Por Luiz Mário Dantas Burity
Fabiano estava sentado sobre uma pedra, embaixo de uma árvore seca, vestido de gibão e chapéu de couro, porém descalço. Segurava uma espingarda enquanto uma revoada de aves negras tomava o céu do sertão. A capa de Vidas Secas, célebre romance de Graciliano Ramos, publicado em 1938, apresentava aos futuros leitores, às futuras leitoras da obra, uma imagem de seu protagonista antes mesmo que eles e elas pudessem se aventurar nessa longa e dolorosa peregrinação pela estrada do sertão ao litoral que os seus personagens nos convocaram a atravessar.

Quem já teve a oportunidade de entrar em uma livraria, com suas estantes cheias, sabe bem a importância do projeto gráfico – uma capa interessante, encadernação firme, diagramação bem-feita – para o sucesso de uma obra. O livro que chega às nossas mãos, afinal de contas, não é um trabalho exclusivo do escritor que construiu o seu, mas também de inúmeros outros profissionais – editores, ilustradores, diagramadores, encadernadores – que transformam um manuscrito em uma pluralidade de volumes impressos, em uma materialidade aprazível, distribuído para muitos lugares, inclusive a livraria que costumamos frequentar…
No caso de Vidas Secas, ou pelo menos daquela primeira edição, publicada em 1938, o artista em questão, responsável pela ilustração e pela diagramação do livro, era Tomás Santa Rosa. Mas esse não foi o seu primeiro trabalho, nem o mais celebrado. Àquela altura, o artista já havia produzido a capa de pelo menos duas edições de Caetés, também de Graciliano Ramos, uma para a Editora Schmidt, outra para a José Olympio; todo o projeto de Cacau e de Suor, ambos de Jorge Amado, que saíram pela Ariel; a diagramação, com capa de Cícero Dias, da segunda edição de Menino de Engenho, e da primeira edição de Banguê, dois títulos de José Lins do Rego, na José Olympio.
Era um trabalho da maior importância, em um momento que o mercado brasileiro consolidava um novo formato de livro. Desde o início do século XX, com a indústria em expansão, as editoras e os títulos se multiplicavam, exigindo estratégias cada vez mais refinadas para atrair a atenção do público. Foi então que se tornou mais comum o recurso da ilustração na capa, como explica Ubiratan Machado, de preferência com muitas cores, em alguns casos envolvendo toda a brochura. E, por consequência, quando essa função de ilustrador-capista se profissionalizou. O público, aliás, logo escolheu os artistas visuais de sua preferência – Manoel Bandeira, Di Cavalcanti, Cícero Dias, Tomás Santa Rosa.
Nas palavras de Edna Cunha Lima, “Santa Rosa pensou o livro com um olhar modernista, que ia desde a capa colorida com letreiramento (lettering) informal até as ilustrações de desenho linear e leve”. E foi a partir desse repertório, da criação original de imagens e tipografias, que ele foi consolidando um estilo que se tornaria a marca do Movimento Literário Regionalista, a que também chamamos Romance de 30, e da própria Livraria José Olympio Editora. Nessas linhas, foram construídas imagens de Fabiano, de Vidas Secas; de Carlos de Melo, de Menino de Engenho; mas também do sertão durante as estiagens; do brejo quando das cheias; do Nordeste.
Tomás Santa Rosa nasceu na Cidade da Paraíba, hoje denominada João Pessoa, no dia 20 de setembro de 1909. Era um dos seis filhos de Tomás Maurício Santa Rosa e Maria Alexina das Neves Pereira, um alfaiate e uma dona de casa. O casal vivia do comércio em uma cidade que se modernizava e, se, por um lado, isso não era suficiente para que morassem em alguma rua da Cidade Alta, por outro, não impediu que o rapaz fizesse aulas de piano e canto. Muito cedo morreram seus dois irmãos, restando apenas as duas meninas. Também não demorou para que o pai, levado pelo sonho de conquistar as riquezas da borracha, se aventurasse em uma viagem para a Amazônia. E coube ao rapaz garantir o sustento da família.
Era um jovem negro, em tempos de pós-abolição, como explica Thiago Brandão, entreposto pelas inúmeras barreiras sociais que a sua circunstância racial impunha, com os lutos e as responsabilidades que teve de assumir desde muito cedo. Mas também soube aproveitar as oportunidades e construir os laços de solidariedade necessários à sobrevivência. Tomás Santa Rosa estudou, no primeiro momento, em uma cadeira mista de ensino elementar, mas logo conseguiu matrícula no recém-criado Grupo Escolar Tomás Mindelo, primeira instituição com esse formato no estado da Paraíba, símbolo da modernidade pedagógica à época.

Essa boa formação, aliás, seria importante para que conquistasse uma vaga no Liceu Paraibano, espaço que certamente teve uma relevância considerável na construção de seu repertório como intelectual, mas principalmente, que oportunizou relações que lhe seriam muito estratégicas no mundo das letras e das artes. Ao que tudo indica, foram os amigos que ele conquistou nessa ocasião que abriram os caminhos para que o talentoso desenhista fizesse circular as suas primeiras ilustrações em um periódico de grande circulação no estado – a revista Era Nova.
Foi apenas em meados do ano de 1925 que as ilustrações de Tomás Santa Rosa apareceram na revista Era Nova. O desenhista tinha, então, 16 anos. A presença dos desenhos era discreta, em um ou outro canto de página, mas chamavam a atenção pelo traço expressivo e pelas formas curiosas que as pessoas e as coisas representadas tomavam. Mas não demorou para que esse espaço crescesse, e no início de 1926, ele já era responsável pela produção das capas. Nessa ocasião, um editorial tratou de registrar o fato apresentando o novo ilustrador ao público:
A família intelectual de Era Nova conta, de agora por diante, com mais um membro. É Santa Rosa Júnior, o jovem desenhista paraibano, cujo talento acaba de revelar-se à elite espiritual da nossa terra, estimulado por um sem-número de repetidos espontâneos louvores. Ele bem os merece, porque a sua vocação artística, cheia de uma claridade virtuosa de juventude criadora, é dos que se impõem e se afirmam desde o primeiro momento. Não se deixando influenciar, mesmo por talentos já consagrados no Brasil e no estrangeiro, a sua arte faz-se digna de alienação por uma nota viva de originalidade. Por isso mesmo há nas suas concepções, na simplicidade encantadora das suas silhuetas a vivacidade muito moderna de J. Carlos e, no mesmo tempo, a elegância quase clássica de Di Cavalcanti. O seu traço tem firmeza e decisão. As suas figuras têm expressão e movimento. E o seu lápis, às vezes, se aproxima bastante daquela ironia muito fina de Beardsley, o famoso desenhista inglês, que merece de Fèzensac a denominação de “le pervers”. Como ilustrador de Era Nova, terá Santa Rosa Júnior um amplo ensejo para fazer conhecido deste e de outros estados o seu famoso admirável talento (Era Nova, 14 de fevereiro de 1926).
Eram interessantes as suas referências. Em uma das capas aparecia uma gueixa, apontando uma influência oriental de seu traço, tão valorizado no momento em que o art nouveau, movimento artístico tomado de citações asiáticas, havia se tornado a referência estética moderna por excelência. Enquanto isso, na edição de meados de fevereiro, podia-se ver um arlequim inconsolável, com a mão na testa e uma expressão de choro. Mas ele tinha bons motivos para isso, afinal de contas, acabara o carnaval, era tempo de largar a viola, deixar o clube, abandonar a fantasia e voltar à vida real.
Mais interessante, porém, era o seu olhar para as cenas do cotidiano. Nas capas, nos quadrinhos, ou mesmo nas pequenas ilustrações de canto ou de meio de página, impressionava o modo como um rapaz tão jovem conseguia entender os códigos da sociedade em que ele estava inserido. Em uma bela capa, cheia de cores, uma mulher aguarda o amado, observando um porta-retrato e com uma carta nas mãos. Era uma cena de espera, enquanto os tons amarelo e vermelho da composição nos contam dos desejos tomados de urgência que ela continha dentro de si.
Falamos de uma cidade da Paraíba, em princípios do século XX, que, apesar dos seus inúmeros impulsos de modernização, ainda guardava antigos ritos de sociabilidade. De certa forma, os hábitos modernos, como passear na praça, vestir à moda inglesa, folhear jornais e revistas, tudo de certa forma estava tomado por um dever moral que ainda pregava o casamento como instituição fundamental. Ou como mostrou Santa Rosa, em um de seus quadrinhos: mais complicado que a reforma da Constituição era saber quando o sr. Ambrósio resolveria pedir a titia em casamento…

A revista Era Nova certamente foi um laboratório fundamental para a produção de Tomás Santa Rosa. Neste periódico, ele pode experimentar o seu traço, tendo de, para isso, lidar com as possibilidades e os limites do maquinário disponível nas tipografias dos anos 1920, uma tarefa fundamental para um ilustrador e projetista gráfico. Além disso, havia o convívio com uma ampla gama de intelectuais experimentados nos mais variados âmbitos da produção de um impresso. Essa convivência se traduzia na forma de novas referências, aprendizados de ordem técnica e de leitura de mundo, mas, principalmente, renderia contatos para que ele conhecesse outras tantas pessoas. Além de que o impresso era um portfólio maravilhoso de suas possibilidades como ilustrador, que ele poderia ter sempre embaixo do braço para apresentar a um futuro contratante.
Naquele momento, é preciso considerar, ele já estava construindo uma carreira no funcionalismo público. Ainda em 1923, aos 14 anos, havia sido nomeado no setor de contabilidade do governo estadual e, em 1928, por ato do amigo intelectual Ademar Vidal, que ocupava uma secretaria, foi promovido. Essas funções, no entanto, não o satisfaziam. Tomás Santa Rosa queria mesmo – como nos contam os seus biógrafos Carlos Barsante e Thiago Brandão – mudar-se para a capital federal, onde vislumbrava a oportunidade de novos contatos para trabalhar em sua crescente indústria gráfica.
Fez, então, um concurso para o Banco do Brasil em 1932. E conseguiu uma vaga. Não no Rio de Janeiro, como aspirava, mas em Salvador. Algum tempo mais tarde foi transferido para o Recife, e de lá para Maceió. Ganhava pouco, menos que o necessário para sustentar a si próprio e à sua família, mas fez boas amizades nesse momento, dentre as quais a escritora Rachel de Queiroz, que desfrutava dos louros da publicação de seu primeiro romance de sucesso, O Quinze, publicado dois anos antes. Depois de muitas cartas trocadas, o amigo José Simeão Leal conseguiu a sua nomeação como desenhista da comissão de estradas em um ministério. Finalmente era chegada a hora de partir para a capital federal.
A mudança para o Rio de Janeiro foi estratégica para a carreira que Santa Rosa construiria no mercado editorial. Afinal, lá que estavam os mais importantes periódicos do país e também as maiores editoras. E foi nas editoras, como capista, que se tornou um artista reconhecido nacionalmente. No primeiro momento, desenhando capas para os livros de diferentes editoras. Mas principalmente, depois de 1934, como contratado da Livraria José Olympio Editora, quando ele se tornou responsável não só pela ilustração, mas por todo o projeto gráfico dos volumes.
O trabalho de Tomás Santa Rosa foi fundamental para o sucesso editorial que a José Olympio conquistou a partir da década de 1930. Vislumbrando a política de seu editor de reunir em seu catálogo os celebrados títulos de jovens literatos nordestinos que tinham feito sucesso na cena cultural brasileira havia pouco tempo, ele tratou de criar uma identidade visual para a coleção de livros da editora, que funcionava como uma espécie de selo, e certamente contribuiu para que seus autores fossem vistos como parte de um mesmo movimento – o chamado Regionalismo ou Romance de 30.
No mundo da não-ficção, o traço de Tomás Santa Rosa também teve uma marca importante. Em 1936, a editora criou a coleção Documentos Brasileiros, que apresentava ao público estudos de historiadores, sociólogos e economistas que se propunham a apresentar interpretações do Brasil. A direção da série cabia a Gilberto Freyre, tendo como volume de estreia Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. O selo teve vida longa, publicando 207 títulos até 1989. Um ponto fundamental de seu sucesso certamente era a identidade visual, com o pequeno coqueiro desenhado por Santa Rosa, remarcando que se tratava de um livro produzido na José Olympio.

Ao longo dos anos seguintes, Tomás Santa Rosa produziria outras tantas coisas. Na década de 1940, ele se tornou cenógrafo para inúmeras peças de teatro, promovendo uma inovação importante ao compor cenários em três dimensões, com andares que possibilitavam a percepção de diferentes ambientes. O caso mais emblemático foi para a montagem de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, que estreou em 1943. Em 1946, nosso personagem foi convidado a coordenar o curso de Artes Gráficas, que estava sendo criado na Fundação Getúlio Vargas. Faleceu em 29 de novembro de 1956, aos 47 anos, vítima de uma complicação renal, durante a viagem em que participou da IX Conferência Geral da Unesco, em Nova Delhi, na Índia.
A trajetória de Tomás Santa Rosa é curiosa em diversos aspectos. Entre a cidade da Paraíba e o Rio de Janeiro, das ilustrações para a revista Era Nova às capas dos livros da Livraria José Olympio Editora, é interessante perceber como as ideias circulavam. O traço tão peculiar do artista decerto tinha muito de uma estética modernista que ele via nos impressos paraibanos, e que pôde discutir e reelaborar junto a seus amigos conterrâneos. Essas sociabilidades intelectuais, aliás, seriam fundamentais para que ele pudesse ser projetado no mercado editorial do Rio de Janeiro. Outras referências se impuseram, mas ainda assim é bom perceber como temáticas relacionadas ao Nordeste continuaram rondando a sua produção.
Referências
ABRANTES, Alômia; BURITY, Luiz Mário Dantas. A revista Era Nova na Paraíba: notas de um modernismo de Estado. Pós: Revista do Programa de Pós-graduação em Artes da EBA/UFMG, Belo Horizonte, v. 14, n. 31, p. 121-156, 2024.
BARSANTE, Cássio Emanuel. Santa Rosa em cena. Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Artes Cênicas, 1982.
BUENO, Luís. Capas de Santa Rosa. Cotia: Ateliê Editorial, 2016.
LIMA, Edna Cunha. Santa não sou. Revista do Livro, n.55, Rio de Janeiro, p.57-63, 2015.
MACHADO, Ubiratan. A Capa do Livro Brasileiro: 1820-1950. Cotia: Ateliê Editorial, 2018.
SILVA, Thiago Brandão da. Fragmentos de uma história de vida, o afro-paraibano Tomás Santa Rosa Jr. (1909-1956): entre vivências, intelectualidades, ditos e feitos artísticos. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal da Paraíba. João Pessoa, 2021.







