Mudanças no Sistema Elétrico Brasileiro: Quem vai consumir a energia do Nordeste

A Região ampliou sua capacidade de geração renovável e se prepara para aumentar a exportação de eletricidade. Ao mesmo tempo, planejamento do setor já considera novas cargas, como data centers e hidrogênio verde. A questão é quanto dessa energia poderá ser transformada em indústria, tecnologia e empregos dentro do próprio Nordeste

 

Por Luciana Leão

 

O Nordeste vive uma mudança de posição no sistema elétrico brasileiro. A região, que ampliou fortemente a geração de energia eólica e solar nos últimos anos, passou a apresentar excedentes em determinados períodos e ganhou importância como fornecedora de eletricidade para o Sistema Interligado Nacional (SIN).

Agora, uma nova discussão começa a se impor: como transformar essa vantagem na geração de energia renovável em investimentos, novas atividades econômicas e empregos dentro da própria região?

Estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) apontam que a capacidade de exportação do Nordeste, hoje em torno de 13,5 GW, poderá alcançar aproximadamente 21 GW até 2030 e 24 GW a partir de 2033, com a expansão das interligações regionais.

Os números se referem à capacidade de exportação, e não ao volume de energia efetivamente transferido em determinado período. O fluxo pelo sistema varia conforme as condições de geração, consumo, armazenamento e operação.

É justamente essa perspectiva que provoca o debate sobre o destino econômico da energia produzida na região.

Exportar energia ou atrair novas cargas?

Reive Barros, engenheiro eletricista, especialista e consultor em transição energética, ex-presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e CEO da Acropolis Energia

Para o professor Reive Barros, engenheiro eletricista, especialista e consultor em transição energética, ex-presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e CEO da Acropolis Energia, a expansão da infraestrutura precisa ser acompanhada por uma estratégia para atrair novas cargas para o Nordeste.

“O planejamento condena o Nordeste a ser exportador de energia e de empregos qualificados”, afirma.

Reive diz defender essa posição desde 2018, quando presidia a EPE. Para ele, a geração de energia deveria estar próxima das cargas, reduzindo custos de transmissão e criando condições para que a eletricidade produzida na região seja utilizada para gerar novas atividades econômicas.

“No período seco o Nordeste é exportador de energia e importador de potência”, afirma. Segundo o professor, o Nordeste exporta atualmente cerca de 13,5 GW, podendo chegar a aproximadamente 21 GW em 2030 e 24 GW em 2033.

Entre os segmentos que poderiam absorver essa energia, ele cita data centers, armazenamento de energia, veículos elétricos e produção de combustíveis renováveis, como etanol, e-metanol e SAF. O hidrogênio verde também entrou nessa lista.

Na avaliação de Reive, o planejamento da transmissão deveria considerar não apenas o escoamento da geração para outras regiões, mas também a infraestrutura necessária para atender novas cargas dentro do próprio Nordeste.

“Quando se fala em gargalo na transmissão é porque se planeja construir linhas para atender as cargas no Sudeste. (…) Será necessário construir transmissão para atender essas novas cargas no Nordeste, que pode ser data center e indústria de um modo geral”, avalia.

EPE: Rede atual permite consumo interno e exportação

A EPE faz uma importante distinção nessa discussão. Em resposta à Revista NORDESTE, a empresa informa que, desde 2021, o Nordeste passou a apresentar um perfil predominantemente exportador de energia, principalmente em razão da grande concentração de projetos de geração renovável variável na região.

Hoje, essas fontes representam aproximadamente 20% da matriz energética nacional. A estatal ressalta, porém, que a infraestrutura de transmissão existente permite o pleno aproveitamento da geração nordestina para consumo interno, além do escoamento dos excedentes para outras regiões do sistema.

O ambiente pode se tornar mais complexo com a chegada de grandes consumidores. Estudos em curso na EPE já consideram a entrada de cargas eletrointensivas, entre elas data centers e plantas de hidrogênio, distribuídas em diferentes regiões do SIN.

A localização desses empreendimentos poderá alterar de forma significativa os fluxos de energia entre os subsistemas. Caso essas cargas se concentrem no Sudeste e no Sul, aumenta a necessidade de importação dessas regiões a partir dos excedentes provenientes do Norte e Nordeste.

Se forem instaladas no Nordeste, permanece a necessidade de ampliar a oferta de geração local e o escoamento dos excedentes renováveis, em razão da necessidade de flexibilidade para atender essas cargas em diferentes condições do sistema.

Nos cenários prospectivos analisados pela EPE, o chamado Bipolo Nordeste II, infraestrutura recomendada para ampliar a capacidade de exportação da região, não aparece como uma estrutura de uso eventual.

A avaliação é que se trata de uma infraestrutura estrutural para aproveitar os excedentes renováveis do Nordeste e atender à demanda de outros subsistemas do SIN.

A EPE também reconhece que grandes projetos podem criar novas exigências para a rede. Segundo a empresa, a escala de alguns dos empreendimentos anunciados é muito superior ao crescimento tradicional da carga regional e, por isso, eles não podem ser simplesmente incorporados à infraestrutura existente sem avaliação das condições de conexão e dos impactos sistêmicos.

Isso não significa que o Nordeste não possa receber essas cargas. Para determinados montantes de potência e localizações, serão necessários reforços e ampliações previamente planejados na rede.

Um exemplo concreto está no estudo prospectivo realizado pela EPE para o Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte. O diagnóstico apontou a necessidade de expansão da transmissão para viabilizar novos consumidores de grande porte, especialmente nas regiões de Pecém e Parnaíba.

A solução recomendada poderá acrescentar até 4 GW de capacidade para conexão de novas cargas, com nova infraestrutura em 500 kV e aproximadamente 1.848 quilômetros de linhas de transmissão. Os investimentos estimados chegam a R$ 5,68 bilhões.

ONS já considera data centers e hidrogênio verde

O Plano da Operação Energética 2026 (PEN 2026), elaborado pelo ONS em conjunto com EPE/MME e CCEE, incorpora cenários de maior participação de cargas especiais, como plantas de data centers e hidrogênio verde

A avaliação encontra outro elemento importante no planejamento mais recente do setor elétrico.

O Plano da Operação Energética 2026 (PEN 2026), elaborado pelo ONS em conjunto com EPE/MME e CCEE, projeta crescimento médio anual de 4,2% da carga de energia do SIN entre 2026 e 2030, chegando a aproximadamente 98,8 GW médios em 2030.

No Nordeste, o consumo médio de eletricidade deverá passar de 14,1 GW em 2026 para 17,4 GW em 2030, crescimento de cerca de 23%.

O planejamento também incorpora cenários de maior participação de cargas especiais, como plantas de data centers e hidrogênio verde, a partir das solicitações de acesso ao SIN.

No cenário de maior expansão dessas cargas, o ONS considera 100% das solicitações de acesso que já receberam parecer favorável. Para 2030, isso representa um acréscimo de carga estimado em aproximadamente 600 MW no subsistema Nordeste.

O número não significa que 600 MW de data centers e plantas de hidrogênio estejam contratados. Trata-se de uma simulação de sensibilidade baseada nas solicitações de acesso existentes.

Ainda assim, mostra que essas atividades já passaram a fazer parte das avaliações sobre as condições futuras de atendimento do sistema.

O próprio PEN 2026 também registra situações de excedente de geração renovável e incorpora uma avaliação específica de curtailment, ou cortes de geração. O armazenamento aparece entre os mecanismos capazes de absorver parte dessa produção e deslocá-la para momentos de maior necessidade.

A corrida pelos grandes consumidores

É nesse ambiente que entram os investimentos em data centers, hidrogênio verde e novas indústrias capazes de ampliar o consumo de energia dentro da própria região.

O Ceará aparece como um dos principais polos dessa nova frente. A combinação entre oferta de energia renovável, infraestrutura do Complexo Industrial e Portuário do Pecém e conectividade por cabos submarinos colocou o Estado na disputa por grandes consumidores.

Um dos exemplos é o complexo de data centers associado à ByteDance, controladora do TikTok, no Pecém. Desenvolvido pela Omnia, o empreendimento prevê uma primeira etapa de 200 MW de capacidade de processamento, com expansão planejada para um complexo de grande porte.

A dimensão do projeto ajuda a dar concretude à discussão. Uma única instalação dessa natureza representa uma nova carga de grande porte próxima de uma região que, ao mesmo tempo, amplia sua geração renovável.

Fábio Feijó, secretário de Desenvolvimento Econômico do Ceará

Em entrevista exclusiva à Revista NORDESTE, o secretário de Desenvolvimento Econômico do Ceará, Fábio Feijó, afirma que a estratégia estadual para os próximos dez anos é posicionar o Estado entre os principais polos latino-americanos da economia do conhecimento.

“Nossa ambição é que o Ceará deixe de ser apenas um consumidor de tecnologia para se tornar também um produtor de conhecimento”, afirma.

Segundo Feijó, os data centers são parte dessa estratégia, e não um fim em si mesmos. A intenção é utilizar a infraestrutura digital para atrair Big Techs e empresas de serviços digitais, criando oportunidades em pesquisa, desenvolvimento de software, inteligência artificial e produção de conteúdo digital.

“Queremos que essas empresas tragam para o Estado não apenas seus servidores, mas também seus centros de engenharia, desenvolvimento de software, pesquisa e inovação, formando talentos locais e trabalhando em parceria com nossas universidades e empresas”, afirma.

A estratégia também envolve a formação de mão de obra em áreas como ciência de dados, computação em nuvem, cibersegurança e engenharia de software, além da estruturação do campus do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) em Fortaleza.

Energia que também chega ao interior

 A relação entre grandes consumidores e geração renovável é outro ponto destacado pelo secretário.

Segundo Feijó, a Casa dos Ventos e os demais investidores em soluções energéticas sustentáveis têm papel estratégico nesse modelo. No caso do grande data center previsto para o Complexo do Pecém, uma das contrapartidas estabelecidas foi a construção de novos parques eólicos e solares no Ceará.

“O crescimento da economia digital precisa caminhar junto com a expansão da oferta de energia limpa”, afirma Feijó.

A estratégia, segundo ele, produz um efeito que vai além do local onde estarão instalados os data centers. Os novos parques de geração deverão ser construídos no interior do Estado.

“Enquanto os data centers se instalam próximos à infraestrutura de conectividade, os novos parques eólicos e solares serão construídos longe dos grandes centros urbanos. Isso leva investimentos, empregos, renda e arrecadação para regiões que historicamente receberam menos oportunidades de desenvolvimento em nosso Estado”, afirma.

É uma resposta à preocupação de que grandes consumidores de energia, especialmente os data centers, tenham capacidade limitada de geração direta de empregos.

O dilema da água

A discussão sobre os data centers introduz, porém, outra variável: os recursos hídricos. Grandes centros de processamento de dados utilizam sistemas de refrigeração e, dependendo da tecnologia empregada, podem demandar volumes significativos de água.

No Nordeste, a questão ganha peso adicional diante das características climáticas da região e da necessidade de conciliar diferentes usos do recurso. No Ceará, o governo afirma que existe planejamento hídrico específico para os grandes empreendimentos do Complexo do Pecém.

“A estratégia do Governo do Ceará é que os grandes projetos industriais do Complexo do Pecém sejam, cada vez mais, ajustados para operar com baixíssimo impacto hídrico”, afirma Feijó. Segundo ele, todo o uso de água é previamente licenciado pelos órgãos competentes e não impacta o abastecimento das comunidades.

O secretário afirma ainda que os projetos foram selecionados considerando a realidade hídrica do Estado e que os empreendimentos aprovados utilizam sistemas de resfriamento em circuito fechado, com consumo reduzido de água.

“Não bastava atrair data centers, era preciso atrair data centers com a tecnologia adequada para a realidade hídrica do Ceará”, diz.

Reive também faz uma ressalva à forma como o problema costuma ser colocado. “Recursos hídricos são um problema mundial”, afirma.Na avaliação do professor, cada empreendimento deve ser analisado de acordo com sua viabilidade hídrica e com as condições do território.

O problema, portanto, não seria simplesmente determinar se o Nordeste tem ou não água, mas avaliar quais fontes estarão disponíveis para cada projeto e como seu uso poderá conviver com o abastecimento humano, a agricultura e os demais setores econômicos.

O legado além dos data centers

Para o Ceará, a aposta é que os grandes consumidores funcionem como porta de entrada para um ecossistema tecnológico mais amplo.

Feijó afirma que o governo estabeleceu uma política de valorização dos fornecedores locais, com prioridade para empresas cearenses nas contratações.

Também foram pactuadas contrapartidas relacionadas à infraestrutura e à formação profissional, incluindo novas redes de fibra óptica entre a Praia do Futuro e o Pecém, investimentos em infraestrutura elétrica, programas de qualificação em Tecnologia da Informação, apoio à pesquisa e inovação e iniciativas de inclusão digital em escolas públicas.

“Os empregos e a arrecadação são apenas uma parte dos benefícios”, afirma o secretário. Para ele, o principal efeito esperado é a formação de um ecossistema capaz de aproximar grandes empresas, universidades, centros de pesquisa, startups e fornecedores locais.

Data center ou indústria?

A discussão ganhou outra dimensão no Fórum Powershoring, realizado em 29 de julho pelo Consórcio Nordeste, Banco do Brasil e Instituto Clima e Sociedade (iCS).

Durante o evento, José Ricardo Sasseron, vice-presidente de Negócios de Governo e Sustentabilidade Empresarial do Banco do Brasil, defendeu que a industrialização verde do Nordeste não fique concentrada na instalação de data centers.

Segundo ele, esses empreendimentos consomem grandes quantidades de energia e água e geram relativamente poucos empregos. A avaliação é que parte da energia renovável seja direcionada também para atividades industriais capazes de gerar mais emprego e renda.

A Carta-Compromisso do Fórum estabeleceu a meta de contribuir para a atração de R$ 77 bilhões em investimentos em setores industriais intensivos em energia ligados à descarbonização entre 2027 e 2030.

Estudo apresentado pelo fórum estima que, em um cenário intermediário, a atração de US$ 30 bilhões em investimentos poderia elevar o PIB regional em cerca de 1,8%. No cenário mais otimista, com US$ 60 bilhões, o impacto estimado chegaria a 3,6% do PIB regional até 2035.

A questão, portanto, não é escolher entre data centers e indústria. O Nordeste poderá precisar de ambos e também de armazenamento, mobilidade elétrica,combustíveis renováveis e hidrogênio verde.

O que está em disputa

A região conseguiu construir uma das maiores bases de geração renovável do país. Agora surge uma nova etapa. O Nordeste consegue gerar, mas quanto dessa vantagem energética poderá ser transformado em desenvolvimento dentro do próprio território.

Para Reive, a resposta passa por aproximar geração e consumo e utilizar a energia como instrumento de atração de atividades econômicas. “É fundamental investimentos no Nordeste”, afirma.

Data centers, armazenamento de energia, veículos elétricos, hidrogênio verde e combustíveis renováveis aparecem entre as possibilidades. O desafio é fazer com que esses investimentos não apenas consumam a energia produzida na região, mas também criem cadeias produtivas, tecnologia, fornecedores e empregos qualificados.

O Ceará apresenta um exemplo concreto dessa tentativa. A estratégia desenhada pelo Estado combina grandes consumidores, geração renovável adicional, conectividade, formação profissional e atração de empresas de tecnologia.

A experiência também expõe os limites da equação: transmissão, conectividade e recursos hídricos passam a ser tão importantes quanto a própria disponibilidade de energia.

A resposta da EPE acrescenta outra dimensão. O Nordeste não precisa escolher entre consumir sua energia e exportá-la. A rede atual permite as duas funções. Mas a chegada de cargas de grande porte exige planejamento e novos investimentos em transmissão, sobretudo quando os projetos superam a escala tradicional de crescimento da demanda regional.

É o que já começa a ocorrer no Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte, onde a EPE identificou a necessidade de ampliar a infraestrutura para viabilizar novas cargas, com capacidade adicional de até 4 GW e investimentos estimados em R$ 5,68 bilhões.

O sistema elétrico continuará exigindo intercâmbio entre as regiões conforme as condições de geração e consumo. Exportar energia, portanto, não é necessariamente um problema.

A questão é quanto da vantagem energética nordestina será utilizada para produzir desenvolvimento dentro do próprio Nordeste. Ou seja, com a energia chegando em abundância, a pergunta começa a ser outra: quem vai consumi-la e o que o Nordeste conseguirá construir a partir dela?

 

Matéria publicada na edição 235 da revista NORDESTE

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