São João: Entre a sanfona e os megashows

Com atrações nacionais, calendários ampliados e impacto milionário na economia, os festejos juninos do Nordeste consolidam o São João como um dos maiores festivais populares do país

Por Luciana Leão

Durante décadas, bastava ouvir o som da sanfona para saber que o Nordeste estava em festa. O São João cresceu embalado por trios de forró, quadrilhas improvisadas, fogueiras acesas nas calçadas e vozes que ajudaram a transformar Luiz Gonzaga em patrimônio cultural brasileiro. Em 2026, porém, os maiores polos juninos do país já operam em outra escala.

A presença de artistas como Roberto Carlos, Alok, Marisa Monte, Bell Marques nas principais programações deste ano evidencia uma transformação que vai além do gosto musical. O São João nordestino se consolidou como um grande produto turístico e cultural, capaz de movimentar milhões de reais, atrair patrocinadores e mobilizar multidões em eventos que se aproximam cada vez mais da lógica dos grandes festivais nacionais. Ao mesmo tempo, cresce também o debate sobre os limites entre renovação cultural e descaracterização das tradições nordestinas.

Nas últimas décadas, as festas juninas deixaram de ocupar apenas alguns dias do calendário. Em várias cidades, junho já não cabe mais em 30 dias. As bandeirinhas sobem ainda em maio e só começam a desaparecer quando julho se aproxima, em programações que transformaram o ciclo junino em uma longa temporada de entretenimento, turismo e consumo.

Em Campina Grande, o chamado “Maior São João do Mundo” será realizado entre 3 de junho e 5 de julho, reunindo mais de 130 atrações espalhadas pelo Parque do Povo e pelos distritos turísticos. A estreia de Roberto Carlos tornou-se um dos anúncios mais comentados da edição de 2026. Ao lado dele, nomes como Wesley Safadão, Henrique & Juliano, João Gomes e Elba Ramalho reforçam uma programação cada vez mais distante do repertório tradicionalmente associado ao ciclo junino.

A dimensão econômica acompanha o crescimento da festa. Em 2025, Campina Grande movimentou mais de R$ 742 milhões durante os 38 dias de programação. Para este ano, a expectativa da prefeitura é ampliar os indicadores ligados ao turismo, comércio e serviços. Secretária de Desenvolvimento Econômico e Turismo do município, Tâmela Fama afirma que o evento se consolidou nacionalmente como “um case de sucesso” pela capacidade de gerar retorno econômico para a cidade.

Se em Campina Grande a presença de Roberto Carlos virou símbolo da nova fase do São João, em Caruaru a programação também evidencia o novo perfil da festa. O cantor se apresenta em 12 de junho, Dia dos Namorados. Já no dia seguinte — quando o Brasil estreia na Copa do Mundo — atrações como Bell Marques e o DJ Alok dividem espaço na programação da cidade, numa mistura que aproxima cada vez mais o São João da dinâmica dos grandes eventos de massa.

Conhecida nacionalmente como a “Capital do Forró”, Caruaru voltou a apostar em uma grade que reúne artistas ligados à tradição junina, nomes do sertanejo, do piseiro e da música pop nacional, e até do axé music. Para o prefeito Rodrigo Pinheiro, a diversidade da programação ajuda a fortalecer o turismo e ampliar o alcance da festa. “A nossa programação fica cada ano melhor, com novidades, valorização dos nossos artistas, grandes atrações, opções para todos os públicos e movimentando o turismo e a economia porque o São João de Caruaru é isso”, afirmou.

Parque do Povo – Campina Grande

A transformação dos festejos juninos acompanha uma disputa crescente entre municípios nordestinos por turistas, patrocinadores e visibilidade nacional. Grandes estruturas cenográficas, polos gastronômicos, camarotes, transmissões digitais e campanhas publicitárias passaram a integrar a estratégia das cidades, que enxergam no São João uma das principais vitrines econômicas e culturais do ano.

Em muitos municípios, o impacto econômico já rivaliza com o Carnaval. Redes hoteleiras operam próximas da capacidade máxima, bares e restaurantes ampliam equipes temporárias e o comércio informal encontra no período uma das épocas mais lucrativas do ano. O São João movimenta cadeias inteiras ligadas ao turismo, transporte, alimentação, moda e entretenimento, consolidando-se como um dos principais motores sazonais da economia nordestina.

Em Aracaju, o Arraiá do Povo ocupa a Orla da Atalaia desde 29 de maio e até  28 de junho, transformando a capital sergipana em um dos maiores polos juninos do país. Em 2025, segundo dados do governo, o ciclo junino reuniu mais de 1,3 milhão de pessoas, atraiu 219 mil turistas, recebeu investimento de cerca de R$ 40 milhões e movimentou R$ 250 milhões na economia local.

O governador de Sergipe Fábio Mitidieri afirmou que o Estado vive um processo de consolidação no calendário nacional dos festejos juninos. “É um crescimento rápido, mas gradativo também, onde a gente vem construindo o maior São João à beira-mar do Brasil e se colocando em patamar de disputa com os melhores São João do Brasil, como é o caso de Caruaru e Campina Grande”, declarou.

Já em São Luís aposta na força do Bumba Meu Boi e em mais de 700 atrações culturais para fortalecer o calendário turístico maranhense, que começou desde o dia 10 de maio. A expectativa é que o impacto econômico supere o do ano passado, quando mais de R$ 400 milhões circularam pela economia do Maranhão. Em Cruz das Almas, a programação reúne nomes como Ana Castela, Nattan, Bell Marques e João Gomes, consolidando a tendência de atrações cada vez mais voltadas ao mercado de massa.

“Estamos lançando o maior e melhor São João do mundo e o nosso festejo aqui em São Luís terá 25 arraiais, sendo o Ipem o nosso maior arraial. Entretanto, não terá guarnicê somente na capital, pois haverá no interior também, alcançando todas as regiões”, declarou o governador Carlos Brandão durante lançamento da programação oficial.

Na capital maranhense, as apresentações estão sendo realizadas em 25 grandes polos, os tradicionais arraiais, incluindo o Arraial do Ipem, que terá início no dia 6 de junho. Além disso, a estrutura contará com o Espaço Copa, para que os visitantes também possam viver o São João e acompanhar os jogos da Seleção Brasileira na Copa do Mundo.

Mas o crescimento das festas também alimenta um desconforto crescente entre artistas e defensores da cultura popular: o forró tradicional perdeu espaço nos horários nobres dos grandes palcos. Em muitas cidades, trios pé de serra, apresentações de quadrilhas e manifestações populares passaram a ocupar polos secundários, enquanto atrações de maior apelo comercial dominam a programação principal.

Para críticos desse modelo, elementos históricos do São João correm o risco de sobreviver mais como ambientação estética do que como centro da celebração. A preocupação não está apenas na diversidade musical, mas na possibilidade de que uma das manifestações culturais mais fortes do Nordeste seja progressivamente moldada pela lógica do entretenimento de massa.

Ainda assim, o São João “contemporâneo” mistura tradição popular, turismo, mercado, grandes marcas e espetáculos de massa em uma mesma engrenagem cultural. O forró continua presente, mas agora divide espaço com repertórios, linguagens e estruturas impensáveis para as antigas festas de rua que moldaram a identidade junina nordestina.

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Redacao RNE

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