Com 43,5 milhões de eleitores, região volta a ocupar na eleição de 2026, disputas que podem ser decisivas em um cenário político menos previsível
Por Luciana Leão
Com quase 44 milhões de eleitores, o Nordeste chega às eleições de 2026 novamente no centro da disputa pelo voto. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a região concentra 27,42% do eleitorado brasileiro e mantém o segundo maior colégio eleitoral do país, atrás apenas do Sudeste. Mas, neste ano, o peso demográfico se combina a um mapa político menos previsível, com disputas estaduais que nem sempre reproduzem a polarização nacional e alianças que atravessam os campos ideológicos.
Desde 16 de agosto, candidatos já estão nas ruas e nas plataformas digitais em busca do voto, em uma eleição marcada por um ambiente de comunicação ainda mais complexo, no qual vídeos, áudios e imagens produzidos ou alterados por inteligência artificial podem ampliar o alcance e também a capacidade de manipulação do conteúdo político.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabeleceu regras específicas para o ambiente digital. Conteúdos sintéticos produzidos ou significativamente alterados por inteligência artificial precisam ser identificados de forma explícita. A regulamentação também proíbe o uso de conteúdos fabricados ou manipulados para disseminar fatos notoriamente inverídicos ou descontextualizados capazes de afetar o equilíbrio do pleito.
É nesse cenário que o Nordeste volta ao centro da disputa nacional.
Novo mapa
O novo mapa eleitoral divulgado pelo TSE mostra que a região reúne 43.529.845 eleitores, 27,42% do eleitorado brasileiro. Em relação a 2022, houve crescimento de 2,69%. O Nordeste continua sendo o segundo maior colégio eleitoral do país, atrás apenas do Sudeste.
Há ainda um dado demográfico que chama a atenção. A região concentra 1.315.104 eleitores de até 18 anos, o maior contingente entre as cinco regiões brasileiras. Eles representam 3,02% do eleitorado nordestino. No conjunto do país, essa faixa etária recuou 14,52% em relação a 2022.
O peso eleitoral ajuda a explicar a atenção que a região desperta entre os candidatos à Presidência. Desde 2002, o Nordeste constitui uma das principais bases eleitorais de Luiz Inácio Lula da Silva. Mas as eleições estaduais de 2026 mostram que a preferência pelo candidato à Presidência não se traduz automaticamente em domínio sobre os governos estaduais.
As convenções partidárias, encerradas em 5 de agosto, deixaram mais claro o mapa das candidaturas. O que se vê é um Nordeste politicamente diversificado, com disputas competitivas em alguns dos maiores colégios eleitorais, situações de maior conforto para candidatos à reeleição e alianças estaduais que nem sempre reproduzem a polarização da eleição presidencial.
Para o cientista político Hely Ferreira, essa diferença está relacionada à própria forma como o eleitor brasileiro escolhe seus candidatos. “O voto, como o voto do brasileiro, é muito mais personalista do que ideológico; o voto é na pessoa.”
Ferreira também relaciona a preferência histórica do Nordeste pelo PT às políticas públicas dos governos Lula. Segundo ele, a região passou a receber uma atenção maior do governo federal nos últimos anos, o que ajudou a consolidar essa identificação eleitoral. Mas, ressalta, a realidade estadual é diferente da nacional: o eleitor pode escolher um governador, deputado ou senador que não esteja alinhado ao governo federal sem que isso determine seu voto para presidente.
O eleitorado
São quase 44 milhões de eleitores distribuídos pelos nove estados, com estruturas partidárias próprias, lideranças regionais e diferentes relações com o governo federal. É esse eleitorado que estará no centro da corrida presidencial, mas também de disputas estaduais nas quais o voto pode seguir caminhos diferentes.
Há também uma mudança geracional nesse eleitorado. Para Hely Ferreira, o comportamento político não permanece estático e cada eleição incorpora novos eleitores, menos sujeitos às formas tradicionais de influência familiar.
“Já se foi o tempo em que os pais tinham certa ingerência em pedir, ou praticamente exigir, para que os filhos votassem nos candidatos que eles apoiam. Hoje isso praticamente não existe mais.”
A transformação também ocorre na forma de fazer campanha. As redes sociais ampliaram a quantidade de informação disponível ao eleitor, mas também a circulação de desinformação. Para Ferreira, esse ambiente será um dos desafios da eleição de 2026 e da própria Justiça Eleitoral.
“Não se sabe até que ponto a Justiça está preparada para coibir o popularmente chamado ‘fake news’. Agora, não adianta correr; ela vem para ficar. O que precisa é se aprender a conviver com ela.”
O cientista político avalia que o impacto das redes poderá ser decisivo. “A carga de informação é muito maior, e também de desinformação. (…) Todo esse cenário reflete muito o que as redes sociais retransmitem para o eleitor e poderá ser uma questão decisiva nas eleições. E o Nordeste não é uma ilha isolada; também está inserido nesse cenário.”
Diversidade política
Os nove estados nordestinos chegam à campanha com configurações diferentes. Bahia e Ceará apresentam disputas competitivas; Pernambuco combina peso eleitoral e forte simbolismo político; Maranhão permanece marcado pela disputa entre grupos locais; Piauí aparece como um dos cenários mais favoráveis à continuidade petista; o Rio Grande do Norte chega à campanha com um quadro ainda aberto; enquanto Paraíba, Alagoas e Sergipe mostram como as alianças estaduais podem se sobrepor à polarização nacional.
O resultado é um mapa político que não cabe em uma única legenda, nem em uma única leitura ideológica.
Confira abaixo como se apresenta as disputas estaduais pelos governos nos nove Estados
Alagoas: cenário redesenhado

Em Alagoas, a disputa pelo governo estadual tinha sido redesenhada, quando o ex- prefeito João Henrique Caldas (PSDB) havia anunciado sua desistência à sucessão de Paulo Dantas.
No entanto, JHC voltou atrás e confirmou no último dia 15 sua candidatura ao Governo de Alagoas. Após idas e vindas e pressões de aliados políticos, ele desistiu de concorrer ao Senado e formou chapa com Célia Rocha (vice).
JHC é o principal adversário de Renan Filho (MDB), ex-ministro de Transportes do atual governo Lula e candidato ao Governo alagoano.
Bahia: o maior colégio do Nordeste

Com 11.321.005 eleitores, a Bahia é o quarto maior colégio eleitoral do Brasil, atrás apenas de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. É também um dos principais campos de disputa do Nordeste.
O governador Jerônimo Rodrigues (PT) busca a reeleição contra o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil). A disputa chega à campanha oficial sem um quadro consolidado de favoritismo, mantendo a Bahia entre os estados mais estratégicos para os diferentes campos políticos nacionais.
O tamanho do eleitorado baiano faz com que a eleição estadual tenha importância que ultrapassa as fronteiras do estado. O resultado poderá influenciar a composição dos palanques e a mobilização das forças políticas na disputa presidencial.
Ceará: Ciro volta ao palco

No Ceará, a presença de Ciro Gomes transforma a sucessão estadual em uma das disputas mais observadas da região. Filiado ao PSDB, o ex-governador enfrenta o atual governador Elmano de Freitas (PT), que busca a reeleição.
Ciro chega à campanha em posição competitiva nos levantamentos realizados até aqui, enquanto Elmano aposta na estrutura do governo estadual e no campo político ligado ao presidente Lula.
A disputa também chama atenção pela possibilidade de reunir forças políticas com trajetórias nacionais distintas. O Ceará é um dos estados em que a eleição para governador pode ter reflexos sobre a formação dos palanques presidenciais.
Pernambuco: o voto não anda necessariamente junto

Em Pernambuco, a disputa reúne dois grupos políticos de forte presença regional. A governadora Raquel Lyra (PSD) busca a reeleição, enquanto João Campos (PSB), depois de deixar a Prefeitura do Recife, disputa o governo estadual.
O estado tem ainda um componente simbólico: é o local de nascimento de Lula e uma de suas principais bases eleitorais. Mas a eleição de 2022 deixou uma lição importante. Lula venceu a disputa presidencial em Pernambuco, enquanto os candidatos que apoiou para o governo estadual não chegaram ao Palácio do Campo das Princesas.
Para Hely Ferreira, o episódio mostra que a transferência de votos de um padrinho político não é automática.
“O candidato que ele apoiou na eleição passada pelo governo do estado sequer foi ao segundo turno. E, no segundo turno, a candidata que ele apoiou perdeu a eleição. Lula seria um vitorioso derrotado.”
O cientista político ressalta que o apoio presidencial pode pesar na escolha do eleitor, mas não é suficiente, isoladamente, para determinar o resultado de uma eleição estadual.
Maranhão: forças locais em confronto

No Maranhão, o prefeito de São Luís, Eduardo Braide (PSD), chega à disputa como um dos principais nomes contra Orleans Brandão (MDB), candidato apoiado pelo governador Carlos Brandão.
A sucessão envolve estruturas políticas locais e uma disputa que não se resume à polarização nacional. A avaliação do governo estadual, a força política da Prefeitura de São Luís e as alianças construídas pelos candidatos terão papel importante na campanha.
O Maranhão é mais um exemplo de como o mapa político nordestino não pode ser interpretado apenas a partir da divisão entre lulismo e bolsonarismo.
Piauí: continuidade com vantagem política

No Piauí, o governador Rafael Fonteles (PT) chega à campanha em uma posição mais confortável do que seus adversários nos demais estados de maior peso eleitoral.
Os levantamentos realizados ao longo do ano indicam vantagem ampla do governador sobre seus principais concorrentes, mantendo o Piauí como um dos cenários mais favoráveis à continuidade de um governo petista na região.
A situação do estado contrasta com as disputas mais abertas da Bahia, Ceará, Pernambuco e Maranhão.
Rio Grande do Norte: cenário reconfigurado

O Rio Grande do Norte apresentou uma das alterações mais significativas do quadro eleitoral ao longo do ano.
Cadu Xavier (PT), apoiado pela governadora Fátima Bezerra, passou a aparecer em posição favorável em um levantamento recente, depois de um primeiro semestre em que ocupava posição menos competitiva.
Outros levantamentos, porém, apresentaram cenários diferentes, com o candidato a governador Allyson Bezerra (União Brasil) aparecendo na liderança e empatado tecnicamente com Álvaro Dias (PL).
A divergência recomenda cautela. O que se pode afirmar é que o estado chega à campanha com uma disputa aberta e sem um cenário consolidado.
Paraíba: vários palanques no mesmo campo

A Paraíba acrescenta outro elemento ao mapa nordestino: a multiplicidade de alianças.
Com o governador João Azevêdo (PSB) fora da disputa pelo Executivo e candidato ao Senado, seu vice, Lucas Ribeiro (PP), foi lançado para a sucessão. Cícero Lucena (MDB) e Efraim Filho (PL) também tiveram suas candidaturas oficializadas.
A configuração dos palanques presidenciais é particularmente reveladora. Lucas Ribeiro está alinhado a Lula, enquanto Efraim Filho representa o campo bolsonarista. Cícero Lucena, por sua vez, constrói uma candidatura estadual com dinâmica própria.
Na Paraíba, as alianças mostram com clareza que a eleição presidencial e as disputas pelos governos estaduais podem seguir caminhos diferentes.
Sergipe: a força das alianças

Em Sergipe, o governador Fábio Mitidieri (PSD) busca a reeleição diante de Valmir de Francisquinho.
Mitidieri é aliado do governo Lula, embora pertença a um partido de centro. O caso representa uma das estratégias que se repetem em diferentes estados nordestinos: a construção de alianças com governadores e candidatos de outras legendas, sem necessariamente lançar um nome petista ao governo.
Esse modelo amplia o campo político do governo federal e mostra que a influência de Lula no Nordeste não depende exclusivamente da presença do PT nas chapas estaduais.

