A abertura da 79ª Assembleia Mundial da Saúde, nesta segunda-feira, em Genebra, foi marcada por alertas sobre o avanço de novas emergências sanitárias e pela preocupação com a fragilidade do financiamento internacional para a saúde.
Ao discursar na sessão inaugural, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus afirmou que o mundo enfrenta um cenário de múltiplas pressões simultâneas, incluindo conflitos armados, crises econômicas, mudanças climáticas e o enfraquecimento da cooperação internacional em saúde.
O principal foco da reunião, porém, é o novo surto de ebola na África Central. A OMS declarou emergência sanitária internacional após a confirmação de que a infecção ultrapassou as fronteiras da República Democrática do Congo e alcançou Uganda.
Segundo a agência, ao menos 10 casos já foram confirmados laboratorialmente, enquanto mais de 390 pessoas estão sob monitoramento epidemiológico. Estimativas preliminares apontam mais de 100 mortes suspeitas associadas ao surto.
A preocupação cresce porque a variante identificada pertence à espécie Bundibugyo, para a qual ainda não existem vacinas ou tratamentos aprovados especificamente.
Disseminação silenciosa
De acordo com a OMS, a transmissão pode ter ocorrido de forma silenciosa durante semanas ou até meses antes da detecção oficial.
Outro fator que elevou o alerta internacional foi a identificação de casos sem vínculo epidemiológico conhecido, dificultando o rastreamento da cadeia de transmissão.
A situação se agravou com registros de contaminação em ambiente hospitalar. Pelo menos quatro profissionais de saúde morreram na República Democrática do Congo, indicando circulação ativa do vírus dentro de unidades clínicas.
OMS admite impacto de cortes financeiros
Além da emergência sanitária, Tedros reconheceu que a própria OMS atravessa um período de forte pressão orçamentária.
Segundo ele, cortes abruptos no financiamento internacional obrigaram a agência a promover uma reestruturação interna em meio ao aumento das demandas globais.
“O mundo enfrenta tempos difíceis e perigosos”, resumiu o diretor-geral ao defender maior coordenação internacional.
O dirigente afirmou que sistemas de saúde em várias regiões continuam vulneráveis após a pandemia de Covid-19 e alertou para o risco de colapso diante de crises consecutivas.
Soberania sanitária
No discurso, Tedros também reforçou a necessidade de reduzir a dependência global de cadeias internacionais de suprimento para medicamentos, vacinas e insumos hospitalares.
A proposta defendida pela OMS é ampliar a capacidade de produção regional, especialmente em países do Sul Global, estratégia que o diretor-geral classificou como essencial para fortalecer a chamada soberania sanitária.
Como exemplo, citou iniciativas africanas voltadas à produção local de insumos farmacêuticos.
ONU reforça apoio ao multilateralismo
A abertura da assembleia contou ainda com uma mensagem em vídeo do secretário-geral da ONU, António Guterres, que defendeu o fortalecimento da cooperação internacional.
Guterres afirmou que o multilateralismo continua sendo o caminho mais seguro para enfrentar crises sanitárias globais e ampliar o acesso equitativo à saúde.
A Assembleia Mundial da Saúde reúne representantes de países-membros da OMS para discutir prioridades globais do setor e definir diretrizes para os próximos anos.

