Celso Furtado: homenagear é importante. Ler sua obra é indispensável, por Paulo Galvão Júnior

Paulo Galvão Júnior (*)

A posse da nova diretoria do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba (FCFPB), realizada em João Pessoa, no auditório do SINCONTABIL-PB, no Liv Mall Shopping, representou um importante momento de celebração e renovação institucional. O evento reuniu economistas, contadores, advogados, estudantes, professores, pesquisadores, jornalistas, cooperativistas, lideranças sindicais, representantes do setor empresarial e membros da sociedade civil, reafirmando a importância de manter vivo o pensamento de Celso Monteiro Furtado (1920-2004), um dos maiores economistas brasileiros e um dos mais influentes intelectuais latino-americanos do século XX.

As observações a seguir não diminuem o mérito da solenidade nem o importante trabalho desenvolvido pelo FCFPB ao longo de sua trajetória. Ao contrário, pretendem oferecer uma contribuição construtiva para que as futuras atividades do FCFPB ampliem ainda mais a divulgação da extraordinária obra de Celso Furtado, fortalecendo seu legado intelectual junto à sociedade paraibana, nordestina, brasileira, latino-americana e mundial.

No dia 16 de julho de 2026, durante os pronunciamentos das autoridades presentes à mesa, foram feitas diversas referências à importância histórica de Celso Furtado, ao orgulho que representa para a Paraíba e à relevância de sua trajetória intelectual a nível nacional e internacional. Recordou-se que nasceu em 26 de julho de 1920, no município de Pombal, no Sertão Paraibano, e que, neste mês de julho de 2026, celebram-se os 106 anos de seu nascimento.

No entanto, chamou atenção a ausência de qualquer referência às suas obras. Após a abertura do mestre de cerimônia do evento e sócio-fundador do FCFPB, o contador Tarcísio Martins, nenhuma das autoridades mencionou um único livro do economista que marcou profundamente o pensamento econômico nordestino, brasileiro, latino-americano e mundial.

A lembrança de Celso Furtado sem qualquer referência às suas obras reduz o alcance da homenagem que se pretende prestar. Escritores são reconhecidos por seus livros; cientistas, por suas descobertas; artistas, por suas criações. Da mesma forma, um economista da estatura de Celso Furtado deve ser lembrado, sobretudo, por sua produção intelectual. São seus livros que perpetuam suas ideias, alimentam o debate acadêmico, influenciam políticas públicas e continuam formando novas gerações de estudantes, professores, economistas, sociólogos, historiadores, pesquisadores e estudiosos da teoria do desenvolvimento econômico.

Essa omissão representou uma oportunidade perdida. Em um evento dedicado justamente ao fórum que homenageia Celso Furtado desde 5 de julho de 2019, teria sido extremamente enriquecedor apresentar ao público as suas principais publicações, contextualizando suas contribuições para os desafios contemporâneos.

Entre suas obras, destaca-se O Mito do Desenvolvimento Econômico (1974), considerada uma obra pioneira na crítica ao modelo convencional de desenvolvimento econômico, pois questiona a crença de que o crescimento econômico, nos moldes das economias industrializadas, poderia ser universalizado de forma ilimitada.

Em um contexto marcado por incêndios florestais no Canadá, ondas extremas de calor na França, enchentes na China e tempestades no Chile, a leitura desse livro torna-se indispensável, pois ajuda a compreender a crise ambiental global que se manifesta, de forma cada vez mais intensa, por meio dos eventos climáticos extremos observados nas últimas semanas.

O livro de Celso Furtado questiona a ideia de que o padrão de crescimento e consumo das economias mais ricas poderia ser universalizado sem ultrapassar os limites ecológicos do planeta. Com notável capacidade de antecipação, o autor demonstrou que um modelo de desenvolvimento baseado na expansão ilimitada da produção e do consumo de bens inevitavelmente entraria em conflito com a finitude dos recursos naturais.

Mais de cinco décadas depois, sua reflexão mostra-se extraordinariamente atual, iluminando debates centrais sobre desenvolvimento sustentável, economia ecológica, transição energética e mudanças climáticas, e reafirmando a relevância de seu pensamento para a construção de alternativas capazes de conciliar prosperidade econômica, justiça social e equilíbrio ambiental.

Os eventos promovidos pelo FCFPB representam oportunidades privilegiadas para divulgar esse extraordinário patrimônio intelectual. Cada atividade dedicada a Celso Furtado pode transformar-se em um espaço de homenagem, como também em uma oportunidade ímpar de formação intelectual, despertando o interesse pela leitura de sua obra entre estudantes, professores, economistas, pesquisadores, jornalistas e o público em geral.

Eu penso que a projeção das capas de seus livros nos 21 slides apresentados pelo FCFPB ou mesmo a distribuição de uma relação completa de suas mais de trinta obras, certamente despertaria a curiosidade dos participantes e estimularia novos leitores. Destacando que a obra do economista Celso Furtado permite pensar os rumos do Nordeste e do Brasil.

Vale ressaltar que mais do que homenagear o Professor Celso Furtado em eventos na Paraíba, é preciso fazer com que sua obra seja conhecida, lida, estudada e debatida. Sua produção intelectual ultrapassa três dezenas de livros, influenciando economistas e outros cientistas sociais, em vários países.

É lamentável que entre as sete autoridades que discursaram, nenhuma citou um livro de Celso Furtado. Infelizmente, não se mencionou A Economia Brasileira: contribuição à análise do seu desenvolvimento (1954), seu primeiro livro de economia; Formação Econômica do Brasil (1959), considerada sua obra-prima, no qual aprendemos sobre o início, apogeu e declínio do ciclo da cana-de-açúcar, do ciclo do ouro, do ciclo do café e do ciclo da borracha; Criatividade e Dependência na Civilização Industrial (1978), apontado pela jornalista carioca Rosa Freire d’Aguiar, viúva de Celso Furtado, além de escritora e tradutora, como seu livro predileto; nem Raízes do Subdesenvolvimento (2003), sua última obra de economia publicada em vida. Tampouco se recordou que Celso Furtado escreveu mais de trinta livros, muitos deles traduzidos para diversos idiomas, entre eles, o inglês, o francês, o espanhol e o italiano.

Poucos intelectuais brasileiros construíram uma produção bibliográfica tão vasta, original e influente quanto o poliglota e pensador Celso Furtado. Sua obra permanece uma referência indispensável para compreender os desafios do desenvolvimento do Brasil e da América Latina, a partir de uma interpretação estruturalista que evidencia as relações assimétricas entre centro e periferia e os mecanismos de reprodução das desigualdades econômicas em escala nacional e internacional.

O verdadeiro legado de Celso Furtado não reside apenas em sua brilhante trajetória institucional e acadêmica. Vive, sobretudo, em suas ideias, que continuam iluminando os grandes desafios do Brasil no século XXI, como as desigualdades regionais, as disparidades sociais, o baixo salário mínimo, as elevadas taxas de juros, os altos tributos e a elevada e insustentável dívida interna.

Que as próximas atividades promovidas pelo FCFPB reservem um espaço especial para apresentar sua vasta bibliografia. Afinal, a preservação da memória de Celso Furtado passa necessariamente pela divulgação de sua obra. Preservar a memória de um dos maiores intelectuais brasileiros significa também incentivar a leitura de seus livros, garantindo que seu pensamento continue inspirando atuais e futuras gerações de estudantes, professores, economistas, historiadores, sociólogos, pesquisadores e formuladores de políticas públicas.

A mais fiel homenagem que se pode prestar ao inesquecível economista paraibano Celso Monteiro Furtado, um dos principais intérpretes do Brasil, é divulgar e incentivar a leitura de sua obra. Seus livros permanecem extraordinariamente atuais porque tratam de temas permanentes, como desenvolvimento, subdesenvolvimento, desigualdade, pobreza, desemprego, democracia, cultura, planejamento estatal e democrático, industrialização, e globalização.

Quem lê Celso Furtado compreende melhor o Nordeste, o Brasil, a América Latina e os desafios da economia mundial. Como o próprio Celso Furtado demonstrou ao longo de toda a sua vida intelectual, as ideias transformam a sociedade porque, antes de tudo, transformam as pessoas.

Se este artigo puder contribuir para que, nos próximos eventos promovidos pelo FCFPB, dez minutos sejam dedicados exclusivamente à apresentação e divulgação de seus livros, seu propósito encontrará plena realização com sua publicação no site da renomada Revista NORDESTE, dirigida pelo jornalista paraibano Walter Santos, testemunha também dos fatos narrados pelo autor deste artigo e sócio efetivo do FCFPB desde 30 de junho de 2023.

Concluindo, mais importante do que cultivar um culto à personalidade de Celso Furtado é promover a leitura, o estudo crítico e a difusão de sua extraordinária obra. Pois lendo os livros de Celso Furtado na íntegra podemos despertar ideias para mudar a Paraíba, o Nordeste, o Brasil, a América Latina e o mundo em plena Quarta Revolução Industrial. Parabéns pela posse e muito sucesso para a nova diretoria do FCFPB no período de 2026 a 2028! Muita saúde aos 43 sócios do FCFPB, especialmente às estimadas sócias, que convivem com a preocupante escalada da violência contra as mulheres na Paraíba e no Brasil.

Vamos ler, reler e divulgar a obra de Celso Furtado em eventos na Paraíba, pois sua atualidade se renova diante dos desafios enfrentados pelo Brasil. No século XXI, o verdadeiro ouro é o conhecimento. É ele que amplia nossa capacidade de compreender a realidade, formular alternativas e transformar a sociedade brasileira. Afinal, somente o conhecimento nos permite agir com consciência, responsabilidade e compromisso com as atuais e futuras gerações.

 

Referência

CENTRO INTERNACIONAL CELSO FURTADO DE POLÍTICAS PARA O DESENVOLVIMENTO (CICEF). Livros de Celso Furtado. Disponível: https://centrocelsofurtado.org.br/home/celso-furtado/livros/. Acesso em: 17 jul. 2026.
(*) Economista paraibano (CORECON-PB 1392) formado pela UFPB, especialista em Gestão de RH pela UNINTER, conselheiro efetivo do CORECON-PB, membro do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, do Instituto de Inteligência Econômica (IIE) e do Grupo de Reforma Tributária da Paraíba. Além de escritor, professor de Economia e de Economia Brasileira, palestrante, colunista da Revista Nordeste em João Pessoa, do Portal Valentina em João Pessoa, do Portal Notícia Extra.com em João Pessoa, da SAM Consultoria em São Paulo e do Portal North News em Toronto, além de apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência na capital paraibana WhatsApp para palestras e entrevistas: +55 (83) 92000-4420.
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Redacao RNE

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