Do campo ao porto, a nova logística do agronegócio no Piauí

Expansão da produção de grãos aumenta a demanda por armazenagem, centros de distribuição, rodovias e novas alternativas de escoamento no sul do Piauí

 

O crescimento do agronegócio no MATOPIBA (região inserida entre os estados do Maranhão, Tocantis, Piauí e Bahia) está levando novos investimentos para a infraestrutura logística do Piauí. À medida que a produção de grãos ganha escala, aumenta também a necessidade de estruturas para armazenar insumos e mercadorias, distribuir produtos mais perto das fazendas e reduzir as distâncias entre as áreas produtoras e os mercados consumidores e portos.

Um dos exemplos está em Bom Jesus, no sul do estado, onde a Kothe, empresa catarinense de logística com atuação voltada principalmente ao agronegócio e à distribuição de insumos, investiu R$ 40 milhões em um centro de distribuição de 11,4 mil metros quadrados, com 15.512 posições-palete e 16 docas. A unidade foi planejada para armazenar e distribuir sementes, defensivos, produtos biológicos e fertilizantes, aproximando os estoques dos polos produtores dos Cerrados piauienses.

“Agronegócio trabalha com janelas muito específicas”, explica Paulo Kothe, diretor de Logística da empresa. Segundo ele, não basta transportar o produto: é necessário manter o estoque no local adequado, preservar as condições de armazenagem e responder rapidamente à demanda do produtor.

Outras empresas nacionais têm investimentos na região. Em Uruçuí, também no sul do estado, a Luft Logistics, do Rio Grande do Sul, colocou em operação um modelo de centro de distribuição de menor porte, instalado mais próximo das áreas produtoras. A empresa estuda levar o formato para outras regiões do país. A estratégia, segundo o CEO Luciano Luft, é reduzir o impacto da distância sobre a disponibilidade dos produtos e aproximar a logística da ponta da cadeia.

Impactar os gargalos

A expansão dessas estruturas ocorre em um estado que ainda enfrenta uma diferença entre a capacidade de armazenagem e o volume produzido. O Anuário Agrologístico 2026, da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), aponta déficit de armazenagem no Piauí e mostra que a capacidade instalada não acompanha o crescimento da produção agrícola.

Os números do IBGE ajudam a dimensionar a estrutura existente. 

No segundo semestre de 2025, o Piauí tinha 124 estabelecimentos de armazenagem, com capacidade total de 3,83 milhões de toneladas, das quais 2,24 milhões estavam em silos e 1,30 milhão em estruturas graneleiras.

A pressão sobre a infraestrutura também aparece nas estradas. Concluída em julho, a Transcerrados, formada pela PI-397, tem 331 quilômetros e atravessa municípios como Uruçuí, Sebastião Leal, Bom Jesus, Monte Alegre do Piauí e Gilbués. A rodovia foi estruturada como um dos corredores para o escoamento da produção dos Cerrados piauienses e sua integração com outros modais.

“A rodovia conecta áreas produtivas a importantes corredores de transporte, permitindo maior regularidade no escoamento da produção e redução de distâncias operacionais”, afirmou o diretor-geral do DER-PI, Leo Sobral, ao destacar a conclusão da Transcerrados.

A mudança chega também ao litoral. O Porto Piauí, em Luís Correia, iniciou sua fase operacional neste ano e já fechou acordo para movimentar milho e sorgo produzidos no MATOPIBA. A previsão é que estruturas de armazenagem para os grãos sejam implantadas e que os primeiros embarques ocorram no último trimestre de 2026.

Segundo a administração do porto, o Piauí produz mais de 7 milhões de toneladas de grãos e algumas das rotas atualmente utilizadas pelos produtores podem acrescentar até 30% ao custo logístico por causa das filas portuárias.

A conexão entre produção, armazenagem e transporte ganha ainda outra alternativa com o avanço da Transnordestina a partir de Eliseu Martins. A ferrovia poderá integrar a produção do sul do Piauí a outros corredores de transporte e ampliar as opções de escoamento em direção ao Nordeste.

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Luciana Leão

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