Papo de ECONOMIA: O Cooperativismo Agropecuário e os novos desafios na Paraíba, por Paulo Galvão Júnior

Paulo Galvão Júnior (*)

Um dos principais ramos do cooperativismo no Brasil, no Nordeste e na Paraíba é o cooperativismo agropecuário. Na atualidade, sua relevância torna-se ainda mais evidente na Paraíba, estado nordestino com cerca de 4,1 milhões de habitantes e elevado potencial para a expansão das atividades agropecuárias.

Contudo, a Paraíba convive historicamente com desafios estruturais, como elevada concentração de renda, persistente desigualdade social, limitações de infraestrutura logística e forte vulnerabilidade climática. As secas recorrentes e a irregularidade das chuvas desempenharam papel determinante na formação socioeconômica da Paraíba, influenciando padrões de ocupação territorial e estratégias produtivas ao longo de mais de quatro séculos, sobretudo no Semiárido.

Ainda assim, o estado desenvolveu cadeias produtivas dinâmicas e em expansão, com destaque para a agricultura irrigada no Sertão, a fruticultura no Litoral Norte, a caprinovinocultura no Cariri, a produção leiteira no Agreste, a agroindústria na Zona da Mata, a pesca artesanal no Litoral Norte, a aquicultura em reservatórios hídricos na Borborema e as atividades vinculadas à agricultura familiar no Litoral Sul.

Nesse contexto, o cooperativismo agropecuário assume posição estratégica para o desenvolvimento sustentável da Paraíba. Micro (entre 1 e 10 ha) e pequenos (imóvel rural de até 4 módulos fiscais e variam conforme o município) produtores rurais apresentam forte inserção comunitária e alta capacidade de adaptação às condições locais, especialmente quando apoiados por políticas públicas, assistência técnica e infraestrutura adequada.

O desafio atual não se limita ao aumento da produção coletiva, mas envolve também ao compartilhamento de máquinas e equipamentos agroindustriais, a ampliação da produtividade do trabalho e da competitividade, a agregação de valor e a inserção em mercados mais exigentes, como o mercado canadense, por exemplo.

Paralelamente, a estrutura fundiária composta por micro, pequenos, médios e grandes produtores rurais também contribui para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) paraibano, podendo favorecer a inclusão social, a redução da desigualdade de renda e a construção de modelos produtivos compatíveis com a preservação ambiental e a convivência coletiva com o Semiárido.

Nesse cenário, o cooperativismo emerge como um instrumento essencial de organização produtiva, inclusão social e transformação econômica. As cooperativas constituem sociedades de pessoas, dotadas de forma jurídica própria e natureza associativa, criadas para prestar serviços aos seus cooperados, fortalecer sua inserção nos mercados e promover ganhos econômicos, sociais e organizacionais.

Desenvolvimento Sustentável

O cooperativismo ocupa posição central no debate contemporâneo sobre desenvolvimento sustentável no Nordeste e, particularmente, na Paraíba. Diferentemente de modelos empresariais orientados exclusivamente pela maximização do lucro, as cooperativas articulam eficiência econômica, participação social e distribuição mais equilibrada das sobras da atividade produtiva. Essa característica torna o cooperativismo particularmente relevante em regiões brasileiras marcadas por desigualdades sociais e fragmentação econômica.

O engenheiro agrônomo, ex-presidente do Sistema OCB e ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues sintetiza essa perspectiva ao afirmar que “o cooperativismo é um modelo auxiliar de política pública”. Tal pensamento evidencia que as cooperativas não substituem o Estado nem o setor privado, mas atuam como mecanismos complementares capazes de ampliar a inclusão social e fortalecer a economia local.

No Brasil, a maior cooperativa agropecuária é a COAMO Agroindustrial Cooperativa, sediada em Campo Mourão, no Paraná, com expressiva receita líquida e forte presença nacional. A experiência de grandes cooperativas demonstra a capacidade do cooperativismo de articular escala produtiva, agregação de valor e inserção competitiva nos mercados.

Na Paraíba, o cooperativismo apresenta amplo potencial de atuação em segmentos como agricultura familiar, agroindústria, pecuária, pesca artesanal, apicultura e aquicultura. Ao integrar micro e pequenos produtores rurais, reduzir custos operacionais e organizar cadeias produtivas, as cooperativas ampliam a escala econômica e fortalecem a capacidade de negociação dos associados.

O espírito de cooperação é marcante entre cooperados e cooperativas agropecuárias no estado. Além dos impactos econômicos, o cooperativismo contribui para o fortalecimento do capital social, promovendo organização comunitária, inovação e maior coesão produtiva. Em um estado historicamente marcado por elevada desigualdade social, esse modelo ultrapassa a dimensão econômica e assume relevância social e institucional estratégica.

Números do Cooperativismo na Paraíba

Segundo o Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2025, do Sistema OCB, a Paraíba reúne 78 cooperativas e 114 mil cooperados, gerando 4,3 mil empregos diretos e movimentando R$ 3,5 bilhões anuais na economia estadual em 2024. Nesse contexto, o Sistema OCB-PB, desde 1972, vem ampliando sua relevância na estrutura produtiva estadual e no fortalecimento da economia paraibana.

As 24 cooperativas agropecuárias existentes na Paraíba somam 2.541 cooperados, geram 119 empregos diretos e movimentam cerca de R$ 68,4 milhões em 2024, segundo o Sistema OCB-PB. Essas cooperativas produzem leite, queijos, frutas, mel, ovos, carnes, verduras, hortaliças, tubérculos e flores, ajudando a desenvolver cadeias produtivas, desde o campo até o beneficiamento e a comercialização dos produtos agropecuários.

Ao integrar e coordenar processos produtivos, comerciais e logísticos, essas cooperativas reduzem custos de intermediação, aumentam a eficiência produtiva e contribuem para a ampliação da renda e da competitividade dos micro e pequenos produtores rurais.

Entre as cooperativas agropecuárias paraibanas de destaque estão a Cooperativa e Capribovinocultores de Cabaceiras (CAPRIBOV), em Cabaceiras, na produção de leite de cabra, iogurte e queijos artesanais de leite de cabra premiados; a Cooperativa Mista dos Produtores Rurais na Agricultura Familiar do Estado da Paraíba (COOPRAFE), em Santa Rita, dedicada à agricultura familiar; a Cooperativa dos Produtores Rurais de Monteiro (CAPRIBOM), em Monteiro, com 1.158 associados e referência na caprinovinocultura e na produção de leite de cabra e derivados lácteos, como queijos, manteiga, doces, requeijão e iogurte; a Cooperativa dos Produtores, de Geração de Energia, de Desenvolvimento e da Agricultura Familiar da Paraíba (COOPAF-PB), em Pitimbu, com 80 associados, articulando agricultura familiar, sustentabilidade e geração de energia; e a Cooperativa Agroindustrial de Piabaçu (FRUTIAÇU), em Rio Tinto e com 85 associados, na produção e beneficiamento de polpas de frutas (acerola, abacaxi, maracujá, manga, goiaba, mangaba, caju, graviola e cajá), hortaliças e macaxeira.

Essas pequenas, médias e grandes cooperativas demonstram que o cooperativismo agropecuário poderá elevar significativamente a competitividade da agropecuária paraibana, especialmente em um contexto global marcado por crescentes exigências de rastreabilidade, sustentabilidade e agregação de valor.

Agricultura de precisão

A agropecuária paraibana ingressa em uma nova fase de modernização marcada pela digitalização e pela incorporação de tecnologias avançadas. O estágio atual é caracterizado pelo uso intensivo de dados, automação e inteligência artificial (IA), apoiado por infraestrutura tecnológica crescente.

A agricultura de precisão utiliza ferramentas como GPS, drones, sensores inteligentes, imagens de satélite, hidrômetros digitais e softwares de gestão agrícola para monitoramento em tempo real. Esse modelo permite decisões mais precisas, reduz incertezas e aumenta a eficiência produtiva com base na análise de dados no meio rural.

Essas tecnologias geram ganhos simultâneos de produtividade e sustentabilidade. A aplicação localizada de insumos reduz desperdícios e custos, enquanto o monitoramento ambiental favorece o uso racional dos recursos naturais. Assim, o crescimento produtivo passa a depender menos da expansão territorial e mais da eficiência tecnológica.
A agricultura de precisão também transforma o perfil do trabalho rural, ampliando a demanda por profissionais qualificados em tecnologia, gestão de dados e inovação.

Nesse sentido, as cooperativas agropecuárias paraibanas necessitam incorporar progressivamente essas novas ferramentas em suas atividades econômicas.

Modelo vertical é  o novo paradigma global

As transformações recentes da agricultura mundial indicam o surgimento de novos paradigmas produtivos baseados em tecnologia de ponta, conhecimento e produção intensiva, como a agriculta vertical. A primeira fazenda vertical surgiu em Singapura em 2009.

Os Países Baixos tornaram-se referência internacional ao demonstrar elevada produtividade e forte capacidade exportadora de produtos agropecuários, especialmente flores, plantas ornamentais, hortaliças, tomates, morangos e batatas, mesmo com restrição territorial, dispondo de uma área de 41.543 km².

A Paraíba, por sua vez, possui área territorial de 56.467 km², superior à dos Países Baixos. Essa comparação evidencia que restrições territoriais não constituem necessariamente barreiras ao desempenho agropecuário quando há investimento consistente em ciência, tecnologia, pesquisa & desenvolvimento (P&D) e organização produtiva.

As experiências neerlandesas oferecem lições relevantes, sobretudo para a expansão de sistemas produtivos intensivos em tecnologia. Embora a Paraíba possua ampla diversidade agropecuária, há espaço significativo para inovação em agricultura vertical, cultivo protegido e automação agrícola, especialmente por meio de arranjos cooperativos.

Nesse sentido, a agricultura vertical hidropônica pode ser gradualmente expandida no estado por meio das cooperativas agropecuárias, capazes de organizar investimentos coletivos em estufas inteligentes, sistemas hidropônicos e produção controlada. Esse modelo reduz custos, amplia a escala produtiva e viabiliza tecnologias aos micro e pequenos produtores rurais.

Agricultura vertical hidropônica é um sistema intensivo de produção agrícola realizado em estruturas verticais e sem solo, no qual as plantas recebem água e nutrientes por solução hidropônica em ambiente controlado, visando elevada produtividade, eficiência hídrica e produção contínua.

Tais tecnologias tornam-se particularmente estratégicas diante da escassez hídrica e da irregularidade climática no Semiárido. A agricultura vertical não substituirá a agricultura tradicional, convencional ou horizontal, na Paraíba, mas poderá funcionar como alternativa complementar voltada à segurança alimentar, inovação produtiva e resiliência ambiental numa fazenda vertical.

Em resumo,  a Paraíba enfrenta desafios históricos relacionados à sustentabilidade, às mudanças climáticas e à inclusão social. O equilíbrio entre produtividade do trabalho e responsabilidade socioambiental tornou-se condição essencial para o crescimento sustentável de suas atividades agropecuárias.

Para tanto, o cooperativismo emerge como instrumento estratégico para o fortalecimento do desenvolvimento sustentável do estado. Ao promover organização produtiva, inclusão econômica e maior integração das cadeias produtivas, contribui para a redução das desigualdades sociais vigentes.

A agricultura vertical hidropônica integra o conceito de agricultura de precisão e agricultura 4.0, utilizando sensores, automação, IA e monitoramento digital. Tem crescido especialmente em regiões com restrições hídricas ou escassez de terras agricultáveis.

Na Paraíba, o fortalecimento das cooperativas agropecuárias representa um caminho consistente para ampliar renda, dinamizar cadeias produtivas e consolidar modelos mais resilientes de desenvolvimento sustentável. O futuro do cooperativismo agropecuário paraibano dependerá da capacidade de usar cada hectare disponível, cada curral, cada açude, cada estufa, com inteligência agrotech.

 

(*) Paulo Galvão Júnior é economista paraibano (CORECON-PB 1392), conselheiro efetivo do Conselho Regional de Economia da Paraíba (CORECON-PB), secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba (FCF-PB), membro do Instituto de Inteligência Econômica (IIE), integrante do Grupo de Reforma Tributária da Paraíba (GRT-PB) e apresentador do programa Economia em Alta, da rádio web Alta Potência. WhatsApp para palestras e entrevistas: +55 (83) 92000-4420.
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Redacao RNE

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