A diáspora judaica do Nordeste e sua relação com a formação econômica de Nova York ao longo de mais de três séculos

Por Paulo Galvão Júnior *

Hoje, 13 de maio de 2026, vivenciamos, direta ou indiretamente, os impactos negativos da Guerra na Ucrânia, da Guerra no Oriente Médio, da guerra comercial iniciada pelo presidente norte-americano Donald Trump e das mudanças climáticas. Apesar desse cenário complexo, é necessário manter uma perspectiva otimista em relação ao futuro do Brasil, especialmente da Região Nordeste.

Nesse contexto desafiador, o presente artigo apresenta a diáspora judaica do Nordeste e sua relação com a formação econômica de Nova York ao longo de mais de três séculos. Sim, Nova York é uma cidade banhada pelo Rio Hudson, pelo Rio East e cercada pelo Oceano Atlântico e pelo Mar de Long Island.

Na atualidade, o poder de compra da maioria dos brasileiros é muito baixo, sobretudo, dos nordestinos. Além disso, grande parte da população brasileira desconhece que a expulsão dos judeus do Nordeste, em especial da então Capitania de Pernambuco, em 1654, constituiu um episódio de grande relevância histórica, cujos desdobramentos extrapolaram o território colonial brasileiro e influenciaram a formação econômica de Nova York no século XVII.

Esse processo histórico insere-se no contexto das disputas entre portugueses e holandeses pelo controle do Nordeste açucareiro, bem como das tensões religiosas impostas pela Igreja Católica. Durante a Nova Holanda, sob a administração da Companhia das Índias Ocidentais, Recife destacou-se como um espaço de relativa tolerância religiosa nas Américas, atraindo judeus sefarditas oriundos, sobretudo, de Amsterdã, a capital dos Países Baixos.

A Insurreição Pernambucana

A partir de 1645, teve início a Insurreição Pernambucana, que culminou na expulsão dos holandeses. Entre os episódios decisivos, destacam-se as Batalhas dos Guararapes, a Primeira Batalha dos Guararapes em 19 de abril de 1648 e a Segunda Batalha dos Guararapes em 19 de fevereiro de 1649, frequentemente consideradas o marco simbólico da origem do Exército Brasileiro no Morro dos Guararapes, e, sobretudo, marcando o início da expulsão holandesa no Nordeste.

Com a restauração do domínio português em 1654, a liberdade religiosa foi progressivamente suprimida, e os judeus passaram a enfrentar a imposição da conversão ao catolicismo ou a expulsão, sob o risco de perseguição pela Inquisição. Muitos descendiam de famílias expulsas da Espanha e de Portugal entre os séculos XV e XVI e, no contexto colonial nordestino, ficaram conhecidos como “cristãos-novos”.

Durante a atuação da Inquisição Espanhola e da Inquisição Portuguesa na Península Ibérica, judeus foram perseguidos, presos, torturados e submetidos a julgamentos religiosos. Muitos foram condenados à morte em autos de fé, inclusive queimados em praça pública, enquanto outros eram coagidos a denunciar parentes, amigos e pessoas suspeitas de praticar o judaísmo de forma clandestina.

Esse contexto de intolerância religiosa provocou deslocamentos populacionais, migrações forçadas e profundas transformações socioeconômicas, entre as quais se destaca a migração de judeus do ensolarado Nordeste para o frio da América do Norte.

A diáspora de 1654 e o surgimento da comunidade judaica em Nova York

Segundo o historiador pernambucano Evaldo Cabral de Mello (1998), a negociação que resultou na restituição do Nordeste neerlandês (1630-1654) aos portugueses envolveu montantes expressivos, cerca de sessenta e três toneladas de ouro, evidenciando a importância econômica da região, marcada pela produção e exportação mundial de açúcar, o “ouro branco” do século XVII.

Diante desse cenário, a comunidade judaica do Nordeste foi forçada a emigrar. Deixaram para trás a primeira sinagoga das Américas, a Kahal Zur Israel, fundada em 1636, em Recife. Parte desse grupo que saíram de Olinda (então cidade mais rica do Brasil Colônia), de Recife, ou do Ceará, retornou à Europa, especialmente para Amsterdã, enquanto outros seguiram para o Caribe e, posteriormente, para a América do Norte.

Em setembro de 1654, um grupo de 23 judeus sefarditas de Pernambuco chegou à Nova Amsterdã. Esse evento é amplamente reconhecido como o marco inicial da presença judaica nos Estados Unidos da América (EUA). Em 1664, a colônia holandesa foi conquistada pelos ingleses e passou a se chamar Nova York, em homenagem ao Duque de York, consolidando sua inserção no vasto e rico Império Britânico.

Em 1776, com a Declaração de Independência dos EUA, teve início a formação de uma nação independente. Ao longo das décadas seguintes, a Nova York consolidou-se gradualmente como o principal centro urbano, econômico e financeiro do país, tornando-se, no século XIX, a cidade mais populosa e a mais rica dos EUA. Posteriormente, os EUA viriam a se tornar a maior economia do mundo em termos de Produto Interno Bruto (PIB) nominal, conforme métricas de organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Capital mercantil e financeiro

Os judeus sefarditas que migraram do Nordeste, em especial, de Pernambuco, possuíam experiência consolidada em comércio internacional, crédito, seguros e finanças, acumulada ao longo de sua atuação no comércio do Oceano Atlântico.

Sua valiosa contribuição para o desenvolvimento econômico de Nova York pode ser analisada em três dimensões: i) fortalecimento de redes comerciais transatlânticas; ii) introdução de práticas financeiras mais sofisticadas; e iii) diversificação das atividades econômicas urbanas.

Embora não se possa atribuir exclusivamente a esse grupo religioso a ascensão econômica da cidade, sua presença integrou um conjunto mais amplo de fatores institucionais, geográficos e demográficos que favoreceram a consolidação de Nova York como centro financeiro global.

Participação judaica na independência

Segundo o historiador inglês Jonathan Israel (1985), a ampliação do papel dos judeus nas esferas política e econômica europeias, a partir da década de 1570, representou uma forma inicial de emancipação judaica.

Entre os descendentes dessa diáspora nordestina, destaca-se Gershom Mendes Seixas, figura relevante durante a Guerra de Independência dos EUA, que apoiou as forças lideradas por George Washington, primeiro presidente dos EUA (1789-1797) e uma das figuras centrais da Revolução Americana em 1776.

A Declaração de Independência dos EUA, proclamada em 4 de julho de 1776, representou um marco decisivo na história moderna, ao romper os laços coloniais com o Império Britânico e redefinir os rumos políticos, institucionais e ideológicos no Novo Mundo.

Vale destacar também que George Washington tomou posse em 30 de abril de 1789, no Federal Hall, em Nova York. Durante seu governo, foi instituída a capital federal permanente, Washington, D.C., oficialmente fundada em 16 de julho de 1790.

O irmão de Gershom, Benjamin Mendes Seixas, esteve entre os 24 corretores de ações signatários do acordo que deu origem à New York Stock Exchange (NYSE), formalizada em 17 de maio de 1792 por meio do Buttonwood Agreement, em Wall Street, no distrito financeiro de Manhattan.

Em 2026, Nova York é uma cidade de quase 9 milhões de habitantes, de arranha-céus imponentes, tráfego intenso, táxis amarelos emblemáticos, luzes brilhando e atividades urbanas ininterruptas. O principal cartão-postal da cidade é a Estátua da Liberdade, bem na entrada do Porto de Nova York e de New Jersey, símbolo histórico da liberdade e da imigração nos EUA desde 28 de outubro de 1886, no centenário da Independência dos EUA.

Outro relevante cartão-postal é o belo e mundialmente famoso Central Park. Anualmente, a cidade de Nova York recebe cerca de 12,5 milhões de turistas internacionais, atraídos por ícones urbanos e arquitetônicos como o Empire State Building, a Times Square, a Ponte do Brooklyn, o Rockefeller Center, o Teatro da Broadway, a sede da Organização das Nações Unidas (ONU), o Museu Americano de História Natural, o Museu Memorial de 11 de Setembro e o Metropolitan Museum of Art (MET).

No MET, pode-se apreciar o famoso quadro “Washington’s Crossing of the Delaware River” (“Washington Cruzando o Rio Delaware”), pintado em 1851 pelo artista germano-estadunidense Emanuel Leutze. A pintura histórica retrata um momento decisivo da Guerra de Independência dos EUA, ocorrido em 25 de dezembro de 1776, e ganha especial relevância nas comemorações alusivas aos 250 anos da Declaração de Independência norte-americana.

O papel do capital humano e das instituições

A experiência histórica da diáspora judaica nordestina evidencia que o desenvolvimento econômico está fortemente associado à circulação de capital humano, conhecimento e instituições eficientes.

A presença judaica em Nova York teve início formal em 22 de setembro de 1654, com a chegada dos 23 refugiados sefarditas oriundos do Recife. Atualmente, a região metropolitana de Nova York abriga a maior população judaica fora de Israel, com cerca de 2 milhões de pessoas.

A cidade de Nova York é composta por cinco distritos (boroughs): Manhattan, Brooklyn, Queens, The Bronx e Staten Island. Entre os principais bairros historicamente associados à presença judaica destacam-se Lower East Side, importante centro da imigração judaica no século XIX; Williamsburg, com forte presença de comunidades de judeus ortodoxos no Brooklyn; e Borough Park, um dos maiores centros judaicos ortodoxos do mundo.

Esse caso reforça a tese de que sociedades abertas à diversidade tendem a apresentar maior dinamismo econômico, ao passo que contextos de exclusão social ou religiosa podem resultar em perdas significativas de capital humano e oportunidades de desenvolvimento.

Segundo Samuel Oppenheim (1909), foi devido à presença dos judeus em Nova Amsterdã e às suas reivindicações por liberdade religiosa que os luteranos passaram a exigir também, privilégios semelhantes no que diz respeito à liberdade de consciência.

Os judeus, historicamente grandes comerciantes, eles também defenderam a liberdade econômica, pois esta favorece o livre exercício das atividades produtivas, a circulação de bens e serviços e a expansão das redes comerciais. Além disso, ambientes de maior liberdade econômica tendem a estimular o empreendedorismo, a inovação, o conhecimento e a mobilidade social, elementos frequentemente associados à prosperidade econômica.

Considerações finais

Há trezentos e setenta e dois anos, um grupo de 23 refugiados judeus deixou Recife e chegou a Nova Amsterdã, futura Nova York. Suas famílias jamais retornaram à cidade do Recife, onde ainda se encontra a Ponte Maurício de Nassau, um dos principais símbolos do período do domínio holandês no Nordeste, especialmente durante o governo do Conde João Maurício de Nassau, entre 1637 e 1644.

Essas famílias também jamais retornaram à Sinagoga Kahal Zur Israel, reconhecida como a primeira sinagoga das Américas. Esses dois marcos históricos localizam-se muito próximos entre si, uma distância aproximada, a pé, entre a Ponte Maurício de Nassau, inaugurada em 1643 e submetida a reformas estruturais em 1865 e 1917, e a sinagoga, é de cerca de 300 metros, ambas situadas no Recife Antigo.

A expulsão dos judeus do Nordeste em 1654, o território que chegou a estender-se de Sergipe ao Maranhão, embora motivada por fatores políticos e religiosos, produziu efeitos duradouros na História econômica do Brasil e dos EUA. Ao contribuírem para o surgimento da rica comunidade judaica em Nova York, esses migrantes participaram da construção de um dos principais centros financeiros do mundo.

Do ponto de vista histórico, a presença de judeus sefarditas que migraram do Nordeste do Brasil colonial, especialmente de Pernambuco, esses grupos contribuíram para a formação econômica da então Nova Amsterdã. Esses primeiros judeus leram, releram, mas diariamente viveram, estudaram e transmitiram a história milenar contida na Torá.

Os judeus são reconhecidos como o “povo escolhido por Deus”. Sob uma perspectiva histórica, econômica e cultural, a cidade de Nova York tornou-se uma das principais cidades escolhidas por comunidades judaicas ao longo de mais de três séculos, consolidando-se como um importante centro econômico, financeiro, cultural e intelectual da diáspora judaica mundial.

Sim, a cidade de Nova York é considerada a metrópole mais filmada do mundo, servindo de cenário para inúmeros filmes consagrados, séries de televisão e videoclipes musicais de projeção internacional. Em razão dessa intensa presença na indústria audiovisual global, tornou-se uma das cidades mais conhecidas do planeta.

Em síntese, fluxos migratórios, capital humano qualificado e instituições inclusivas constituem fatores essenciais para a formação de sociedades prósperas, inovadoras e dotadas de elevado poder de compra. Nesse contexto, a diáspora dos judeus do Nordeste para Nova York representa um exemplo histórico e secular de como mobilidade humana, conhecimento e liberdade econômica podem contribuir decisivamente para a prosperidade econômica de uma nação.

Referências bibliográficas

DE MELLO, Evaldo Cabral. O negócio do Brasil: Portugal, os Países Baixos e o Nordeste, 1641-1669. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998.
ISRAEL, Jonathan Irvine. European Jewry in the Age of Mercantilism, 1550-1750. Oxford: Oxford University Press, 1985.
NYSE – New York Stock Exchange. The History of NYSE. Disponível em: https://www.nyse.com/history-of-nyse. Acesso em: 06 mai. 2026.
OPPENHEIM, Samuel. The Early History of the Jews in New York, 1654-1664. American Jewish Historical Society (1909). Disponível em: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/52/The_early_history_of_the_Jews_in_New_York%2C_1654-1664._Some_new_matter_on_the_subject_%28IA_earlyhistoryofje00oppe%29.pdf. Acesso em: 06 mai. 2026.
(*) Paulo Francisco Monteiro Galvão Júnior é economista paraibano (CORECON-PB 1392), 56 anos de idade, conselheiro efetivo do CORECON-PB, secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, membro do Instituto de Inteligência Econômica (IIE) em São Paulo, integrante do Grupo de Reforma Tributária da Paraíba (GRT-PB) em João Pessoa, apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência na capital paraibana, autor de 19 e-books de Economia, palestrante, autor e co-autor de mais de 400 artigos de Economia e colunista da Revista NORDESTE, do Portal North News, da SAM Consultoria, do NotíciaExtra.com e do Portal Valentina. WhatsApp para palestras e entrevistas: +55 (83) 92000-4420.
Curta e compartilhe:

Redacao RNE

Leia mais →

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *