Aos 13 anos, ativista da Paraíba representa o Brasil em debate climático global
Por Ana Júlia Silva
Especial para a RNE
Aos 13 anos, a ativista paraibana Maria Vitória Brilhante – Mavi – já ocupa espaços de destaque no debate climático global. Embaixadora do “Meu Futuro, Minha Voz” do Instituto Limpa Brasil e convidada pelo Governo Federal para integrar o Fórum da Juventude do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (ECOSOC Youth Forum), em Nova York, a jovem construiu uma trajetória marcada por ações concretas de mobilização socioambiental.
Nesta entrevista exclusiva à Revista NORDESTE, Mavi fala sobre os desafios de atuar cedo em espaços de decisão, a importância da alfabetização climática e o papel da juventude na construção de soluções para a crise ambiental. Confira:
Revista NORDESTE – Como começou o seu interesse pelas questões ambientais?
Mavi – Desde pequena gostei muito de meio ambiente, de preservar a natureza, cuidar dos animais e quando eu tinha 10 anos, vi o meu primeiro movimento de limpeza lá na Avenida Paulista em São Paulo, foi quando eu conheci o Instituto Limpa Brasil e comecei realmente a me interessar pelas questões ambientais.
NORDESTE – O que te motivou a se tornar embaixadora do Instituto Limpa Brasil?
Mavi – Eu participei da minha primeira ação com eles em uma comunidade no Recife e vi que o que eles fazem é de verdade. Eles querem tentar ajudar o planeta, não são só promessas vazias. E também porque eles têm um projeto que eu acredito muito que é o “My Voice My Future”, de alfabetização contra as mudanças climáticas nas escolas.
NORDESTE – O que significou, para você, participar do Fórum da Juventude da ONU recentemente sendo tão jovem?
Mavi – Foi uma responsabilidade enorme, porque eu fui representar vários jovens que gostariam muito de estar lá e não puderam representar essas comunidades mais vulneráveis, que são as mais afetadas pelas mudanças climáticas. Mas também foi uma honra, poder representar e dar voz a todos esses jovens, mostrar que a juventude também faz parte desse processo de mudanças climáticas.
NORDESTE – Você sente que sua idade muda a forma como as pessoas escutam suas ideias?
Mavi – Sim, eu acho que às vezes as pessoas olham para mim e acham que por ter pouca idade, eu não sei o que estou falando ou que é apenas algo distante, mas gosto de falar que toda vez que eu abro a boca para falar as pessoas começam a me ouvir de verdade. Elas ficam chocadas e falam: “Nossa, uma menina de 13 anos tá fazendo tudo que eu deveria ter feito antes e ela é mais nova que eu, então talvez eu esteja fazendo algo errado e eu preciso começar a agir”.
NORDESTE – Para você a idade ainda é uma barreira quando se trata de estar em um lugar de autoridade?
Mavi – Para mim é. Mas é uma barreira que eu estou destruindo aos poucos. Cada vez mais rápido, a cada convite, a cada evento que eu estou participando, a cada mutirão, a cada debate, está sendo um tijolinho dessa barreira quebrado.
NORDESTE – Você já desenvolveu ações ambientais na sua comunidade ou escola?
Mavi – Na minha escola eles não praticam muito a questão sustentável, eu lutei muito para poder fazer o Dia Mundial da Limpeza. Mas ações mesmo, começo dentro da minha casa. Eu sempre faço coleta seletiva, separando pelo menos o lixo corretamente. Em João Pessoa, fizemos o Dia Mundial da Limpeza, foram mais de 700 pessoas para a praia, para recolher os resíduos, por exemplo.
NORDESTE – Qual foi a iniciativa que mais te marcou até agora?
Mavi – Com certeza, foi a Cop 28, em Dubai, porque eu não tinha muito conhecimento. E isso abriu portas. Eu comecei a estudar mais, procurar mais, me interessar sobre assuntos ambientais. Fui entrevistada para vários jornais e matérias como a criança mais jovem a palestrar na COP da delegação brasileira, mostrando que os jovens também são a chave para essa solução.
NORDESTE – Desde então, quais outros projetos participou?
Mavi – A partir da COP, eu fiz vários cursos, inclusive um que me marcou muito, que foi junto com a Universidade de Oxford, que para você poder fazer você tem que ter pelo menos 16 anos e eu fiz com 12. A princípio negaram minha inscrição por causa da pouca idade, mas eu mostrei que os jovens devem estar à frente de tudo isso. E mostrei minhas ações, tudo que eu já fiz, e que eu tinha capacidade realmente de fazer o curso para influenciar cada vez mais jovens.
NORDESTE – Você já percebeu mudanças reais a partir do seu trabalho como ativista?
Mavi – Na minha escola, entre os meus colegas, eu percebo que, no começo, era meio assim: ‘Mavi, você está meio doida, meio maluquinha’. Mas hoje eu vejo que eles estão cada vez mais com vontade de fazer a diferença e de estar junto comigo. A partir disso, comecei também a cuidar mais do meu ambiente, conheci cada vez mais jovens, influenciei mais adultos e gosto sempre de falar que minha mãe comenta muito com as pessoas que ela aprende comigo todos os dias.
NORDESTE – Na sua opinião, qual é o maior desafio ambiental hoje para os jovens?
Mavi – Com certeza é a falta de acesso à informação. Às vezes também não é interessante. Mas a gente precisa mostrar mais, porque a gente nasce sem saber de nada, e quando vai aprendendo ao longo da vida, começa a se interessar. O interesse se forma desde cedo na escola, por isso a alfabetização climática é fundamental.
NORDESTE – Como os jovens podem contribuir de forma prática para enfrentar a crise climática?
Mavi – Começa dividindo os resíduos corretamente, descartando aquele lixo, reutilizando, sempre seguindo a regra dos três R’s, e fazendo projetos em suas comunidades, como multidões de limpeza.
NORDESTE – Como você vê o papel das crianças e adolescentes nas decisões sobre o futuro do planeta?
Mavi – A gente [os jovens] pensa muito fora da caixa, sempre temos ideias. E acho que juntando tudo, alguma pode ajudar o nosso planeta. Temos cada vez mais acesso à informação e estamos sempre ligados, isso é algo que está ao nosso favor.
NORDESTE – Você acredita que os jovens estão sendo ouvidos o suficiente nos espaços de discussão climática?
Mavi – Não. Mas eu acho que, principalmente nos eventos que eu fui, eles prometem muito, falam que vão escutar os jovens. Por exemplo,a COP 30, eu tinha expectativas muito altas e me decepcionei um pouco, porque eles disseram que seria para os jovens e crianças, e que trariam pessoas de diferentes raças, etnias, jovens, mulheres, crianças para falar durante a conferência, isso não aconteceu de fato, e não foram soluções realmente efetivas.
*Entrevista publicada na edição 231 da Revista NORDESTE.

