Carlos Vieira na Coluna “Porque hoje é sábado!” Aborda “A terceira revisão” sob influência de Luís Fernando Veríssimo

O cronista Carlos Vieira retoma sua leitura literária neste sábado final de agosto abordando leitura particular sobre a “ Terceira Revisão”, sob influência do genial Luís Fernando Veríssimo.

Eis o texto na íntegra, a seguir:

“Nossas vidas seriam mais suportáveis se pudéssemos viver somente depois da terceira revisão.”

A frase é de Luís Fernando Veríssimo e está em um de seus livros, no qual apresenta crônicas sobre o universo jazz e seus astros. É interessante encontrá-la, a frase, justamente nesse universo marcado pelo improviso: no jazz, uma nota é lançada no tempo e, depois dela, não há como voltar atrás. O músico precisa conviver com o que tocou e construir, a partir dali, a próxima frase musical.

Mas e se tivéssemos o dom divino de acionar um recall no play da vida e pudéssemos retornar aos acontecimentos até chegar a uma terceira versão, mais aprimorada?

Certamente, palavras ditas seriam recolhidas; intrigas desfeitas; acidentes e mortes talvez fossem evitados; viagens descabidas seriam canceladas. E as guerras? Será que também poderiam ser evitadas?

A questão se complica e vira uma equação impossível, quando imaginamos vários atores presentes numa mesma cena da vida, cada qual com interesses divergentes. Se todos pudessem apertar o botão do recall, sem um mediador capaz de administrar os conflitos e interesses, como ficaria a cena reelaborada? Talvez o mundo mergulhasse numa interminável revisão, numa paralisia provocada pela dúvida sobre qual seria, afinal, a melhor versão possível dos acontecimentos.

Talvez seja justamente aí que resida a beleza — e também o risco — da existência.

Mesmo em um mundo imperfeito, não recebemos o privilégio de revisar indefinidamente o que já vivemos. Temos, entretanto, algo talvez ainda mais precioso: a capacidade de escolher o próximo movimento.

No jazz, o improvisador não apaga a nota que acabou de tocar. Ele a incorpora, dialoga com ela e cria a seguinte. Numa linda sequência de músicas improvisadas como no álbum Blue Suit Blues, mesmo sabendo que o blues é a gênese do jazz e este é mais que blues. Mas vale muito conferir.

A vida também parece ser assim.

Não temos o poder de fazer recall do passado. Temos o livre-arbítrio para construir o futuro. Fazendo com que cada ser seja o improvisador da sua existência.

E talvez a verdadeira terceira revisão da vida não seja aquela que corrige o que passou, mas aquela que nos ensina a fazer melhor o que ainda está por vir.

Fraterno abraço

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Walter Santos

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