Sistema falho de saúde do DF transforma em rotina drama de famílias, por José Natal

Trágica estatística. Nos últimos 28 dias, pelo menos quatro famílias perderam entes queridos em Brasília, Capital da República, vítimas fatais, ao que tudo indica, de negligência de atendimento nas unidades de saúde, demora nos primeiros socorros ou carência de pessoas habilitadas ao desempenho de funções. Para cada caso que resultou em luto para as famílias, as mesmas explicações das autoridades da saúde: estamos apurando caso a caso, punição exemplar a possíveis responsáveis e providências serão adotadas, doa a quem doer.

Rotina macabra que a cidade, impotente, acompanha ano após ano e que traz, no seu pacote de prejudicados, quase sempre, pessoas não abastadas de recursos, moradoras da periferia e que dependem basicamente da assistência pública de saúde.

Ainda no mês de junho último, a pequena Valentina Nobre Lima, de 11 anos, moradora do Riacho Fundo I, picada por escorpião, teve que aguardar quase 8 horas por um socorro improvável, foi atendida de improviso por amigos e parentes e, em seguida, internada numa UTI particular. Familiares, pessoas humildes, angustiadas, se queixam com ênfase da forma como a menina foi cuidada, que, 23 dias depois, perdeu a vida.

Wilmar Pereira da Silva (49 anos), desempregado, depois de ficar horas como um anônimo em uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) da comunidade do Sol Nascente, à espera de atendimento, morreu da forma como entrou, isolado e sem ser atendido ou ouvido, sequer por um enfermeiro.

O caso mais chocante, ao que parece, e inclusive sendo investigado pela Polícia Civil do DF, vem de Samambaia, bem perto do Plano Piloto, onde Maria Graciane Andrade e Silva (36 anos), saudável e sem histórico comprometedor em relação à gravidez, perdeu a vida já na sala de parto. A criança sobreviveu e está na UTI do hospital.

Rodrigo Rezende de Prado, de 48 anos, alegando sentir dores no peito, pediu ajuda médica no Hospital de Base, maior da cidade. Atendido, foi para casa e voltou a passar mal. De volta ao hospital, aguardando atendimento, foi socorrido por outros pacientes, cambaleando, sem controle. Sem um médico por perto, não resistiu ao infarto fulminante e morreu.

Claro e evidente que tragédias como essas, aqui relatadas, podem acontecer em qualquer grande cidade brasileira. Mas a sequência, e da forma como a nossa estatística cresce a cada ano, assusta e preocupa. Autoridades do setor se defendem, e o eterno jogo do empurra-empurra se faz presente, longe de soluções.

Aos 66 anos de idade, a Capital da República tem no seu Hospital de Base (o primeiro e o maior da cidade) talvez o maior receptor de pacientes que buscam atendimento, inclusive de cidades vizinhas dos Estados de Minas Gerais e Goiás. As unidades de saúde, espalhadas pelo Plano Piloto, satélites e comunidades, por mais que se justifiquem, atendem mal a população, são mal estruturadas e, não raro, são rejeitadas por médicos que, com baixos salários, buscam na rede particular melhores condições de trabalho e conforto profissional.

À luz da razão, esteja a solução onde quer que esteja, o fato é que passa da hora de que alguma providência, com maior grau de responsabilidade, seja adotada. A insistente e desagradável afirmação de que a melhor assistência médica da cidade está na ponte aérea Brasília–São Paulo deverá ser reconsiderada.

Alguém tem que fazer alguma coisa. Quem sabe a volúpia do momento eleitoral que se aproxima torne essa questão peça de campanha. Talvez poucos acreditem, vale tentar. Pouco ainda é melhor que nada.

José Natal
Jornalista

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