Após cumprir as exigências da Lei das Estatais e ser novamente convocado para presidir a instituição, o dirigente reassume o comando do banco em um cenário de resultados recordes, juros elevados e novas demandas por financiamento produtivo em um ano marcado por eleições majoritárias.
Por Luciana Leão
Poucas instituições têm presença tão direta na vida econômica do Nordeste quanto o Banco do Nordeste. É nesse contexto que Paulo Câmara retorna à presidência da instituição, após cumprir as exigências da Lei das Estatais e ser novamente convocado para liderar o banco em um momento de expansão do crédito e de novas pressões sobre o financiamento produtivo.
Com resultados recordes alcançados recentemente e um calendário político que adiciona complexidade às decisões econômicas, a nova etapa de gestão se desenha como um período de consolidação e responsabilidade institucional: ampliar o alcance do crédito, fortalecer os pequenos negócios e sustentar o papel do banco como motor do desenvolvimento regional.
Confira a entrevista exclusiva concedida à Revista NORDESTE:
Revista NORDESTE – O que muda, na prática, com o seu retorno à presidência do Banco do Nordeste neste novo momento da instituição?
PAULO CÂMARA- Antes de tudo, é importante registrar o reconhecimento ao presidente Lula por mais essa oportunidade de estar à frente do Banco do Nordeste.
A instituição chega a esse momento fortalecida, com resultados consistentes e capacidade ampliada de atuação. Em 2025, atingimos R$ 68,4 bilhões em contratações, o maior volume da nossa história.
São R$ 44 bilhões a mais do que foi financiado em 2022. O passo agora é avançar sobre essa base, ampliando a presença nos territórios e qualificando ainda mais a entrega. A prioridade é fazer com que esse volume crescente de crédito continue chegando com eficiência e impacto direto na vida das pessoas.
NORDESTE- Quais são as prioridades imediatas definidas para esta nova fase de gestão?
PAULO CÂMARA- O foco está em ampliar o alcance do crédito produtivo com qualidade. Saltamos de 51 para 62% % dos recursos do Fundo Constitucional do Nordeste (FNE) voltados para os micro, pequenos e pequeno-médios empreendedores.
Tudo isso sem deixar de ser o banco dos grandes projetos da região. E só conseguimos essa realização porque o BNB cresceu e ampliou a disponibilidade de crédito em todos os segmentos.
Microcrédito e impacto na economia regional
NORDESTE- Em um ano eleitoral e de encerramento de ciclo do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como o banco pretende equilibrar a demanda por expansão do crédito e dos investimentos com a sustentabilidade financeira das operações?
PAULO CÂMARA- Esse equilíbrio é fundamental para a atuação do Banco. O FNE segue um rito de planejamento construído em parceria com a Sudene, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional e em diálogo direto com os setores produtivos, o que garante aderência às necessidades reais da economia. Ao mesmo tempo, o cenário de juros elevados exige atenção.
Para que a atividade produtiva avance com mais intensidade, é importante que haja condições financeiras mais favoráveis. O Banco atua para atender a demanda por crédito, mas sem perder de vista seu papel de indutor do desenvolvimento regional.
NORDESTE- Os micro e pequenos empreendedores foram uma das prioridades do banco até 2025. Esse foco permanece como eixo central da atuação da instituição?
PAULO CÂMARA- Esse segmento continua no centro da estratégia. A atuação é complementar entre urbano e rural. O Crediamigo ultrapassou 2,2 milhões de clientes no ano passado, enquanto o Agroamigo ampliou de forma significativa o atendimento aos agricultores familiares, com forte presença feminina em ambos os programas.
Nossos dois programas de microcrédito mobilizaram um terço de todos os R$ 68 bilhões financiados em 2025.
Essa base é essencial para dinamizar a economia local, gerar renda e fortalecer cadeias produtivas. O Banco construiu sua identidade nesse campo e seguirá aprofundando esse trabalho.
Resultados recentes e desafios do investimento

NORDESTE- Qual é o principal balanço que o senhor faz da sua gestão até meados de 2025?
PAULO CÂMARA- Os resultados mostram uma expansão consistente, com impacto concreto na economia. No último triênio, foram R$ 188 bilhões contratados, elevando a média anual, que era de R$ 42,5 bilhões na gestão anterior, para R$ 62,6 bilhões.
São mais de R$ 20 bilhões injetados a mais na economia regional por ano. Esse aumento de escala veio acompanhado de diversificação, alcançando desde pequenos empreendedores até grandes projetos estruturantes.
Também houve avanços relevantes em inovação, sustentabilidade e digitalização. O Banco hoje está mais robusto, mais próximo dos territórios e mais preparado para cumprir sua missão.
NORDESTE- Quais são hoje os maiores desafios para a expansão do crédito e do investimento produtivo no Nordeste, especialmente em um cenário de juros elevados e maior pressão por resultados?
PAULO CÂMARA- O ambiente exige mais eficiência e maior capacidade de estruturação. É preciso garantir que o crédito continue chegando na ponta com qualidade, mantendo níveis elevados de adimplência. Ao mesmo tempo, não dá para ignorar o efeito dos juros sobre a decisão de investir.
Os setores produtivos precisam de taxas mais adequadas para expandir. O Banco atua justamente para mitigar essas limitações, direcionando recursos para atividades que têm maior capacidade de gerar emprego e renda.
O papel do banco no desenvolvimento do Nordeste
NORDESTE- Como o Banco do Nordeste pode se consolidar, de forma efetiva, como o principal braço financeiro do desenvolvimento regional?
PAULO CÂMARA- A consolidação passa por aprofundar um modelo que já se mostra eficiente: atuação integrada, conhecimento do território e alinhamento com políticas públicas. O Banco tem presença capilarizada e capacidade técnica para transformar crédito em desenvolvimento.
Mesmo com uma estrutura mais enxuta, já responde por mais da metade do crédito de longo prazo na região. O caminho é ampliar essa atuação com cada vez mais precisão e articulação.
NORDESTE- O que ainda falta para que a instituição se torne um banco plenamente voltado ao desenvolvimento do Nordeste?
PAULO CÂMARA- Há espaço para avançar principalmente na ampliação das fontes de recursos, o que permitirá expandir ainda mais a capacidade de financiamento. Também é importante evoluir na integração com políticas públicas e no uso de tecnologia para ganhar escala.
O Banco já cumpre um papel central no desenvolvimento regional, mas precisa continuar se adaptando para responder às transformações da economia e das cadeias produtivas.
*Entrevista exclusiva publicada na revista NORDESTE edição 231

