O plano de incentivar e apoiar a idéia para que o governo americano classifique as organizações criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC), e Comando Vermelho (CV), como entidades terroristas talvez não tenha sido integralmente elaborado pelo candidato à Presidência da República pelo Partido Liberal (PL), Flávio Bolsonaro.
A estratégia, que talvez traga efeitos positivos para a campanha, deve ter partido de alguém mais astucioso, sabidamente mais maduro e preparado para desenhar quadros que afetem negativamente o país, com um grau de imprevisíveis consequências. O nome dele deve ser Jair Messias Bolsonaro, ex-presidente do país, inelegível, condenado e cumprindo pena judicial, depois de idealizar um golpe de Estado fracassado.
Aliados e adversários mais experientes, próximos a Flávio, citam que a viagem do candidato aos Estados Unidos, cercada de pitorescos acontecimentos, e com aparente programação de candidato a vereador de cidade do interior, está diretamente ligada a essa decisão anunciada pelo secretário de Estado, Marco Rubio.
A participação de outros países, inclusive dos Estados Unidos, no combate ao crime organizado no Brasil sempre esteve na pauta do governo brasileiro, desde que obedecidas normas e acordos diplomáticos internacionais.
Ainda se refazendo do estrago causado pelas gravações comprometedoras, nas quais agradecia o dinheiro doado pelo Banco Master, o candidato buscou, nessa artimanha, uma oportuna mudança de assunto. Em parte, deu certo. Os olhos de todos se voltaram para o encontro com Donald Trump e, mesmo com as audiências de faz de conta e fotos feitas pelo celular, muito se falou sobre o evento.
Ainda com muitas informações por chegar a todos nós, tudo indica que desse encontro, à luz de dúvidas, o produto final foi essa arapuca que agora vem à tona. Difícil alguma campanha política no Brasil que não gere um ou dois fatos cabeludos, daqueles que fazem corar até dona de bordel. Dessa vez, muito exagero.
A baixaria já começa na pré-campanha, sinal de que poucas e boas nos esperam; dias piores virão.
Avaliando com frieza, e ainda com tempo para recomendadas considerações, como explicar ao povo brasileiro — ao eleitor — as cenas explícitas de um candidato que se entrega de corpo e alma ao domínio de um outro país, despojando-se de todo amor-próprio, honradez e cidadania? A desfaçatez vai além da cara de pau e resvala no que há de mais baixo na condição submissa do eterno complexo de vira-latas.
A exemplo de outros gestos, o candidato manda às favas os versos do carioca Olavo Bilac (que morreu em 1918): “Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste”, épico de seu poema A Pátria, publicado em 1904.
Aqui não se trata de desconsiderar o cidadão por sua escolha partidária, opção política, idealismo ou coisa que o valha. Estamos falando de negacionismo, desprezo pelo país, sua história, tradição e respeito à bandeira.
A crítica aos adversários, a discordância ideológica e o antagonismo ao sistema atual fazem parte do embate eleitoral; nada mais democrático e saudável. Necessário, até.
Inadmissível é a vergonhosa entrega de cidadania, despreparo cultural e inversão de valores em troca de benesses que em nada nos engrandecem, só envergonham. Não se tem notícia, pelo menos que tenha chegado aos ouvidos dos mais civilizados, de atos ou boatos de tamanha e desavergonhada entrega de valores morais de candidatos brasileiros a outro país.
Afinal, o que quer o cidadão Flávio Bolsonaro do governo americano, ao se rebaixar com tamanha flacidez e despreocupação moral diante de um governante que nos trata com indiferença e, para alguns, até com desprezo? Talvez esteja chegando a hora para que essa interrogação venha de sua própria aldeia, já desconfiada de que desse cacique talvez não se espere grandes coisas.
Os mais antigos, aqueles que ao longo do tempo acompanham as relações amigáveis e respeitosas entre Brasil e Estados Unidos, nos campos diplomático e político, espantam-se com o surgimento de um agente infiltrado, disfarçado de político candidato.
Se levadas ao pé da letra, as medidas anunciadas pelo secretário Rubio farão com que, em breve, os brasileiros sintam na pele as danosas consequências geradas a curto, médio e longo prazo.
Página infeliz da nossa história, quando o país assiste, boquiaberto, a uma nítida conspiração inconsequente, que a sociedade esclarecida e consciente reprova integralmente.
José Natal
Jornalista

