servidores dentro de data centers até as conexões sem fio em redes 5G e 6G e em sistemas robóticos. Nos modelos atuais de interconexão entre chips, por exemplo, os canais de transmissão são tradicionalmente isolados para reduzir interferências. Segundo Cioffi, essa lógica acaba restringindo a largura de banda disponível justamente em um momento de explosão do volume de dados.

Para superar esse obstáculo, Cioffi propõe substituir o isolamento tradicional de sinais pela inteligência adaptativa, uma técnica que aproveita a interferência como parte do sistema para ampliar significativamente a capacidade de transmissão.

 

O desenvolvimento de sistemas adaptativos capazes de lidar de forma inteligente com as interferências, em vez de simplesmente tentar eliminá-las, pode permitir que a infraestrutura de comunicação acompanhe mais de perto a evolução do processamento computacional. Essa visão é complementada por soluções que combinam convergência de enlaces, conexões físicas e sem fio e redes 6G sem células (cell-free), voltadas a aumentar a eficiência das comunicações em ambientes densos.

6G e redes cada vez mais inteligentes

Professor da Coppe/UFRJ, Paulo Diniz apresentou a evolução das comunicações móveis como um processo de aumento contínuo da capacidade e da complexidade das redes. Das primeiras gerações, voltadas principalmente à voz e, posteriormente, a mensagens e dados, o setor chegou ao 5G com maior largura de banda, menor latência e comunicação entre máquinas e diferentes tipos de dispositivos.

Para o 6G, porém, a expectativa é de uma transformação mais profunda. As redes deverão integrar um número ainda maior de dispositivos e aplicações, com conectividade disponível em diferentes contextos e uma infraestrutura capaz de se adaptar dinamicamente às necessidades de cada uso.

Um dos principais desafios, segundo Diniz, será aproximar as aplicações da própria rede. Em vez de os desenvolvedores precisarem configurar manualmente uma série de parâmetros técnicos, uma aplicação poderia informar o resultado ou o nível de serviço de que necessita, enquanto a infraestrutura definiria de forma dinâmica a melhor maneira de atender àquela demanda.

Esse avanço depende também de pesquisa de longo prazo e da aproximação entre universidades e empresas. Diniz citou a parceria de oito anos de seu laboratório com a Ericsson e, ao recuperar a trajetória do ADSL e o trabalho de John Cioffi, destacou como pesquisas acadêmicas podem dar origem a patentes, empresas e tecnologias posteriormente adotadas em larga escala.

“Nossa paixão é aprender continuamente, ajudar a formar novos estudantes e, por meio da pesquisa, criar novas ideias que sirvam à sociedade”, afirmou.

Marcello de Campos, vice-diretor da Coppe/UFRJ, também destacou o papel da academia como ponto de partida para a evolução das telecomunicações. Segundo ele, muitos dos avanços incorporados às gerações 2G, 3G, 4G e 5G são resultado de anos de pesquisa e colaboração antes de chegarem ao mercado. Como exemplo, citou que a relação de longa data entre a universidade e o Licks Advogados, construída ao longo de mais de 13 anos de parceria, contribui para aproximar a pesquisa acadêmica de questões concretas do setor de telecomunicações.

Parafraseando uma ideia atribuída ao filósofo Bernardo de Chartres, Campos disse ainda que somos “como anões, sentados nos ombros de gigantes”, explicando que a metáfora mostra como a academia pode enxergar mais longe porque carrega o conhecimento construído por quem veio antes.

A inovação em telecomunicações, segundo o professor, tem caráter cumulativo: cada nova geração se apoia no conhecimento desenvolvido anteriormente e, ao mesmo tempo, cria novos desafios para pesquisadores, empresas e organismos responsáveis pela definição dos padrões tecnológicos. Essa relação tende a ganhar importância à medida que as redes se tornam mais sofisticadas.

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Walter Santos

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