Com uma carteira de cerca de 50 projetos, região busca cooperação, tecnologia e financiamento para ampliar experiências de convivência com a seca e restauração da Caatinga
Por Luciana Leão
Os nove estados representados pelo Consórcio Nordeste ampliam sua participação no debate internacional sobre desertificação levando experiências desenvolvidas no Semiárido brasileiro e buscando parcerias para dar escala a soluções de convivência com a seca, restauração da Caatinga e adaptação às mudanças climáticas.
Em entrevista exclusiva à Revista NORDESTE, o secretário- executivo do Consórcio Nordeste, Carlos Gabas, antecipou algumas das propostas e projetos apresentados durante a COP17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), na Mongólia, e na missão à China, entre os dias 24 de agosto e 4 de setembro.
A estratégia parte de uma mudança de perspectiva sobre o Semiárido. Em vez de apresentar a região apenas pelos desafios impostos pela escassez hídrica e pela degradação da terra, o Consórcio procurou mostrar experiências que podem ser sistematizadas e adaptadas a outros territórios com características semelhantes.
É o que Gabas define como transformar o Nordeste em um “laboratório global” para regiões semiáridas. “Significa deixar de tratar as soluções do semiárido como respostas locais a um problema local e passar a tratá-las como conhecimento testado, documentado e transferível”, afirma.
Para ele, a palavra laboratório pressupõe conhecer não apenas o resultado de uma experiência, mas também as condições que permitam sua aplicação. “Um laboratório é o lugar onde se sabe por que funciona, em que condições, a que custo e com quais limites.”
Soluções que despertam interesse
Essa experiência acumulada já chama atenção internacional. As tecnologias sociais de convivência com o Semiárido estão entre as que mais mobilizam interesse, segundo Gabas, porque combinam baixo custo, apropriação comunitária e resultados verificáveis.
Ele cita cisternas, barragens subterrâneas, sistemas de reúso, poços solares e dessalinização descentralizada. São soluções que, nas palavras do secretário- executivo, respondem a uma questão comum a outras regiões semiáridas: “como atender populações dispersas em territórios de infraestrutura escassa”.
O interesse não se limita à segurança hídrica. No campo produtivo, Gabas destaca experiências de recaatingamento e manejo sustentável da Caatinga, programas de fortalecimento da agricultura familiar, como o Sertão Vivo e o Terra Plantar, em Pernambuco, e arranjos cooperativos como a Cooperativa Pindorama, em Alagoas.
Também há experiências menos associadas ao debate ambiental que despertam atenção, como bancos comunitários e moedas sociais. Para Gabas, elas mostram como é possível fazer circular renda em territórios de baixa densidade econômica.
No campo das políticas públicas, o interesse está também no desenho institucional. O modelo do Consórcio Nordeste permite aos nove estados planejar, priorizar e captar recursos de forma coordenada.
Instrumentos como o Fundo Caatinga e os mecanismos estaduais de pagamento por serviços ambientais entram nessa arquitetura por criarem maior previsibilidade para iniciativas que antes dependiam de ciclos políticos.
De experiências a projetos
A intenção é que esse conjunto de experiências não permaneça restrito a iniciativas isoladas. O Plano Brasil Nordeste de Transformação Ecológica reúne cerca de 50 projetos dos nove estados, distribuídos em seis eixos: finanças sustentáveis, adensamento tecnológico, bioeconomia, transição energética, economia circular e adaptação climática. A carteira reúne iniciativas em diferentes estágios de maturidade.
Entre os grupos considerados mais próximos do financiamento internacional estão projetos de segurança hídrica, como dessalinização, poços solares, reúso e conservação de mananciais; iniciativas de transição energética e industrialização de baixo carbono, incluindo hidrogênio verde e combustíveis renováveis; e projetos de restauração e bioeconomia da Caatinga, com recaatingamento, viveiros e cadeias produtivas da agricultura familiar.
É aí que a agenda internacional ganha uma dimensão prática. O objetivo das missões, explica Gabas, não é anunciar uma cifra de recursos a ser captada, mas aproximar a carteira dos organismos que podem financiar sua implantação.
“O objetivo das missões não é anunciar uma cifra, e sim estruturar um funil de financiamento”, afirma. A intenção é transformar os projetos em conversas técnicas concretas com instituições que financiam adaptação e restauração.
Parcerias além da COP
A cooperação internacional entra como parte dessa estratégia. O Memorando de Entendimento assinado com a UNCCD estabelece uma relação institucional voltada ao Semiárido e amplia a interlocução do Nordeste com a agenda global de combate à desertificação.
A China acrescenta outra frente, combinando financiamento, tecnologia e intercâmbio de experiências. Gabas aponta a capacidade chinesa nas cadeias de energias renováveis, armazenamento e eletrólise, além da experiência acumulada na recuperação de terras degradadas. O Deserto de Kubuqi é uma das referências desse processo.
Mas a aproximação não significa importar modelos prontos. Gabas ressalta que a experiência chinesa precisa ser “criticamente avaliada à luz das características do bioma e das comunidades que vivem no Semiárido brasileiro”.
A mesma lógica vale para as experiências nordestinas que despertam interesse fora do país. Para o Consórcio, replicar não significa reproduzir uma solução de forma automática, mas entender seus resultados, custos, condições de aplicação e limites.
Essa preocupação ajuda a explicar a importância que Gabas atribui à governança. Ao reunir os nove estados em torno de uma agenda comum, o Consórcio procura dar escala às experiências e fortalecer a capacidade regional de planejar, executar e financiar projetos. “Tecnologia sem instituição não se sustenta”, resume.
A internacionalização, assim, tem duas mãos: o Nordeste apresenta experiências que podem interessar a outras regiões semiáridas e, ao mesmo tempo, procura conhecimento, tecnologia, cooperação e capital para ampliar suas próprias soluções. A aposta é transformar o conhecimento acumulado no Semiárido em projetos estruturados e capazes de encontrar financiamento e, quando fizer sentido, serem adaptados a outras realidades.

