Por Luciana Leão
A escalada das tensões envolvendo Irã e Israel elevou o preço do petróleo e reacendeu o debate sobre segurança energética. No Brasil, enquanto o diesel pressiona custos logísticos e o dólar influencia importações e exportações, o setor sucroenergético do Norte e Nordeste ajusta sua estratégia produtiva.
Os números divulgados em comunicado pela Associação de Produtores de Açúcar, Etanol e Bioenergia (NovaBio) mostram que a moagem de cana-de-açúcar atingiu 59 milhões de toneladas até 31 de janeiro da safra 2025/26, crescimento de 2,5% em relação ao mesmo período do ciclo anterior, quando o volume foi de 57,6 milhões de toneladas.
Mais do que o avanço na moagem, o dado que chama atenção é a mudança no mix produtivo: queda na fabricação de açúcar e aumento expressivo na produção de etanol, especialmente o anidro, utilizado na mistura obrigatória à gasolina.
Nordeste puxa crescimento
De acordo com a NovaBio, o desempenho positivo foi impulsionado pelo Nordeste, que registrou alta de 3,3% na moagem, alcançando 51,8 milhões de toneladas, frente às 50,2 milhões da safra passada. Na Região Norte, houve retração de 2,6%, passando de 7,3 milhões para 7,1 milhões de toneladas.
Apesar do aumento na cana processada, a produção de açúcar caiu 10,8%, totalizando 3,323 milhões de toneladas, ante 3,725 milhões no ciclo anterior.
Em sentido oposto, a produção de etanol somou 2,53 milhões de metros cúbicos, avanço de 12,7%. O destaque foi o etanol anidro, com crescimento de 44%, enquanto o hidratado recuou 5,6%.
Segundo Renato Cunha, presidente executivo da NovaBio, o redirecionamento reflete o cenário internacional adverso para o açúcar, com preços abaixo dos custos de produção, além de oscilações cambiais e tarifas externas que afetam a competitividade. “Esses fatores justificam o aumento da produção de etanol em detrimento do açúcar”, afirmou no comunicado.
Estoques menores e mercado aquecido
Os estoques físicos de etanol nas duas regiões somaram 327,8 mil metros cúbicos até o fim de janeiro, queda de 14,7% em comparação ao mesmo período do ano anterior. O recuo ocorreu tanto no anidro (-15,85%) quanto no hidratado (-13,33%), indicando maior escoamento do produto ao mercado.
O indicador de qualidade da cana, o Açúcar Total Recuperável (ATR), apresentou crescimento de 1,3% no total dos produtos finais, embora o ATR por tonelada tenha registrado queda de 1,2%, refletindo variações climáticas e operacionais.
Até 31 de janeiro, as unidades produtoras do Norte e Nordeste já haviam alcançado 81,3% da moagem estimada para a safra 2025/26. O Norte está mais adiantado, com 90,1% da previsão realizada, enquanto o Nordeste atingiu 80,1%.
Ajuste estratégico
O movimento das usinas sinaliza uma adaptação às incertezas do mercado internacional e à volatilidade cambial. Em um cenário de petróleo valorizado e dólar oscilante, o etanol ganha relevância como alternativa doméstica ao combustível fóssil, ao mesmo tempo em que oferece maior previsibilidade de mercado frente às margens apertadas do açúcar.
Sem alterar estruturalmente a matriz energética nacional, o avanço do etanol no Norte e Nordeste indica que o setor já responde, na prática, às pressões externas que impactam preços, custos e competitividade no país.
Fertilizantes e redução da dependência externa
Outro movimento relevante no Nordeste envolve a retomada da produção de fertilizantes nitrogenados pela Petrobras em unidades localizadas na Bahia e em Sergipe. A iniciativa ocorre em um contexto de forte dependência brasileira de insumos importados, especialmente da Rússia, ainda em conflito com a Ucrânia.
O Brasil importa a maior parte dos fertilizantes utilizados no agronegócio, o que expõe o setor às oscilações cambiais e a interrupções geopolíticas. A retomada da produção regional pode, no curto e médio prazo, contribuir para reduzir parte dessa vulnerabilidade, sobretudo no fornecimento de nitrogenados.
A Petrobras já vende fertilizantes nitrogenados de suas fábricas do Nordeste para clientes em diversos Estados, reduzindo riscos de oferta ao Brasil em momento de uma nova guerra no Oriente Médio, uma região que supriu cerca de 35% da demanda externa brasileira de ureia em 2025.
A unidades da Bahia e Sergipe voltaram a operar nos últimos meses e já atingiram 90% da capacidade, disse a companhia à Reuters. Juntas, as fábricas têm capacidade de produzir 12% da demanda de ureia no Brasil, uma potência agrícola que importa a maior parte de suas necessidades.
A venda de ureia da Petrobras está sendo realizada a granel e em “big bags” para clientes da Bahia, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo. Já a venda de amônia atende principalmente ao polo petroquímico de Camaçari, na Bahia, e a clientes da região, segundo reportagem da Reuters.
Embora o impacto inicial ainda seja limitado diante da dimensão do mercado nacional, o movimento sinaliza tentativa de fortalecer a segurança de insumos estratégicos em um cenário internacional marcado por instabilidade.
Ao lado do avanço do etanol, a reativação das fábricas de fertilizantes indica que o Nordeste passa a integrar não apenas a matriz energética renovável, mas também a estratégia de redução de dependência externa em cadeias sensíveis ao câmbio e à geopolítica.

