Mestre Fuba: Uma vida entre a música, a memória e a cultura

Da bateria de Os Peraltas à criação das Muriçocas do Miramar, passando pela prisão durante a ditadura, o compositor paraibano revisita sete décadas de arte, história e transformação cultural.

Por Walter Santos 

Aos 70 anos, Mestre Fuba revisita uma vida atravessada pela música, pela literatura e pela cultura. A trajetória começou ainda na infância, em Campina Grande, quando escolheu a bateria e formou Os Peraltas com irmãos e amigos. Anos depois, no Rio de Janeiro, vieram a universidade, os festivais, as rodas de música e a convivência com artistas que ajudariam a renovar a produção nordestina.

Também veio a repressão da ditadura, com prisão e tortura. De volta à Paraíba, Fuba retomou a música e a produção cultural. Em 1987, uma canção criada para um bloco que nascia, as Muriçocas do Miramar, entraria para a história do carnaval de João Pessoa.

Confira, a seguir, a entrevista exclusiva à Revista NORDESTE.

REVISTA NORDESTE – Como o senhor se define nesse universo de tantas influências e realizações nas artes e na cultura?

MESTRE FUBA – Nasci numa geração que viveu grandes transformações culturais. Nos anos 1960 houve fortalecimento dos movimentos sociais, avanço tecnológico, chegada da televisão e corrida espacial. Em casa, meu avô paterno, Sindô, tocava sax, flauta, violão e cavaquinho e chegou a se apresentar com Capiba. Meu pai tinha um rádio enorme na sala e ouvia Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto, Luiz Gonzaga, Emilinha Borba, Jacob do Bandolim, Trio Irakitan e Dilermando Reis.

A televisão mudou a rotina das famílias e a música ganhou espaço. A Jovem Guarda e a Beatlemania chegaram com força. Em Campina Grande, onde eu vivia, quase toda garagem tinha um “conjunto”. A guitarra elétrica passou a fazer parte da música brasileira.

REVISTA NORDESTE – E como a música entrou definitivamente na sua vida?

MESTRE FUBA – Meus irmãos ganharam guitarra e contrabaixo. Eu também queria um instrumento. Meu pai me levou ao Clube do Papai Noel, programa infantil da Rádio Borborema, e quando vi a bateria me identifiquei na hora. Uma semana depois ele chegou com uma bateria armada na carroceria da caminhoneta.

Assim nasceu Os Peraltas, com Geovanni Barros na guitarra e meu primo Valério Moura na escaleta. Comecei a tocar aos nove anos. Como éramos menores de idade, meu pai precisou conseguir autorização da Ordem dos Músicos. Tocávamos em festas, casamentos, teatros e eventos na Paraíba e em Pernambuco. Chegamos a receber convite para ir ao Rio de Janeiro e tentar um lançamento nacional, mas meu pai não quis interromper nossos estudos.

Os anos 1960 foram decisivos para mim. Eu convivia com pessoas mais velhas, viajava praticamente todos os fins de semana e amadureci muito cedo.

REVISTA NORDESTE – Que influência tiveram os movimentos de contracultura daquele período?

MESTRE FUBA – A década de 1960 e parte da de 1970 foram uma grande revolução comportamental. O movimento hippie, os festivais, o rock e a Tropicália mostraram que a arte também podia ser uma forma de resistência. No Brasil, escritores, teatro, cinema, imprensa alternativa e música encontraram caminhos para contestar a ditadura.

Eu me considero consequência de tudo isso. A música, a literatura e a produção cultural acabaram sendo a razão maior da minha existência e sobrevivência.

REVISTA NORDESTE – O senhor viveu diretamente a repressão da ditadura. Como foi essa experiência?

MESTRE FUBA – Quando a ditadura foi implantada eu ainda era criança, mas acabei sendo vítima dela. No fim de 1973 fui morar no Rio de Janeiro e passei no vestibular para Engenharia Elétrica. Eu participava de eventos culturais e acompanhava manifestações. Morava perto da Cinelândia e ia aos atos. Talvez por isso tenha passado a ser monitorado pelo SNI.

Na primeira semana de outubro fui preso para uma suposta averiguação. Fui interrogado e liberado. Depois da morte de Vladimir Herzog, fui a uma manifestação na Cinelândia. No dia seguinte, quando fui dar força a um amigo, fui preso novamente, dessa vez com violência.

REVISTA NORDESTE – O que ficou mais forte na sua memória daquele período no Rio?

MESTRE FUBA – Copacabana era um reduto de turistas. Para ajudar na faculdade, três ou quatro noites por semana eu e um amigo fotógrafo, Walter, saíamos do Posto 6 ao Leme. Eu tocava violão de mesa em mesa e ele fotografava os turistas com uma Polaroid. Eles gostavam muito de Roberto Carlos e era possível voltar para casa com cerca de 100 dólares.

Eu fazia isso e depois seguia para a faculdade. Ao mesmo tempo, os pátios das universidades começavam a receber eventos culturais e discursos. Os movimentos de rua ainda eram tímidos, mas estavam voltando. Eu participava no palco ou na plateia.

REVISTA NORDESTE – O que aconteceu nessa segunda prisão?

MESTRE FUBA – Fui encapuzado e levado para um local onde começaram os interrogatórios. Cada resposta que não agradava vinha acompanhada de agressão física ou psicológica. Fui colocado numa cela com outros presos e depois isolado. Mandaram que eu permanecesse em pé, sem dormir. Passei cerca de 28 horas nessa posição. Quando ameaçava cair, jogavam água fria, cuspiam em mim e ameaçavam me matar.

Também falaram em me colocar na chamada “geladeira”, um cubículo escuro e extremamente frio, com um ruído ensurdecedor. Eu já estava sem condições de entender o que acontecia.

Acabei sendo libertado depois que um amigo de infância, Carlos Marques de Andrade, conseguiu localizar onde eu estava e acionou contatos da família. Sou grato a ele por ter salvado minha vida.

REVISTA NORDESTE – E o que aconteceu depois da libertação?

MESTRE FUBA – Passei dois dias na cama, com o corpo inteiro doendo e pesadelos. Meu pai apareceu no Rio e mandou que eu trancasse a matrícula e voltasse para a Paraíba. Depois descobri que ele tinha sido alertado por um general amigo de que eu poderia ser morto. A preocupação também era não prejudicar meu irmão Enivaldo, que era deputado pela Arena.

Durante anos, esse episódio ficou praticamente guardado. Só muito tempo depois minha mãe, já idosa, revelou que meu pai sabia da prisão e carregava vergonha pelo que havia acontecido. Ele nunca quis que aquilo se transformasse num trauma para mim.

REVISTA NORDESTE – O episódio da prisão voltou à sua memória muitos anos depois. Como isso aconteceu?

MESTRE FUBA – Comecei a escrever para o Diário de Vanguarda e minha mãe, muito antenada, acompanhava os assuntos. Um dia disse que escreveria sobre minha prisão no Rio. Ela tomou um susto e falou: “não escreva sobre isso, Flavinho, que o seu pai tinha a maior vergonha!”. Foi então que descobri que ela sabia de tudo.

Ela me contou o que sabia e eu registrei no iPhone. Meu pai, de alguma forma, acabou tentando apagar da minha memória aquilo que poderia se transformar em trauma. Eu simplesmente segui em frente.

REVISTA NORDESTE – A volta à Paraíba mudou o rumo da sua trajetória?

MESTRE FUBA – Mudei de curso, passei pela Engenharia Mecânica e depois pela Civil, mas a arte sempre falou mais alto. Em 1977, toquei uma música minha no Festival de Inverno de Campina Grande. Montei o grupo Pó-Puêra, fiz shows, comecei a trabalhar como produtor e participei de projetos de música e teatro. Em 1980, voltei para o Rio. Nada era mais forte do que a arte e a possibilidade de viver fazendo o que gosto.

REVISTA NORDESTE – O senhor pertence a uma geração que reuniu nomes como Lenine, Bráulio Tavares, Ivan Santos e Lula Queiroga, entre outros. O que essa convivência produziu?

MESTRE FUBA – Fomos morar no Rio mais ou menos na mesma época. A casa nove, em Botafogo, virou ponto de encontro. Depois fomos para Santa Teresa. Fazíamos rodas de viola, cantávamos e corríamos atrás dos shows. Aos poucos, aquela música ganhou espaço.

Tive minha primeira música gravada por Elba Ramalho, “Temporal”, parceria com Bráulio Tavares, em 1981. Depois vieram “A Volta dos Trovões”, também com Bráulio, e “Baque da Era”, parceria com Zé Rocha, gravada por Lenine e que tocou na Rádio Nacional. Fizemos um movimento forte em universidades e espaços culturais. Entre 1981 e 1984, acredito que contribuímos para uma nova vertente da MPB.

REVISTA NORDESTE – E a geração de artistas da Paraíba e de Pernambuco que também chegou ao mercado nacional?

MESTRE FUBA – Zé Ramalho, Elba Ramalho, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Amelinha e Cátia de França abriram portas para a consolidação da música nordestina, enfrentando um mercado que considerava o som regional difícil de colocar nas rádios. A mistura da guitarra elétrica com forró, baião e frevo trouxe uma sonoridade diferente.

O disco quadrafônico de Alceu Valença e Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, “Ave de Prata”, de Elba, e “20 Palavras ao Redor do Sol”, de Cátia de França, são referências desse período. Tudo isso ajudou a música nordestina a ganhar espaço e respeito.

REVISTA NORDESTE – Como nasceu sua relação com as Muriçocas do Miramar?

MESTRE FUBA – Em 22 de fevereiro de 1987, fui apresentado a Vitória por Bob Zaccara. Ela pretendia colocar um bloco na rua poucos dias depois e precisava de uma música. Peguei o nome “Muriçocas do Miramar” e fiz a letra pensando em Tambaú, no Rio Sanhauá, na cidade antiga, nos casarões e no litoral de João Pessoa. Acabou sendo um exercício de autoestima.

No ano seguinte, diante da ausência de Vitória e Gualberto, resolvi continuar a brincadeira. Com Bob Zaccara, Clóvis Mendes, Eliane Holanda e Edir, fomos atrás de apoio e colocamos novamente as Muriçocas na rua. O crescimento do bloco ajudou a impulsionar a criação da Folia de Rua.

REVISTA NORDESTE – O frevo e o axé convivem hoje no pré-Carnaval de João Pessoa. Como o senhor vê essa mistura?

MESTRE FUBA – Não tenho objeção. Durante um tempo discutíamos essa questão e queríamos que o carnaval fosse pautado pelo frevo. Depois pesquisei a história do Carnaval e percebi que essa discussão não valia a pena. O Brasil tem um carnaval diferente justamente por causa da música.

Marchinha, frevo, maracatu, axé, samba, carimbó, boi e caboclinho fazem parte da diversidade carnavalesca brasileira. O importante é fortalecer os grupos de cultura popular. Disso as Muriçocas não abrem mão.

REVISTA NORDESTE – Além da música, a literatura ganhou espaço na sua produção. Como aconteceu essa passagem?

MESTRE FUBA – A música sempre foi prioridade, mas a literatura veio junto. Passei a escrever diariamente, de forma aleatória. Às vezes sai uma frase; às vezes o texto flui. É como colocar os neurônios na academia. Hoje vejo música e literatura andando juntas.

Escrevi uma coluna semanal no Correio da Paraíba e dela saíram 45 crônicas reunidas em “Nas Ruas de Nossas Cabeças”. Depois publiquei “Parahyba 1930, A Verdade Omitida”, sobre os bastidores da Revolução de 1930; “Hipotálamo”, de poesia; e “A Celebração da Alegria e os 40 anos das Muriçocas do Miramar”. Também publiquei “Nós”, “Acrosticados”, em dois volumes, e o romance “Ditos Predestinados”. Tenho ainda livros em andamento sobre a história da humanidade e uma autobiografia que servirá de base para um documentário sobre minha vida, previsto para 2030.

REVISTA NORDESTE – Seu livro sobre 1930 apresenta uma leitura que contraria a versão mais conhecida. O que o levou a pesquisar esse episódio?

MESTRE FUBA – Sempre tive curiosidade pela história da Paraíba. No livro, procuro mostrar os bastidores políticos que antecederam 1930. Havia a política do Café com Leite, as disputas entre grupos e, na Paraíba, conflitos envolvendo João Pessoa, os Pessoa de Queiroz e os adversários políticos.

A chamada Revolta de Princesa também ocupa espaço importante. Para mim, foi um conflito de grandes proporções, com a criação de um território com hino, bandeira e constituição. A morte de João Pessoa, em Recife, foi depois incorporada à narrativa que ajudou a criar a comoção em torno da Aliança Liberal.

O livro nasceu justamente da vontade de olhar para esse episódio por outro ângulo, usando documentos e procurando reconstruir fatos que considero pouco conhecidos. Não me interessa repetir a história oficial sem questioná-la.

REVISTA NORDESTE – O que o senhor pretende registrar ao revisitar a história de 1930?

MESTRE FUBA – Meu livro parte da ideia de que é preciso olhar para o que aconteceu antes do movimento de 1930. Eu questiono a versão consagrada e procuro mostrar os bastidores políticos da Paraíba, a disputa entre grupos e a chamada Revolta de Princesa. A história precisa ser examinada também pelo lado que não foi contado pelos vencedores.

REVISTA NORDESTE – Aos 70 anos, qual é sua relação com o tempo e com o futuro?

MESTRE FUBA – Minha vida sempre foi pautada pela serenidade. Aprendi que nem tudo acontece no tempo que planejamos. Para mim, o futuro é o agora. A vida é hoje; o ontem já foi embora e o amanhã talvez não venha.

Tenho pesquisado e escrito sobre a história da humanidade. Quero deixar registrado meu olhar sobre ela. Ao mesmo tempo, preparo minha autobiografia e tenho quatro livros em fase de finalização.

REVISTA NORDESTE – O que representa hoje ser um artista que atravessou tantas mudanças tecnológicas?

MESTRE FUBA – É preciso entender que o mundo mudou completamente. Vi o LP virar CD, o CD virar disquete, o disquete virar pendrive, a fita cassete virar DVD, depois vieram as lives e o streaming. Antes, mesmo um artista independente tinha mais possibilidades de comercializar seu produto. Um jingle que custava cerca de 6 mil dólares naquela época hoje tem outro valor de mercado.

A tecnologia democratizou muita coisa, mas também criou novas exigências. O artista precisa mostrar qualidade logo de primeira e convive com uma exposição permanente. A internet trouxe possibilidades e também interferiu na privacidade.

REVISTA NORDESTE – E como acompanha as transformações da música e o surgimento de novos artistas?

MESTRE FUBA – Eu torço para que meus amigos conquistem espaço e sobrevivam dignamente com sua arte. Eu vi o LP virar CD, o CD virar disquete, o disquete virar pendrive, a fita cassete virar DVD, depois vieram a internet, as lives e o streaming. A tecnologia mudou a forma de produzir, divulgar e consumir música.

Também mudou a relação com a privacidade. Hoje o artista precisa mostrar qualidade logo de início e ainda fica sujeito às críticas da internet. Vejo em Juzé um talento genuíno. Fui assistir ao musical “Anunciação”, sobre Alceu Valença, e ele estava entre os protagonistas.

REVISTA NORDESTE – Sua relação com a espiritualidade também aparece em sua produção. Como ela se desenvolveu?

MESTRE FUBA – Minha formação é católica. Ao longo da vida, li livros espirituais, a Bíblia e conheci diferentes religiões e doutrinas. Fui ao encontro da Nova Consciência, em Campina Grande, e conheci a tradição do Santo Daime. Mais tarde fui até Mapiá, numa viagem que levou quase três dias, para conhecer aquela comunidade.

Durante a pandemia, tive sonhos nos quais aparecia a ideia de fazer um hinário espiritual com 118 músicas. Produzi esse trabalho pensando no momento que as pessoas estavam vivendo e na necessidade de refletir sobre o cuidado com o planeta.

Para mim, espiritualidade é uma questão de consciência. Se você respeita o próximo, a natureza e os animais, tem a consciência limpa. A humanidade precisa rever seu comportamento, porque a destruição ambiental e a falta de solidariedade também são problemas de consciência.

REVISTA NORDESTE – Que futuro o senhor enxerga para a cultura paraibana e nordestina?

MESTRE FUBA – A Paraíba é um dos celeiros culturais importantes do Brasil. Nos últimos anos houve uma interiorização dos projetos e uma aproximação com a essência cultural de cada região. A cultura também pode fortalecer o turismo e a economia criativa.

No Nordeste, vejo espaço crescente para o turismo cultural, valorizando festas tradicionais, culinária, artesanato e patrimônio histórico. Quando isso é trabalhado junto com a preservação, cria condições para que a identidade cultural também tenha força econômica.

A cultura precisa continuar chegando ao interior e aos grupos que mantêm as tradições. É assim que uma região preserva sua memória e, ao mesmo tempo, cria novas possibilidades para quem vive dela.

*Entrevista publicada na edição 236 da Revista NORDESTE
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Ana Júlia Silva

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