Nova política nacional fortalece o recaatingamento e consolida a visão de que o único bioma exclusivamente brasileiro pode se tornar peça estratégica no combate à desertificação, na adaptação climática e na construção de uma nova economia para o Semiárido
Por Luciana Leão
Durante décadas, a Caatinga foi associada à seca, à escassez hídrica e aos desafios históricos enfrentados pelo Semiárido brasileiro. Agora, uma nova abordagem começa a reposicionar o único bioma exclusivamente nacional no centro das discussões sobre mudanças climáticas, recuperação ambiental e desenvolvimento sustentável.
A sanção da Política Nacional de Recuperação da Caatinga ocorre em meio ao fortalecimento de uma estratégia que ganhou nome próprio: o recaatingamento. Mais do que a simples restauração de áreas degradadas, o conceito reúne recuperação da vegetação nativa, conservação da biodiversidade, proteção dos recursos hídricos, valorização dos saberes tradicionais e geração de oportunidades econômicas para as populações locais.

Em entrevistas exclusivas à Revista NORDESTE, o presidente do Consórcio Nordeste e governador de Alagoas, Paulo Dantas; o secretário-executivo do ICLEI América do Sul, Rodrigo Perpétuo; e o diretor do Departamento de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente, Alexandre Pires, defendem que a Caatinga vive um momento de transformação. Em comum, as três lideranças sustentam a ideia de que o bioma deixou de ser visto apenas como uma área vulnerável aos efeitos da seca para se tornar parte da resposta brasileira aos desafios climáticos globais.
A mudança de percepção não é trivial. Com cerca de 10% do território nacional, a região onde a Caatinga predomina abriga a maior área semiárida habitada do planeta. Ao longo dos séculos, a ocupação econômica baseada na expansão da pecuária, na retirada de vegetação nativa e no uso intensivo dos recursos naturais contribuiu para a degradação de extensas áreas. Hoje, mais de 40% da cobertura original do bioma já sofreu algum tipo de alteração.
É justamente diante desse cenário que o recaatingamento ganha força
Da vulnerabilidade ao protagonismo
Quando questionado pela reportagem da Revista NORDESTE sobre o novo papel do Semiárido no debate climático internacional, Paulo Dantas afirmou que os estados nordestinos trabalham para superar uma visão historicamente associada à escassez.
“O debate climático global historicamente associou as regiões semiáridas a cenários de passividade e escassez. O que estamos propondo é uma virada completa nessa narrativa”, afirma.
Segundo o presidente do Consórcio Nordeste, a Caatinga reúne características que a transformam em um ativo estratégico para o enfrentamento das mudanças climáticas. A capacidade de regeneração do bioma, sua adaptação natural a longos períodos de estiagem e seu potencial de armazenamento de carbono passaram a despertar atenção crescente dentro e fora do país.
Dantas defende que a região seja reconhecida não apenas pelos desafios que enfrenta, mas também pelas soluções que desenvolveu ao longo de décadas de convivência com o clima semiárido.
“Estamos apresentando nosso Semiárido como um laboratório vivo de Soluções Baseadas na Natureza”, destaca.
A mesma percepção aparece na avaliação de Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente. Em entrevista exclusiva à Revista NORDESTE, ele afirma que o Programa Recaatingar foi concebido para romper com a imagem histórica da chamada “terra da seca” e consolidar uma visão de futuro baseada na resiliência e na prosperidade sustentável.
“O Programa Recaatingar não é apenas um plano de recuperação da Caatinga. É uma visão de futuro onde o Semiárido brasileiro seja reconhecido por sua resiliência e prosperidade sustentável”, afirma. Segundo Pires, a recuperação da Caatinga deve ser encarada como parte de uma estratégia mais ampla de desenvolvimento regional, associando conservação ambiental, produção de alimentos, segurança hídrica e geração de renda.
Por que o mundo passou a olhar para a Caatinga
O interesse crescente pela Caatinga também se reflete no cenário internacional.
Ao responder à Revista NORDESTE sobre o potencial do recaatingamento após a COP30, Rodrigo Perpétuo, secretário-executivo do ICLEI América do Sul, explica que poucos projetos ambientais conseguem dialogar simultaneamente com tantas agendas globais.
A recuperação da vegetação nativa contribui para a captura de carbono, fortalece a adaptação climática, protege a biodiversidade, reduz processos de degradação dos solos e amplia a segurança hídrica em regiões vulneráveis à seca. Na prática, isso faz com que o recaatingamento “converse” diretamente com os compromissos internacionais relacionados ao clima, à biodiversidade e ao combate à desertificação.
Para Perpétuo, a experiência acumulada pelo Nordeste ao longo de décadas de convivência com o Semiárido pode se transformar em referência para outras regiões secas do planeta.“Estamos falando de um processo econômico. Toda a economia da sociobiodiversidade a partir da restauração representa um elemento fundamental para as políticas de desenvolvimento sustentável”, afirma.
Soluções que já estão em curso
Embora o conceito de recaatingamento tenha ganhado visibilidade recentemente, diversas iniciativas que inspiram essa estratégia já vêm sendo desenvolvidas na região.

Rodrigo Perpétuo destaca que o Semiárido acumulou experiências capazes de demonstrar que adaptação climática e desenvolvimento territorial podem caminhar juntos.
Entre elas está o Programa Cisternas, uma das principais políticas públicas voltadas ao acesso à água para populações rurais. Segundo ele, a iniciativa já permitiu a implantação de mais de um milhão de cisternas e recebeu novos investimentos para ampliar sua atuação.
“É um programa que permite exatamente essa dinâmica de convivência harmônica num território onde existe uma situação de seca praticamente permanente”, observa.
O dirigente do ICLEI também cita o Programa de Manejo Florestal Sustentável da Caatinga, desenvolvido pelo governo do Ceará, que já promoveu ações de recuperação e conservação no Baixo Jaguaribe, associando pesquisa científica e aplicação prática em políticas públicas.
Na Bahia, outro exemplo apontado por Perpétuo é o avanço da chamada restauração produtiva. O estado estabeleceu a meta de recuperar mais de 40 mil hectares de áreas degradadas, conciliando recuperação ambiental e geração de oportunidades econômicas.
Para ele, essas experiências demonstram que o Semiárido brasileiro vem construindo soluções próprias para enfrentar os efeitos da degradação ambiental e das mudanças climáticas.
A economia da Caatinga em pé
Se a desertificação representa um dos maiores desafios históricos da região, a bioeconomia desponta como uma das principais oportunidades associadas ao processo de recaatingamento.
A proposta defendida pelos entrevistados vai além da recuperação da vegetação nativa. A ideia é transformar a restauração ambiental em vetor de desenvolvimento econômico, geração de renda e inclusão produtiva para milhares de famílias que vivem na Caatinga.
Segundo Rodrigo Perpétuo, a economia da sociobiodiversidade constitui um dos principais elos entre conservação ambiental e desenvolvimento sustentável.
A visão é compartilhada por Paulo Dantas. Para o presidente do Consórcio Nordeste, a biodiversidade da Caatinga reúne ativos ainda pouco explorados economicamente, mas com potencial para impulsionar novos negócios ligados à produção de alimentos, biotecnologia, cosméticos e inovação.
A carnaúba é frequentemente citada como símbolo dessa vocação. Utilizada pelas indústrias de cosméticos, alimentos, tecnologia e polimentos, a espécie demonstra como conservação ambiental e atividade econômica podem caminhar juntas.
Na avaliação dos entrevistados, o avanço da bioeconomia pode fortalecer a permanência das populações no território, reduzir pressões sobre os recursos naturais e ampliar a capacidade de adaptação das comunidades às mudanças climáticas.
O desafio do financiamento
Transformar essa visão em realidade, porém, exige investimentos de longo prazo.
A recuperação de áreas degradadas, a ampliação da segurança hídrica, o fortalecimento da bioeconomia e a implementação de novas tecnologias de convivência com o Semiárido dependem de mecanismos financeiros capazes de sustentar ações permanentes.
Na avaliação de Rodrigo Perpétuo, projetos de escala regional apresentam melhores condições para acessar recursos internacionais destinados às agendas de clima, biodiversidade e combate à desertificação.
Essa também é uma das apostas do Consórcio Nordeste.
Segundo Paulo Dantas, a articulação regional amplia a capacidade dos estados de captar recursos junto a organismos multilaterais e grandes fundos climáticos.
Entre as iniciativas em construção está o Fundo Caatinga. Concebido para ampliar a capacidade de financiamento de projetos de restauração, bioeconomia e manejo sustentável, o instrumento é visto pelos estados nordestinos como uma das principais apostas para dar escala às ações de recuperação do bioma.
Enquanto isso, outros mecanismos já disponíveis podem apoiar a expansão das ações em curso. Entre eles estão linhas operadas pelo Banco do Nordeste, iniciativas do BNDES, recursos do Fundo Clima e instrumentos vinculados ao programa Eco Invest Brasil.
Para os especialistas ouvidos pela Revista NORDESTE, a combinação entre segurança jurídica, governança e acesso ao financiamento será decisiva para consolidar o recaatingamento como política pública permanente.
Uma agenda construída em cooperação
Se o financiamento é um desafio, a governança aparece como outro elemento central para o sucesso da estratégia.
As lideranças entrevistadas pela reportagem revelam um entendimento comum de que a recuperação da Caatinga depende de uma articulação inédita entre União, estados, municípios, instituições financeiras, comunidade científica e organismos internacionais.
Para Paulo Dantas, a cooperação regional é o principal instrumento para dar escala às iniciativas e ampliar sua capacidade de atrair investimentos.
“A cooperação regional é o que nos dá escala e força política para transformar o recaatingamento em uma agenda de verdade”, afirma.
Segundo ele, nenhum estado conseguiria sozinho construir uma plataforma de restauração com capacidade para competir pelos recursos dos grandes fundos climáticos globais.
Rodrigo Perpétuo reforça essa avaliação ao destacar que projetos regionais, metodologicamente integrados e capazes de demonstrar impactos concretos, apresentam maior potencial de captação de recursos internacionais.

imagem histórica da chamada “terra da seca” e consolidar uma visão de futuro baseada na resiliência e na prosperidade
sustentável.
A mesma visão é compartilhada por Alexandre Pires. O diretor do Departamento de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente defende a integração entre políticas federais e governos subnacionais como condição essencial para ampliar a efetividade das ações voltadas ao Semiárido.
Segundo ele, a articulação entre União, estados e municípios permite otimizar recursos, evitar sobreposição de esforços e construir uma governança multinível capaz de produzir resultados duradouros.
Da restauração à política pública
Essa visão começa a ganhar forma institucional por meio do Programa Recaatingar.
Apresentado pelo Ministério do Meio Ambiente como uma das principais iniciativas federais voltadas ao Semiárido, o programa tem como meta recuperar 10 milhões de hectares de terras degradadas até 2045.
A proposta combina restauração ambiental, manejo sustentável da Caatinga, produção de alimentos, segurança hídrica e geração de renda.
Segundo Alexandre Pires, o combate à desertificação precisa deixar de ser tratado exclusivamente como pauta ambiental para ocupar posição central nas estratégias de desenvolvimento regional.
“É necessário avançarmos com o entendimento de que a Caatinga em pé tem maior valor que várias outras práticas produtivas”, afirma.
Uma agenda para o mundo
Parte dos resultados dessas iniciativas deverá ser apresentada na COP17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, que será realizada na Mongólia.
A expectativa é que o Brasil leve ao encontro experiências capazes de demonstrar que a convivência com o Semiárido pode gerar soluções replicáveis em outras regiões secas do planeta.
“O Semiárido brasileiro não é apenas um território que sofre com a desertificação e os efeitos da seca. É um território de muitas potencialidades, laboratório vivo de resiliência climática”, resume Alexandre Pires.
Mais do que recuperar áreas degradadas, o recaatingamento representa uma mudança na forma como o Brasil enxerga seu único bioma exclusivamente nacional. De símbolo da escassez, a Caatinga passa a ser apresentada como um ativo estratégico para a adaptação às mudanças climáticas, o combate à desertificação e a construção de novas oportunidades de desenvolvimento para o Nordeste.
*Conteúdo publicado na Edição 233 da Revista NORDESTE.

