Professor Doutor e fundador do laboratório NUTES, de Campina Grande/PB decifra com detalhes os avanços na indústria da saúde reduzindo custos e ampliando eficiência pública
Por Walter Santos
A sociedade brasileira convive de poucos tempos para cá com avanços comprovados em face de iniciativas de vanguarda na ciência e tecnologia, a partir de universidades e instituições como o NUTES, da UEPB, levando de Campina Grande para o mundo inovações como as UTIS Inteligentes como vanguarda. O professor doutor Misael de Morais expõe inúmeros avanços em curso.
Revista NORDESTE – Ao longo do tempo, como tem se processado os entendimentos entre o Laboratório NUTES e o Ministério da Saúde para implantação das UTIs Inteligentes e/ou outros serviços de vanguarda para usufruto público e popular?
Professor Doutor Misael de Morais – Os entendimentos entre o NUTES/UEPB e o Ministério da Saúde vêm sendo conduzidos de forma bastante positiva, envolvendo aspectos institucionais, técnicos e operacionais. O Ministério reconheceu a experiência do NUTES no desenvolvimento de dispositivos médicos, sistemas de monitoramento, interoperabilidade e integração de tecnologias aplicadas à saúde.
NORDESTE – Mas no caso específico das UTIs Inteligentes?
Misael de Morais – A proposta das UTIs Inteligentes tem como objetivo criar um ambiente integrado, no qual monitores, ventiladores pulmonares, bombas de infusão e outros dispositivos possam compartilhar informações de maneira segura, permitindo o acompanhamento contínuo dos pacientes e apoiando as equipes médicas e assistenciais na tomada de decisões. Nesse processo, o NUTES contribui principalmente com a arquitetura tecnológica, a integração dos equipamentos, a comunicação com os sistemas hospitalares, a interoperabilidade dos dados e o desenvolvimento da plataforma de monitoramento.
NORDESTE – Como inserir nesse processo o componente da segurança da informação?
Misael de Morais – Também estão sendo considerados requisitos de segurança da informação, rastreabilidade, confiabilidade e conformidade com as normas aplicáveis aos dispositivos médicos. Os trabalhos estão sendo articulados com o Ministério da Saúde e com instituições hospitalares de referência, incluindo o Instituto do Coração — InCor. Iniciamos a implantação em unidades estratégicas, realizar a validação da solução em ambiente hospitalar e, posteriormente, será ampliado o modelo para outras UTIs e hospitais do Sistema Único de Saúde.
NORDESTE – Como dimensionar essa imensa articulação com resultados positivos?
Misael de Morais – Trata-se de um projeto de grande relevância nacional, pois poderá melhorar a eficiência das unidades intensivas, facilitar a atuação das equipes de saúde, reduzir riscos assistenciais e ampliar a capacidade de monitoramento dos pacientes. Para isso, a UEPB e para o NUTES, é também importante admitir o reconhecimento de uma trajetória construída com pesquisa, inovação e desenvolvimento tecnológico voltados para as necessidades do SUS.
NORDESTE – Como explicar a aplicação efetiva e eficaz desse serviço para atender as demandas da população brasileira?
Misael de Morais – A aplicação efetiva e eficaz das UTIs Inteligentes depende de transformar tecnologia em melhoria concreta no atendimento ao paciente. Não se trata apenas de colocar novos equipamentos dentro dos hospitais, mas de integrar monitores, ventiladores pulmonares, bombas de infusão, prontuários eletrônicos e sistemas de apoio à decisão em uma única plataforma segura e interoperável.
NORDESTE – Que dados reais a se monitorar?
Misael de Morais – Na prática, os dados clínicos do paciente poderão ser acompanhados continuamente e apresentados de forma organizada às equipes assistenciais. Isso permitirá identificar alterações importantes mais rapidamente, emitir alertas, reduzir falhas de comunicação e oferecer informações mais completas para médicos, enfermeiros e demais profissionais envolvidos no cuidado.
Outro aspecto fundamental é a possibilidade de acompanhamento remoto por equipes especializadas. Hospitais localizados em regiões com menor disponibilidade de profissionais intensivistas poderão receber apoio técnico de centros de referência, ampliando a capacidade de atendimento do SUS e reduzindo desigualdades entre as diferentes regiões do país.
NORDESTE – Em que estágio estamos da implementação efetiva?
Misael de Morais – A implantação já se iniciou, mas continuará de maneira progressiva. Inicialmente, a solução está sendo aplicada e validada em hospitais de referência, com acompanhamento de indicadores como segurança do paciente, tempo de resposta da equipe, redução de eventos adversos, disponibilidade dos equipamentos e eficiência do atendimento. Após essa validação, o modelo deverá ser ajustado e expandido para outras unidades hospitalares. Também será indispensável investir na capacitação dos profissionais de saúde, porque nenhuma tecnologia produz bons resultados sem pessoas preparadas para utilizá-la.
NORDESTE – Como conviver com alta complexidade e situação normal?
Misael de Morais – O sistema deverá ser simples, confiável e incorporado à rotina assistencial, sem aumentar desnecessariamente a carga de trabalho das equipes. Portanto, a eficácia desse serviço será medida pela sua capacidade de salvar vidas, apoiar os profissionais, ampliar o acesso à assistência especializada e utilizar melhor os recursos públicos. O propósito é fazer com que a inovação chegue à população brasileira como um serviço real, seguro e integrado ao Sistema Único de Saúde.
NORDESTE – Onde estão previstos os primeiros ambientes (cidades/estados) no País?

Misael de Morais – Os primeiros ambientes foram definidos pelo Ministério da Saúde dentro de uma estratégia de abrangência nacional. A previsão é implantar 6 UTIs Inteligentes, interligadas em rede, distribuídas por 6 estados e contemplando as cinco regiões do País.
As cidades inicialmente indicadas são Manaus, no Amazonas; Recife (PE), Manaus (AM), Brasília – DF, Belo Horizonte (MG), Porto Alegre (RS) e Rio de Janeiro (RJ) A implantação começou pelo Rio de Janeiro, no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro; Hospital Dephina Rinaldi Abel Aziz em Manaus; Hospital Universitário de Brasília; Hospital das Clínicas da UFMG; Hospital Nossa Senhora da Conceição em Belo Horizonte; e Hospital Nossa Senhora da Conceição – Porto Alegre.
Em São Paulo, também está prevista a construção do Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente, que funcionará como uma estrutura de referência e estará conectado às UTIs Inteligentes distribuídas pelo País.
NORDESTE – Por que esses locais?
Misael de Morais – A escolha desses locais busca contemplar diferentes realidades regionais, permitir a validação da tecnologia em hospitais de referência e formar uma rede nacional capaz de compartilhar informações, conhecimentos e suporte especializado.
É importante destacar que a definição do cronograma, dos hospitais participantes e das etapas de implantação é conduzida pelo Ministério da Saúde em articulação com os gestores estaduais, municipais e as instituições hospitalares. O NUTES participa principalmente na dimensão tecnológica, trabalhando na integração dos equipamentos, na interoperabilidade dos dados e na construção das soluções necessárias ao funcionamento seguro e eficiente dessa rede.
NORDESTE – Objetivamente, qual o grande valor agregado nesse serviço de vanguarda capaz de resolver o atendimento da população com redução de custo?
Misael de Morais – O grande valor agregado das UTIs Inteligentes é utilizar tecnologia para ampliar a qualidade do atendimento, aumentar a segurança do paciente e aproveitar melhor os recursos já existentes no sistema de saúde. Hoje, muitos equipamentos hospitalares funcionam de forma isolada. Com a UTI Inteligente, monitores, ventiladores, bombas de infusão, prontuários eletrônicos e sistemas clínicos passam a compartilhar informações em uma plataforma integrada. Isso permite identificar alterações no estado do paciente com maior rapidez, gerar alertas e oferecer à equipe assistencial uma visão mais completa para a tomada de decisão.
NORDESTE – Quais efeitos junto aos especialistas, por exemplo?
Misael de Morais – Essa integração também possibilita o acompanhamento remoto por especialistas de centros de referência. Assim, uma equipe localizada em um grande hospital poderá apoiar profissionais que trabalham em regiões com menor disponibilidade de intensivistas, reduzindo transferências desnecessárias e ampliando o acesso da população à assistência especializada. A redução de custos ocorre principalmente pela diminuição de eventos adversos, pelo uso mais eficiente dos leitos, dos equipamentos e das equipes, pela redução do tempo de internação e pela prevenção de complicações que exigiriam tratamentos mais caros.
NORDESTE – Que efeitos além da conexão de dados?
Misael de Morais – Não se trata apenas de adquirir equipamentos sofisticados. O diferencial está em integrar tecnologia, informação e conhecimento médico. Isso permite atender mais pessoas, com maior segurança, rapidez e eficiência, utilizando melhor cada recurso público investido na saúde.
NORDESTE – Quais serviços o NUTES tem apresentado ao Brasil e ao Mundo como referência de vanguarda? Podes citar alguns exemplos?
Misael de Morais – O NUTES tem apresentado ao Brasil e ao mundo um modelo diferenciado de pesquisa, desenvolvimento e inovação voltado para a solução de problemas reais da saúde, permitindo que estas soluções cheguem à população. Nossa atuação não se limita à produção acadêmica. Desenvolvemos tecnologias que podem ser transferidas para empresas, incorporadas ao Sistema Único de Saúde e utilizadas diretamente no atendimento à população.
NORDESTE – Como a experiência do núcleo está inserida no desenvolvimento de estratégias eficazes?
Misael de Morais – Um dos principais exemplos é a participação do NUTES em iniciativas estratégicas do Governo Federal para o fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Por meio dos programas conduzidos pelo Ministério da Saúde, o NUTES participa do desenvolvimento de tecnologias consideradas prioritárias para o País, contribuindo para reduzir a dependência brasileira de equipamentos e soluções importadas.
Nesse contexto, o NUTES teve projetos aprovados no Programa de Desenvolvimento e Inovação Local do Ministério da Saúde, o PDIL, que integra a política de fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. São projetos destinados ao desenvolvimento de tecnologias nacionais, com potencial de produção industrial, incorporação ao SUS e geração de emprego, conhecimento e capacidade tecnológica no Brasil.
NORDESTE – O que mais?
Misael de Morais – Outro exemplo importante é o desenvolvimento de dispositivos médicos e sistemas de monitoramento de pacientes. Trabalhamos com monitores multiparamétricos, centrais de monitoramento, sensores, equipamentos para unidades de terapia intensiva e plataformas capazes de receber, processar e integrar informações produzidas por diferentes equipamentos hospitalares.
O NUTES também desenvolveu sistemas que vêm sendo utilizados pelo Governo do Estado da Paraíba. Entre eles está o RegNUTES, além de outras plataformas voltadas à regulação, gestão, acompanhamento de serviços e organização de informações na área da saúde. Esses sistemas demonstram que a universidade pública pode desenvolver soluções tecnológicas de grande escala e colocá-las efetivamente a serviço da administração pública e da população.
NORDESTE – E a questão da interoperabilidade?
Misael de Morais – Outro destaque é o trabalho de interoperabilidade em saúde. Desenvolvemos soluções para que monitores, ventiladores pulmonares, bombas de infusão, prontuários eletrônicos e sistemas hospitalares possam trocar informações de forma padronizada e segura. Essa competência é fundamental para projetos como as UTIs Inteligentes, a TeleUTI e os futuros hospitais inteligentes.
Também atuamos no desenvolvimento de sistemas de apoio à decisão clínica, inteligência artificial, telemonitoramento e acompanhamento remoto de pacientes. Essas tecnologias permitem que especialistas localizados em centros de referência apoiem equipes que trabalham em hospitais mais distantes, contribuindo para reduzir desigualdades regionais no acesso à assistência especializada.
Na área industrial da saúde, o NUTES desenvolve equipamentos e processos de automação, rastreabilidade e controle de qualidade para empresas fabricantes de produtos médicos e hospitalares. Podemos citar sistemas de visão computacional para inspeção de frascos, embalagens e componentes, além de soluções destinadas a aumentar a segurança, a produtividade e a qualidade dos processos de fabricação.
NORDESTE – Quais os diálogos dos senhores e da instituição com a abrangencia global?

Misael de Morais – O NUTES também mantém cooperações internacionais com universidades, institutos de pesquisa e empresas. Um exemplo é o desenvolvimento de soluções na área de stents e outros dispositivos médicos em parceria com empresas e instituições da Alemanha. Essas cooperações permitem reunir a capacidade científica e tecnológica do NUTES com a experiência industrial de parceiros internacionais, criando produtos com potencial para atender tanto ao mercado brasileiro quanto ao exterior.
Mantemos ainda colaborações com instituições da Alemanha, da Suécia, de Portugal e de outros países, envolvendo engenharia biomédica, processamento de sinais, instrumentação, inteligência artificial, sistemas embarcados e desenvolvimento de dispositivos médicos. O NUTES se diferencia também por sua capacidade de conduzir todo o ciclo de desenvolvimento de um produto. Esse processo começa com a identificação de uma necessidade clínica e segue com a elaboração do projeto, o desenvolvimento de hardware e software, a construção de protótipos, os ensaios, a documentação técnica, a gestão de riscos, a validação e o apoio à transferência da tecnologia para empresas.
Essa atuação é sustentada por uma infraestrutura de aproximadamente 5 mil metros quadrados, mais de 200 colaboradores e um sistema de qualidade alinhado às exigências aplicáveis aos dispositivos médicos. O NUTES possui condições para trabalhar desde a pesquisa inicial até a preparação de uma tecnologia para produção industrial e utilização nos serviços de saúde.
Portanto, a principal referência de vanguarda apresentada pelo NUTES é sua capacidade de transformar conhecimento científico em tecnologia aplicada. São soluções desenvolvidas no ambiente de uma universidade pública, mas que chegam ao Governo, às empresas, aos hospitais, ao SUS e, principalmente, à população brasileira. Conheça, a seguir, a Lei federal reforçando a saúde pública com ciência e tecnologia abrigando a indústria nacional A sanção da Lei originada do Projeto de Lei nº 2.583/2020 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto, em Brasília, representa um momento histórico para a saúde pública, a ciência, a tecnologia e a indústria nacional.
Ao instituir a Estratégia Nacional para o fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS), o Brasil estabelece uma política de Estado voltada à construção de maior autonomia tecnológica, fortalecimento da produção nacional e ampliação da capacidade de resposta do Sistema Único de Saúde (SUS).
A pandemia da COVID-19 evidenciou de forma incontestável a vulnerabilidade dos países excessivamente dependentes de cadeias globais de suprimentos para medicamentos, vacinas, equipamentos médicos, insumos estratégicos e tecnologias críticas.
A nova lei surge como resposta a esse desafio, transformando em política permanente a integração entre saúde, ciência, inovação e desenvolvimento industrial. Mais do que incentivar a fabricação nacional de produtos para a saúde, a nova legislação cria mecanismos para estimular a pesquisa científica, o desenvolvimento tecnológico, a transferência de tecnologia, a produção local e a incorporação de soluções inovadoras ao SUS. Trata-se de uma visão moderna, na qual a saúde deixa de ser compreendida apenas como uma política assistencial e passa também a ser reconhecida como um importante vetor de desenvolvimento econômico, geração de empregos qualificados e fortalecimento da soberania nacional.
Entre os avanços mais relevantes da lei destaca-se o reconhecimento das Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação (ICTs) como atores fundamentais na construção desse novo ecossistema. Universidades, centros de pesquisa e instituições de inovação passam a ocupar posição estratégica no desenvolvimento de tecnologias nacionais, atuando em parceria com empresas e com o poder público.
Outro aspecto de grande relevância é a valorização das tecnologias digitais em saúde, dos dispositivos médicos, dos equipamentos hospitalares, da inteligência artificial, dos sistemas de informação, da interoperabilidade e das soluções de engenharia biomédica.
O conceito de Produto Estratégico de Saúde passa a abranger não apenas medicamentos, mas também equipamentos, softwares, componentes tecnológicos e serviços especializados, refletindo a transformação digital pela qual passa a assistência à saúde. A lei também fortalece instrumentos como as Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs), os Programas de Desenvolvimento e Inovação Local (PDILs) e as Encomendas Tecnológicas em Saúde, criando um ambiente mais favorável para que projetos inovadores avancem desde a pesquisa até a produção industrial e sua efetiva utilização pelo SUS.
Para instituições como o NUTES da Universidade Estadual da Paraíba, essa nova legislação abre perspectivas extremamente promissoras. A experiência acumulada no desenvolvimento de dispositivos médicos, tecnologias para hospitais inteligentes, sistemas de monitoramento, interoperabilidade em saúde, inteligência artificial e engenharia biomédica posiciona o NUTES como um importante parceiro na implementação dessa política nacional.
Da mesma forma, as Fundações de Apoio à Pesquisa, como a FITE-Fundação de Instituto de Tecnologias Estratégicas e o Parque Tecnologico da PB podem desempenhar papel relevante na gestão dos projetos de pesquisa, inovação e transferência tecnológica decorrentes desse novo ambiente institucional. A sanção desta lei representa, portanto, muito mais do que a aprovação de um novo marco legal. Ela simboliza o compromisso do Estado brasileiro com a construção de uma política de longo prazo capaz de aproximar universidades, centros de pesquisa, empresas, governo e sistema de saúde em torno de um objetivo comum: desenvolver tecnologias nacionais, reduzir a dependência externa, fortalecer o SUS e ampliar a capacidade de inovação do país.
O sucesso dessa iniciativa dependerá, naturalmente, de uma regulamentação eficiente, de investimentos contínuos em pesquisa e desenvolvimento e da participação ativa das instituições de ciência, tecnologia e inovação. Entretanto, o caminho agora está traçado. O Brasil passa a contar com um importante instrumento para consolidar um complexo econômico-industrial da saúde mais robusto, competitivo e comprometido com a melhoria da qualidade de vida da população brasileira.

