Fundador da Selfit prepara nova aposta: rede de clínicas para crianças neurodivergentes

 

Leonardo Pereira, CEO e fundador do grupo WE Scale, revela planos para consolidar mercado fragmentado de atendimento a TEA, TDAH e outras condições, inspirado no modelo de sênior living

Por Luciana Leão

O mesmo empresário que transformou a Selfit na segunda maior rede de academias do Brasil agora mira um setor bem distante das esteiras e halteres. Leonardo Pereira, CEO e fundador do grupo We Scale, confirmou em entrevista à revista NORDESTE que está no radar da companhia a consolidação de uma rede de clínicas multidisciplinares voltadas ao atendimento de crianças neurodivergentes, casos de Transtorno do Espectro Autista (TEA), hiperatividade e bipolaridade, entre outros. O plano prevê início em 60 a 90 dias, com investimento inicial de R$ 1,5 milhão.

De Salvador para o Brasil

Apesar de ser pernambucano, de Olinda, Leonardo fundou a Selfit em 2012, em Salvador, por questões de mercado, logística e demanda à época. De lá para cá, construiu uma trajetória empreendedora que hoje soma 210 operações em todo o Brasil, com maior concentração em Pernambuco, Bahia e Ceará. Segundo ele, o número de unidades deve chegar a 250 até o fim deste ano.

A rede Selfit está entre as 11 empresas sob o guarda-chuva do grupo We Scale, tendo ainda a NF Empreendimentos e a Oral Unic como carros-chefe. Para 2026, o conglomerado, integrante da rede Endeavor, projeta um faturamento de cerca de R$ 3 bilhões, sendo mais de meio bilhão vindo apenas da Selfit. A projeção é de um crescimento entre 30% a 40% em relação a 2025.

O modelo de negócios por trás desse crescimento é o de Venture Builder, uma estrutura em que empreendedores identificam oportunidades de mercado e combinam capital, gestão, tecnologia e pessoas para criar e escalar empresas do zero, ou quase.

Para Leonardo, escalar uma empresa é um desafio diferente de simplesmente aumentar o faturamento. “Criar uma empresa é diferente de construir uma organização preparada para crescer. A escala exige que o empreendedor consiga transformar uma operação dependente de pessoas em uma estrutura capaz de evoluir continuamente”, afirma o empresário.

A trajetória também reforça uma tendência que ganha força no ambiente de negócios brasileiro, a de que grandes empresas podem nascer fora do eixo Rio, São Paulo.

Um mercado desassistido

A nova aposta do grupo nasce de um diagnóstico simples. O Brasil tem hoje cerca de 8 mil clínicas voltadas ao tratamento de neurodivergentes, número insuficiente diante de uma demanda crescente que nem o Sistema Único de Saúde (SUS) nem os planos de saúde conseguem absorver por completo.

O tamanho real dessa demanda, segundo a tese da We Scale, é maior do que os números informais sugerem. Hoje, apenas 1 em cada 10 crianças com alguma neurodivergência possui laudo, mas a estimativa é de que o número real esteja entre 3 e 3,5 em cada 10. Essa subnotificação é vista pelo grupo como uma das principais oportunidades do setor.

Como vai funcionar

Diferentemente da Selfit, que cresceu abrindo unidades próprias, a entrada no setor de saúde para neurodivergentes deve seguir outro caminho, o de parcerias com redes de hospitais ou clínicas independentes que já tenham convênio com planos de saúde e um histórico de operação consolidado, entre 5 e 15 unidades ativas, o que Leonardo chama de já ter passado “de uma certa curva de arrebentação”.

Leonardo Pereira, fundador da Selfit Academias e CEO da We Scale/Divulgação

Leonardo explica o que enxerga por trás da tese. “Quando você olha hoje as despesas com os planos de saúde, o que era a primeira rubrica, que era oncologia, hoje é o tratamento de crianças. Esse setor tem uma relação direta com a saúde e com o bem-estar, então a gente acredita que é algo complementar à nossa tese”, diz.

“É um business complexo, ultra-regulado, mas tem um propósito e um bem social que conversa com o que a gente acredita. Ele é lucrativo e, ao mesmo tempo, muito arraigado de propósito.

Sobre a escolha geográfica, ele é direto. “Quando a gente olha o Norte e Nordeste, a gente é muito desassistido nisso, principalmente no interior. É muito provável que a gente vá buscar consolidar essa tese, como a gente fez com a Selfit.”

O empresário também reconhece as particularidades do setor. “É um setor muito delicado, sensível demais. E, ao mesmo tempo, ele traz aquelas empresas que trabalham só com laudo judicial, que processam o que o plano de saúde não cobre, entre outras coisas.”

Para ele, a relação da saúde suplementar no Brasil com crianças neurodivergentes passa por um momento particular. “As crianças neurodivergentes estão fazendo com que essa rubrica, essa despesa toda, seja cada vez mais ficcionada. Eu acho que tem como a gente solucionar isso.”

O público-alvo, portanto, é mais nichado do que amplo, crianças com plano de saúde, já que o modelo de negócio depende de convênios com a saúde suplementar para viabilizar as contas. A tese aposta na consolidação de um mercado ainda fragmentado, com baixo nível de serviço e ticket médio alto, os mesmos ingredientes, segundo o empresário, que permitiram consolidar a Selfit no setor fitness. No jargão do grupo, o setor está em estágio de “pré-consolidação”.

O espelho: Viva Senior Living

O projeto para crianças neurodivergentes tem um paralelo direto dentro do próprio grupo, o Viva Senior Living, voltado à terceira idade. A lógica é semelhante, devolver independência e vida social a quem hoje vive em função do cuidado integral de um familiar dependente.

Assim como o Viva Senior Living busca reintegrar idosos e liberar filhos de 40 a 50 anos da rotina de cuidado, a nova rede de clínicas pretende dar mais autonomia aos pais de crianças neurodivergentes, que frequentemente abrem mão da própria vida pessoal para acompanhar os filhos em tempo integral dentro das clínicas.

Fitness em transformação

Enquanto a nova aposta ainda sai do papel, a Selfit segue como o principal ativo do grupo. O mercado de fitness no Brasil movimenta hoje cerca de R$ 60 bilhões, com 70 mil academias em operação, número que pode saltar para 150 mil nos próximos dez anos, segundo projeções do setor.

O avanço das canetas emagrecedoras também entra na conta do empresário, mas como oportunidade, não ameaça. “A estratégia do crescimento é muito clara para a gente, e acreditamos em um outro ponto de inflexão, que é a redução dos preços das canetas emagrecedoras de forma geral”, afirma Leonardo.

Na visão dele, isso tende a aquecer o setor fitness, já que quem emagrece com o auxílio da caneta busca manter o resultado a longo prazo, e é nas academias que essa manutenção acontece, reforçando a demanda por qualidade e estabilidade nos serviços.

 

*Matéria publicada na edição 234 da revista Nordeste

Curta e compartilhe:

Luciana Leão

Leia mais →

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *