A visão atualizada da Engenharia e Agronomia exige encarar desafios

Presidenta do CONFEA traz a experiência do Nordeste para reforçar as estratégias nacionais diante de desafios

Por Walter Santos

Às vésperas de eleições gerais para escolha da nova diretoria do CONFEA, a presidenta Ana Adalgisa se reporta com responsabilidade por ser oriunda do Rio Grande do Norte nessa fase de transição, mesmo assim está imbuída e dedicada a encarar os novos desafios da engenharia, agronomia e geociências do Brasil para avançar, inclusive com projetos no Congresso Nacional. Leia a entrevista exclusiva:

REVISTA NORDESTE – Estamos processo eleitoral com as prerrogativas de comando do CONFEA sob sua responsabilidade. Qual o significado desse fato político institucional a partir de uma liderança oriunda do Rio Grande do Norte dialogando com todo o País?

Presidenta Ana Adalgisa – Primeiro, é importante essa representação nordestina, diante de uma grande instituição como o Confea. O Nordeste cresce bastante em ações ligadas à Engenharia, conforme descreve o Índice Confea de Infraestrutura do Brasil (Infra-BR), que lançamos agora em março. E como a Revista Nordeste tão bem apresenta todos os meses. Por sinal, é muito significativo que a NE venha, há 20 anos, contemplando a força de uma nordestinidade cuja pujança orgulha o país. O Nordeste do geógrafo baiano Milton Santos, cujo centenário é lembrado neste número, reafirmando a importância desta área para a formação da nossa nação. Segundo, pelo fato de ser mulher, algo que só havia acontecido, nos 92 anos de história do Confea, há alguns anos, quando a vice-presidente Michele Costa, engenheira mecânica baiana, abriu o caminho para que pudéssemos demonstrar o nosso valor àqueles que ainda não acreditavam no nosso potencial. Hoje, essa participação feminina nos cargos de liderança vem crescendo muito em todo o Sistema Confea/Crea e Mútua. E assim, chegar a esse momento de eleições gerais do Sistema representa mais uma oportunidade de que essa entidade demonstre sua maturidade a toda a sociedade brasileira. Essa maturidade ainda enfrentará percalços, mas tem dado passos expressivos nos últimos anos.

NORDESTE – Antes de entrarmos em avaliações conjunturais, na sua opinião como podemos definir no Brasil em curso o nível da Engenharia, Agronomia e Geociências? 

Ana Adalgisa – Somos um país que ainda passa por turbulências políticas que, infelizmente, atrapalham o bom andamento da economia e, consequentemente, das áreas ligadas às nossas atividades. Essas turbulências também acabam influenciando a valorização das profissões, apesar de todo o esforço implementado pelo Sistema Confea/Crea nos últimos anos. O que decorre não só do contexto nacional, com seu incentivo irregular a políticas como a industrialização do país, mas também das próprias mudanças nos modelos de trabalho provocadas pelos avanços tecnológicos. Essa aparente contradição revela ainda mais os traços das desigualdades sociais que temos que enfrentar, diante de uma sociedade marcada pelos desafios educacionais históricos. Essas dificuldades, aliadas a aspectos culturais relacionados às mudanças sociais do cotidiano, acabam não motivando devidamente a formação de novos engenheiros e profissionais de outras áreas tecnológicas. Há desinteresse em entrar no curso ou de seguir nele. Acredito que assim como houve uma mudança cultural para desequilibrar essa balança contra o crescimento de todo o país, será preciso mantermos um esforço midiático contínuo para demonstrar o valor das nossas atividades para o indivíduo e para a sociedade. Somente assim poderemos voltar a incrementar a formação e estabelecer políticas que, utilizando essa mão de obra especializada, atendam ao interesse público.

NORDESTE – Em termos de equacionamento proporcional e gradativo, como é abrigar tantos interesses regionais diferentes através de Brasília?

Ana Adalgisa – São já 92 anos de Sistema Confea/Crea e, desde 1976, em Brasília. A preocupação era estar próximo aos três poderes da República para defender os interesses relacionados às atividades da Engenharia, da Agronomia, das Geociências e da Arquitetura, que deixou o Sistema em 2010. Toda essa história contribui para que estabeleçamos uma rede de participação dos profissionais de todo o país, junto ao Sistema. Temos atividades que nos aproximam diariamente das 615 entidades de classe registradas no Sistema e das quase 300 que ainda não estão registradas, conforme levantamento recente da gerência de Aprimoramento e Desenvolvimento das Entidades. Estas diferenças entre os estados podem até ser identificadas em momentos como as reuniões regionais que também promovemos ao longo de todo o ano ou ainda nas reuniões das câmaras especializadas e comissões de ética de todos os regionais, mas é interessante observar como as demandas mais nos unem do que nos afastam, o que se comprova, sobretudo, nas sessões plenárias mensais que realizamos e ainda, de três em três anos, quando nos reunimos no Congresso Nacional de Profissionais. Mas também constatamos isso, de forma cada vez mais consolidada, durante as Semanas Oficiais da Engenharia e da Agronomia. Por sinal, gostaria de convidar todos os profissionais a participarem da 81ª Soea, que será realizada de 13 a 16 de outubro, em Aracaju.

Ana Adalgisa. Foto: Gerência de comunicação Confea

NORDESTE – Como é estar em contexto diferenciado diante de uma categoria altamente importante mas que registra poucas engenheiras no comando do Conselho?

Ana Adalgisa – É estar ciente de seu papel de cidadã. O Confea não é diferente de muitas outras instituições que procuram contribuir para o desenvolvimento do país. Claro que, fazendo parte de um grupo com formação superior e diante de todas as informações disponíveis hoje em dia, sabemos que fazemos parte de um setor privilegiado, diante dos desafios presentes em outras camadas da sociedade. Mesmo assim, também fazemos parte da história dessa mesma sociedade, e os nossos membros também possuem características semelhantes a esses outros indivíduos. Ou seja, somos fruto de um processo histórico. Assim, estamos também preocupados em oferecer condições para que a participação feminina seja maior, o que vem acontecendo gradualmente, mas de forma já consolidada. Estamos promovendo políticas para valorizar essa participação e estamos obtendo os primeiros resultados, como comprova a minha própria atuação, por duas vezes à frente do Crea-RN, que foi pioneiro da atuação feminina na presidência dos Creas, com a engenheira civil Zélia Maria Juvenal dos Santos, em 1994. De lá para cá, evoluímos bastante. Entre essas lideranças, podemos destacar nomes como os de Giucélia Figueiredo, que presidiu o Crea-PB e hoje está na cadeira de Conselheira Federal; Nanci Walter, à frente do Crea-RS e, mais recentemente, Lígia Mackey, primeira mulher eleita para presidir o Crea-SP, o maior regional do país. Cada uma dessas trajetórias ajudou a abrir caminhos para novas gerações de profissionais e demonstrou que a diversidade fortalece a tomada de decisões e a construção de instituições mais modernas e representativas. Ainda temos desafios a superar, mas os avanços conquistados mostram que estamos na direção correta, ampliando oportunidades, valorizando talentos e fortalecendo a presença feminina na engenharia, na agronomia e nas geociências, sempre em benefício da sociedade brasileira.

NORDESTE – Em termos práticos, quais as diretrizes fundamentais de sua gestão no trato com anseios advindos de todas as regiões?

Ana Adalgisa – Nesses meses em que estou no exercício da Presidência do Confea, temos dado continuidade às diretrizes estabelecidas pela gestão. São diretrizes que têm como foco principal gerar valor para os profissionais da engenharia, da agronomia e das geociências, fortalecendo sua atuação, ampliando oportunidades e aproximando cada vez mais o Sistema Confea/Crea das demandas da sociedade e do mercado de trabalho. Independentemente da região do país, nosso compromisso é atuar para a valorização dos profissionais, promover maior participação das mulheres e dos jovens nos espaços de liderança e dar visibilidade ao papel estratégico que as profissões tecnológicas exercem no desenvolvimento nacional. Acreditamos que não existe transformação econômica, social ou ambiental sem a contribuição da engenharia, da agronomia e das geociências. Por isso, buscamos fortalecer as representações profissionais, apoiar as iniciativas dos Creas e manter uma atuação integrada que reconheça as particularidades de cada região, mas que tenha um objetivo comum: mostrar à sociedade o valor dos profissionais que planejam, executam e tornam possível o desenvolvimento do Brasil.

NORDESTE – Há em curso independentemente de quem esteja liderando a gestão uma agenda permanente no Congresso Nacional tratando de pautas fundamentais da engenharia, agronomia e geociências. Como a Sra trata dessa agenda?

Ana Adalgisa – O Sistema Confea/Crea, constituído pelos 27 Creas e pelos conselheiros federais e regionais, acompanha diretamente todas as pautas em curso no Congresso Nacional que afetam direta ou indiretamente, tanto a Engenharia, quanto a sociedade. Em março deste ano, apresentamos, no salão nobre da Câmara dos Deputados, a nossa agenda parlamentar relativa a 2026, que contou com mais de 40 parlamentares presentes.

NORDESTE – Consta entre as pautas de interesse do CONFEA o PL 4611 tratando da Política Nacional de Manutenção Predial. Em que nível se encontra no âmbito do Congresso?

Ana Adalgisa – De autoria do Deputado Federal Augusto Cou0nho (REPUBLICANOS/PE), o Projeto de Lei nº4611/2023 institui a Política Nacional de Manutenção Predial e estabelece diretrizes para a realização de avaliações técnicas periódicas em edificações públicas e privadas, com o objetivo de ampliar a segurança das construções, prevenir acidentes e incentivar a cultura da manutenção preventiva no país. De tema afim à atuação do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia, a proposta fortalece mecanismos de inspeção e conservação predial, contribuindo para a preservação do patrimônio, redução de riscos estruturais e promoção de cidades mais seguras e resilientes. A matéria tramita na Câmara dos Deputados e está em análise na Comissão de Desenvolvimento Urbano (CDU), onde recebeu parecer favorável do relator, Deputado Federal Fernando Monteiro (PSD/PE), pela aprovação. Após deliberação na CDU, o projeto seguirá para análise da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) e, posteriormente, ao Senado Federal. Acompanhamos paralelamente o PL 159/2026. De autoria do então Senador Marcelo Crivella, estabelece diretrizes nacionais para a realização de inspeções técnicas periódicas em edificações, com o objetivo de ampliar a segurança estrutural, prevenir acidentes e fortalecer a cultura da manutenção predial no país. A matéria prevê a emissão de laudo técnico especializado para avaliação das condições das construções e indicação de eventuais medidas corretivas. A iniciativa teve origem no Senado Federal e, posteriormente, passou a tramitar na Câmara dos Deputados como o Projeto de Lei nº 6014/2013, onde foi aprovada na Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) e na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC). Em seguida, retornou ao Senado Federal, onde tramita sob o número PL 159/2026.

*Entrevista publicada na Edição 233 da Revista NORDESTE

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Ana Júlia Silva

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