No coração da Caatinga pernambucana, trilhas, sítios arqueológicos, espaços sagrados e personagens revelam um Nordeste onde natureza, memória e cultura caminham juntas
Por Luciana Leão

Há paisagens que impressionam pela beleza. Outras, pela grandiosidade. O Vale do Catimbau reúne as duas qualidades. Os primeiros minutos de caminhada são quase silenciosos. Não porque o grupo tenha combinado falar menos, mas porque a paisagem impõe outro ritmo.
Os paredões de arenito surgem entre a vegetação da Caatinga e, pouco a pouco, as conversas cedem lugar à contemplação. Caminhar pelo Vale do Catimbau é aceitar esse convite. Não há pressa quando o tempo parece ter deixado suas marcas em cada pedra, em cada trilha e nas pinturas rupestres que atravessaram milhares de anos para chegar até os dias de hoje.
Visitei o Catimbau em junho, quando as chuvas ainda deixavam suas marcas na paisagem. O verde cobria as encostas, flores surgiam entre as pedras e desmontavam um dos equívocos mais persistentes sobre o Semiárido: o de que a Caatinga é apenas seca. O silêncio, interrompido apenas pelo vento e pelo canto dos pássaros, transformava o percurso em algo maior do que uma trilha. Caminhar ali era aprender a observar.
Não fui ao Catimbau para escrever esta reportagem. Fui apenas para contemplar. Durante anos, aquele lugar ocupou um espaço na minha lista de viagens. Bastaram os primeiros quilômetros de caminhada para perceber que voltar sem compartilhar essa experiência seria impossível.
Foi o jovem guia Izac Silvestre da Costa Cavalcanti quem conduziu parte da caminhada até o primeiro destino: a trilha do Santuário. Aos 22 anos, ele conhece o Vale desde menino e começou a conduzir visitantes aos 14 anos.
Pergunto qual é seu lugar preferido no Catimbau. A resposta vem sem hesitação. “Não tenho um lugar certo. Todos me emocionam. Sempre será como a minha primeira vez.”
Enquanto seguimos pela trilha, percebo que aquela resposta dizia tanto sobre Izac quanto sobre o próprio Catimbau. Cada parada traz uma história sobre a formação das rochas, as plantas da Caatinga, os antigos habitantes do Vale ou alguma lembrança de quem nasceu ali. A paisagem vai ganhando novas camadas.
Foram quatro dias percorrendo com a Fafislú Viagens Divertidas pelo Nordeste apenas uma pequena parte do Vale, principalmente em Buíque (PE). Pouco para um parque com cerca de 62 mil hectares, distribuídos também pelos municípios de Ibimirim e Tupanatinga. Tempo suficiente, porém, para entender que o Catimbau não se revela de uma única vez.
As marcas do tempo
As trilhas conduzem a mirantes, corredores naturais e sítios arqueológicos que ajudam a compreender por que o Vale do Catimbau ocupa um lugar de destaque entre os mais importantes patrimônios pré-históricos do Brasil. Em Alcobaça, um dos sítios mais visitados, as pinturas rupestres, com figuras geométricas e figurativas, interrompem novamente a caminhada. Não são desenhos isolados sobre a rocha. São registros deixados por grupos humanos que viveram naquela região milhares de anos antes da chegada dos colonizadores.
O Parque Nacional do Catimbau reúne cerca de 105 sítios arqueológicos conhecidos, formando um dos mais expressivos conjuntos do país. Criado em 13 de dezembro de 2002, ocupa uma área de aproximadamente 62 mil hectares e se estende pelos municípios de Buíque, Ibimirim e Tupanatinga, no Agreste pernambucano, como dito anteriormente.
A riqueza do Vale, porém, não está apenas nas marcas deixadas pelo homem. A Caatinga abriga uma biodiversidade surpreendente, com espécies como tatu, veado-catingueiro, tamanduá-mirim, gato-do-mato, além de dezenas de aves, répteis, bromélias, cactos e outras plantas adaptadas ao clima semiárido. Caminhar por ali é descobrir que o único bioma exclusivamente brasileiro está muito distante da imagem de um território árido e sem vida.
O caminho do silêncio

Há, no entanto, uma trilha diferente das demais. Ela não chama atenção pelas pinturas rupestres. É a trilha do Santuário.
São três quilômetros de caminhada entre subidas e descidas. Ida e volta são seis quilômetros. Cada pessoa encontra naturalmente o seu ritmo. Não existe pressa. O próprio percurso parece ensinar que chegar não é mais importante do que caminhar.
Ao longo do caminho, três mirantes convidam à pausa. Dali, o Vale se abre em diferentes perspectivas. Os paredões mudam de forma conforme a luz do dia, enquanto a Caatinga se espalha em diferentes tons de verde.
O destino é um grande afloramento rochoso conhecido como Santuário. Muito antes de despertar o interesse de pesquisadores e visitantes, aquele lugar já era frequentado por povos ancestrais e continua sendo procurado por comunidades da região como espaço de oração, silêncio e cura.

Ali, ninguém precisou dizer o que fazer. Alguns preferiram deitar sobre as pedras e contemplar o céu. Outros fecharam os olhos. Houve quem permanecesse sentado, apenas observando a paisagem. Durante alguns minutos, ouviam-se apenas o vento atravessando as formações rochosas e o canto dos pássaros.
Ao final, sem qualquer combinação, o grupo começou a se levantar. Um a um, os participantes deram as mãos. Não havia cerimônia organizada nem palavras. Apenas um gesto espontâneo que parecia nascer do próprio lugar.
Durante alguns instantes, ninguém sentiu necessidade de dizer nada.
É difícil explicar o que aconteceu naquele instante. Talvez porque certos lugares não peçam explicações. Apenas presença.
A cura pela arte
A poucos quilômetros dali, outra caminhada leva a um personagem que traduz o Catimbau por meio da arte. O ateliê do mestre Luiz Benício não se parece com um espaço convencional. Instalado em meio à Caatinga, o ambiente parece prolongar a paisagem. Antes mesmo de encontrar o artista, o visitante encontra sua obra. Esculturas de madeira dividem o terreno com árvores, pedras e mandacarus, como se sempre tivessem pertencido àquele lugar.



A história do artista ajuda a compreender sua obra. Filho de uma família humilde, trabalhou na agricultura, enfrentou o alcoolismo e encontrou na escultura um novo caminho.
“A arte me libertou dessa escravidão”, resume. Depois acrescenta uma frase que parece definir também o próprio Catimbau: “Cada pedaço de pau que estou esculpindo é como se também esculpisse a minha pessoa.”
As cinco premiações conquistadas na Fenearte ajudam a explicar o reconhecimento de Luiz Benício, hoje integrante da Galeria dos Mestres da feira. Mas o maior prêmio talvez seja outro: ver sua arte confundindo-se com a própria paisagem do Catimbau. Ela carrega a mesma matéria-prima do Vale: resistência, pertencimento, simplicidade e identidade.
Pertencer ao Vale
O Catimbau também é feito das pessoas que decidiram permanecer ali. Hoje, cerca de 60 famílias vivem diretamente do turismo. Guias, artesãos, pequenos empreendedores e moradores encontraram na preservação uma forma de garantir renda e proteger um patrimônio que pertence ao Brasil.
Izac acredita que esse seja o maior desafio. Preservar para que outros possam viver a mesma experiência. Pergunto o que ele espera que um visitante leve consigo ao deixar o Vale.
Ele não fala de fotografias nem de lembranças. Responde sem hesitar: “Gostaria que cada pessoa levasse a sensação de pertencimento à natureza, o respeito pelo lugar e saísse com o coração limpo e a alma renovada”.
Ao deixar o Catimbau, lembrei da resposta de Izac. Mais do que fotografias, ele espera que cada visitante leve um sentimento de pertencimento. Entendi o que queria dizer. Alguns lugares continuam conosco muito depois do fim da viagem.

