O escritor e cronista Carlos Vieira aborda neste sábado em seu espaço permanente, aspectos que buscam entender o significado da sociedade conviver entre “o erudito e o popular”. Leiamos a seguir/
Porque hoje é sábado!
Entre o erudito e o popular
“Construir frases é o segredo da arte de escrever”, ensinava Antoine Albalat.
Mas onde colocar aqueles que nunca escreveram um livro e, ainda assim, produziram frases que atravessaram gerações e se transformaram em ensinamentos? Onde alocá-los na escala da literatura?
Ainda bem que existe um espaço para a oralidade — essa arte de imitar a vida, de traduzir experiências e de transformar o cotidiano em sabedoria.
“Vão-se os anéis, ficam os dedos.”
“Para conhecer um homem, dê-lhe poder ou dinheiro.”
“Todos são seus amigos, mas podem ser seus inimigos; as circunstâncias confirmarão.”
“Leve paz aos outros.”
“Nada como um dia atrás do outro.”
“Quem muito se abaixa…”
“Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.”
São frases simples, algumas anônimas, outras de autoria imprecisa, mas que carregam uma força extraordinária. Foram construídas não necessariamente por escritores, mas pela experiência humana. São pedaços da vida transformados em linguagem.
O popular tem seu espaço privilegiado — e talvez seja muito mais massificado do que o erudito. É a literatura que circula de boca em boca, que não precisa de bibliotecas para sobreviver e que encontra abrigo na memória das pessoas.
No Brasil, personalidades como Ariano Suassuna, Câmara Cascudo e Mário Quintana, entre tantos outros, souberam transformar em erudição arquétipos, personagens, expressões e saberes típicos do universo popular.
Particularmente, admiro o erudito, mas amo o popular.
Amo a frase viva, aquela que nasce no calor do cotidiano e não necessariamente nas páginas de um livro. A frase que surge, por exemplo, numa fila de metrô, na conversa despretensiosa de uma praça ou nas proximidades da banca do feirante, quando alguém, ao oferecer seu produto, também nos oferece uma pequena lição de vida.
Talvez esteja aí uma das maiores riquezas da linguagem: o erudito escreve para permanecer; o popular fala para sobreviver.
E, muitas vezes, ambos acabam encontrando o mesmo destino: a memória de quem escuta.

