“Crise de identidade dos prefeitos, governador e demais envolvidos no São João”: especialistas e artistas apontam descaracterização em grandes festas do Nordeste
Por João Batista*
Já repercute dentro e fora dos 9 estados o significado da descaracterização do Forró e/ou dos Festejos Juninos no Nordeste. O advogado e estudioso da Cultura Popular a partir do Rio de Janeiro, João Batista, ousa apontar que no Sudeste a “valorização do Forró é muito maior”.
“Tradicionalmentfeste associado ao forró, às quadrilhas e às celebrações comunitárias, o São João — uma das festas mais emblemáticas do Nordeste — enfrenta um processo de transformação que tem gerado críticas de artistas, pesquisadores e parte do público”. Observa para acrescentar:
“Em cidades como Campina Grande (PB), onde ocorre o evento conhecido como “Maior São João do Mundo” e Caruaru, a discussão sobre a perda de identidade cultural ganha força a cada edição.
Conforme observou, nos últimos anos, a grade de atrações do evento tem sido marcada pela presença crescente de artistas de gêneros que não fazem parte do repertório junino tradicional. Parece que a programação é feita por algum acéfalo cultural.
A mudança, segundo especialistas em cultura popular, altera o caráter da festa e reduz o protagonismo de manifestações como o forró pé de serra, o xote e o baião — pilares históricos do ciclo junino.
Produtores culturais afirmam que a ampliação de ritmos atende a interesses comerciais e políticos, mas compromete a essência da celebração. “Pluralidade não pode significar substituição”, dizem pesquisadores ouvidos em debates públicos sobre o tema.
Contradição: forró cresce fora do Nordeste
Enquanto isso, cidades de outras regiões do país, como São Paulo e Rio de Janeiro, têm registrado aumento no número de eventos e casas dedicadas ao forró, festivais especializados e formação de novos públicos. Para músicos e estudiosos, o fenômeno evidencia uma contradição: a tradição nordestina encontra, em alguns casos, mais espaço e valorização fora de sua região de origem do que em grandes eventos locais, em especial quando depende dos políticos. “Maior Forró do Mundo” aparece apenas como referência popular ao estilo musical anteriormente predominante. Será que os cariocas permitiriam em pleno Carnaval da Sapucaí uma escola desfilar ao som de quadrilha junina e forró! Certamente que não!
Gestão pública no centro do debate
A condução das festas juninas por prefeituras e secretarias de cultura é apontada como fator determinante nesse processo. Críticos afirmam que decisões administrativas vergonhosa priorizam visibilidade, retorno financeiro e acordos políticos, em detrimento da preservação cultural. A falta de políticas consistentes de valorização de artistas regionais e de fortalecimento das tradições juninas é um dos principais pontos levantados.
Movimentos por um resgate cultural
Diante desse cenário, cresce entre artistas e parte do público a defesa de um reposicionamento das festas juninas. A proposta envolve:
- Retomar o protagonismo do forró tradicional
- Valorizar sanfoneiros, trios pé de serra e compositores regionais
- Reforçar elementos simbólicos da festa, como quadrilhas, fogueiras, comidas típicas e decoração tradicional
- Ampliar a participação popular nas decisões culturais
É quase unânime entre os nordestinos raizes, a preservação do São João não depende apenas de políticas públicas, mas também da escolha do público. “Nenhuma festa sobrevive sem quem a frequenta”, afirmam.
Entre o maior e o mais autêntico
A discussão coloca em xeque o próprio conceito de grandeza associado ao evento. Para críticos, o desafio não é disputar o título de “maior São João do mundo”, mas garantir que a festa continue sendo reconhecida como expressão legítima da cultura nordestina. E conclui: Viva o forró!
Os prefeitos antes e depois do maior São João do mundo em Campina Grande
Consta que nos 50 anos para cá, depois da gestão de Enivaldo Ribeiro até 1982 com força do forró, os demais prefeitos que governaram Campina Grande nos últimos 50 anos (aproximadamente de 1976 a 2026), listados do mais recente ao mais antigo são os seguintes:
Bruno Cunha Lima (2021–2024 / Reeleito para 2025–2028)
Romero Rodrigues (2013–2020) – Dois mandatos
Veneziano Vital do Rêgo (2005–2012) – Dois mandatos
Cássio Cunha Lima (1997–2004) – Dois mandatos
Ronaldo Cunha Lima (1989–1992 / 1993–1994 – saiu para concorrer ao governo)
Felix Araújo (1986–1988)
Ronaldo Cunha Lima (1983–1985 – segundo mandato na época)
Enivaldo Ribeiro (1977–1982)
Evaldo Cavalcanti Cruz (1973–1977)
Destaques do Período:
A família Cunha Lima teve forte presença, com Ronaldo, Cássio e Bruno ocupando a prefeitura.
Bruno Cunha Lima foi o primeiro prefeito na história da cidade a ser eleito em primeiro turno, em 2020, e reeleito em 2024.
O atual período eleitoral (2024) confirmou a continuidade da gestão de Bruno Cunha Lima até o final de 2028.
*João Batista Ferreira de Carvalho, paraibano, residente há 25 anos no Rio de Janeiro, é advogado com atuação no eixo Rio–São Paulo–Brasília e no estado da Paraíba, que acompanha, com inconformismo, o processo de descaracterização cultural de sua região de origem.
*Conteúdo publicado na edição 231 da Revista NORDESTE

