Novo sistema coloca o Brasil entre os protagonistas da evolução da televisão digital, amplia o papel da TV aberta na era da inteligência artificial e abre oportunidades para uma nova cadeia de inovação. Para o professor pós-doutor Guido Lemos, da UFPB, o Nordeste já ocupa posição relevante e “quem se posicionar agora captura a cadeia de valor pelas próximas décadas”
Por Luciana Leão
O lançamento da TV 3.0 representa uma mudança de posição do Brasil no desenvolvimento da televisão digital. Se, na implantação da TV Digital, em 2007, o país partiu de um padrão internacional e incorporou tecnologias próprias, agora participou da definição da arquitetura do novo sistema, reunindo soluções desenvolvidas em diferentes partes do mundo e agregando inovações concebidas por pesquisadores brasileiros.
“O Brasil deixou de ser importador de padrões para se tornar formulador”, resume o professor Guido Lemos, secretário de Ciência e Tecnologia de João Pessoa, professor titular da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e fundador do Laboratório de Aplicações em Vídeo Digital (LAVID).
Na entrevista a seguir, ele explica por que a televisão deixa de ser orientada por canais e passa a funcionar como uma plataforma de aplicações, como a inteligência artificial passa a integrar o sistema, quais oportunidades econômicas surgem com a nova tecnologia e por que o Nordeste reúne condições para participar desse novo ciclo.
Revista NORDESTE: Professor, costuma-se dizer que o Brasil é hoje uma referência mundial em TV 3.0. Em que aspectos o país deixou de apenas adotar tecnologia estrangeira para passar a influenciar a evolução da televisão digital?
Guido Lemos: O Brasil deixou de ser importador de padrões para se tornar formulador. Quando implantamos a TV digital, em 2007, partimos de uma base japonesa, mas já com uma contribuição própria decisiva: o middleware Ginga, desenvolvido por universidades brasileiras, entre elas a UFPB, por meio do LAVID, e a PUC-Rio. O Ginga se tornou padrão internacional da ITU, o organismo das Nações Unidas para telecomunicações, foi adotado por quase toda a América Latina e hoje está presente em mais de 200 milhões de receptores de TV. Foi a primeira vez que uma tecnologia de televisão concebida no hemisfério sul ganhou essa escala. Na TV 3.0, invertemos completamente a lógica.
Em vez de escolher um padrão pronto, o Fórum SBTVD definiu requisitos a partir das necessidades brasileiras, como acessibilidade, alcance universal, alertas de emergência e integração com a internet, e promoveu uma competição internacional: as melhores tecnologias do mundo em codificação de vídeo, áudio e transmissão foram testadas por laboratórios brasileiros e integradas em um sistema único. E, desta vez, não nos limitamos a integrar tecnologias; nós as aperfeiçoamos.
Partimos da base do ATSC 3.0, o padrão americano de nova geração, mas mudamos o sistema de modulação para MIMO, que utiliza múltiplas antenas visando permitir a recepção com antena embutida no próprio receptor de TV, dispensando a antena externa. Mudamos também o paradigma do sistema: a televisão deixa de ser orientada a canais e passa a ser orientada a aplicações das emissoras, com o software ganhando muito mais protagonismo na arquitetura. Incluímos nos alertas de emergência a possibilidade de envio e execução de aplicações, agregando inteligência ao sistema: um alerta pode trazer mapas, rotas de evacuação e orientações interativas, e não apenas um aviso na tela.
E incorporamos o suporte à Língua de Sinais na própria tecnologia, algo inédito em padrões de televisão no mundo. O resultado é que o Brasil foi o primeiro país das Américas a colocar essa nova geração no ar, em junho de 2026, e hoje delegações estrangeiras vêm aqui para entender como fizemos. Não é exagero dizer que a televisão do futuro está sendo desenhada, em boa parte, no Brasil.
Nordeste: O senhor sempre defendeu a descentralização da inovação. A TV 3.0 pode criar um novo ciclo de desenvolvimento tecnológico fora do eixo Rio-São Paulo? O Nordeste pode ocupar um papel relevante nessa cadeia?
Guido Lemos: Pode, e já contribui significativamente. A TV digital brasileira é talvez um dos melhores exemplos de política de ciência e tecnologia construída de forma descentralizada: desde o início, o desenvolvimento foi distribuído por uma rede de universidades em diferentes regiões do país, e o Nordeste ofereceu contribuições relevantes a esse processo. Na Paraíba, o LAVID/UFPB participou da criação do Ginga, desenvolveu o VLibras, que traduz automaticamente conteúdos em português para Libras e realiza bilhões de traduções por ano, e colaborou na elaboração de soluções e normas de acessibilidade, incluindo a janela de Libras e o sistema de alertas de emergência.
Na TV 3.0, essa contribuição continua. A UFPB atua com a UFJF, a UFF, a UnB e o Mackenzie em um projeto de pesquisa apoiado pela RNP, voltado ao aperfeiçoamento do sistema e, neste ano, ao desenvolvimento da suíte de testes necessária à certificação da qualidade dos receptores fabricados no Brasil. Além disso, João Pessoa está estruturando, na TV Cidade, um testbed para alertas de emergência, com recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em conexão com a plataforma João Pessoa Alerta.
A proposta é validar, em ambiente real, a integração entre monitoramento de riscos climáticos, Defesa Civil, comunicação pública e transmissão televisiva, permitindo testar mapas, orientações, rotas de evacuação e outras aplicações interativas. Esses exemplos mostram que, com investimento continuado, o Nordeste pode contribuir significativamente para o ciclo da TV 3.0, abrindo oportunidades em software, testes, certificação, acessibilidade, conteúdo e novos serviços digitais.
Nordeste: Além da melhor qualidade de imagem, qual é a principal transformação econômica da TV 3.0? Estamos falando apenas de televisão ou de uma nova plataforma de serviços digitais?
Guido Lemos: Estamos falando de uma nova plataforma de serviços digitais de alcance universal. A qualidade de imagem é apenas a parte mais visível. Na TV 3.0, os canais se tornam aplicativos, e isso muda a economia do setor: abre-se um mercado de desenvolvimento de aplicações para televisão, de publicidade endereçável, em que o anúncio pode ser diferente em cada casa, de comércio integrado à programação e de conteúdo sob demanda oferecido pelas próprias emissoras, sem intermediários globais.
Mas o aspecto que considero mais transformador é o uso da TV como infraestrutura pública digital. A televisão aberta chega onde a banda larga ainda não chega, e com a TV 3.0 ela passa a ser também uma porta de acesso à cidadania: serviços do gov.br e do SUS Digital já estão confirmados na interface da nova TV.
Imagine marcar uma consulta, receber um alerta da Defesa Civil personalizado para o seu bairro ou acessar conteúdo educacional pela mesma tela que transmite o telejornal, gratuitamente. Há ainda toda a cadeia industrial: fabricação de conversores e receptores no Brasil, produção audiovisual em novas linguagens interativas, análise de dados de audiência. É um ecossistema econômico inteiro nascendo.
Nordeste: Num cenário dominado por plataformas globais de streaming e inteligência artificial, a TV aberta ainda pode competir? A TV 3.0 é uma resposta brasileira a essa disputa?
Guido Lemos: Não só pode competir como tem vantagens que nenhuma plataforma global consegue replicar. A TV aberta brasileira tem alcance universal, é gratuita, produz conteúdo local e regional em escala e tem uma relação de confiança com o público construída ao longo de décadas.
E o broadcast tem uma superioridade técnica que ficou evidente na Copa do Mundo: para eventos ao vivo assistidos por milhões de pessoas simultaneamente, a transmissão pelo ar é imbatível. Quem assistiu aos jogos pela TV 3.0 viu o lance antes do vizinho que assistia por streaming, com imagem 4K e som imersivo. A TV 3.0 é, sim, uma resposta brasileira, mas uma resposta inteligente, que não tenta imitar o streaming, e sim combinar os dois mundos. O sinal gratuito da antena se soma à internet para oferecer personalização, conteúdo sob demanda e interatividade.
Um exemplo concreto dessa nova arquitetura é a MaisBR, a plataforma comum oficial da DTV+, concebida como agregador de serviços públicos e canais estatais e integrada diretamente à interface da televisão aberta e gratuita. Operada pela EBC, a plataforma permitirá acesso contínuo a emissoras públicas federais, como a TV Brasil, o Canal Gov e a TV Justiça, inclusive por meio da conexão com a internet, e prevê a futura integração de canais públicos estaduais e municipais de acordo com a localização do receptor.
Há, portanto, uma dimensão de soberania que não pode ser ignorada: trata-se de um sistema definido por normas brasileiras, governado por instituições brasileiras e orientado por prioridades nacionais, como acessibilidade, alertas de emergência e acesso a serviços públicos. Num mundo em que a mídia é cada vez mais controlada por poucas plataformas globais, manter uma infraestrutura nacional, aberta, gratuita e voltada à cidadania é uma decisão estratégica.
Nordeste: Então, a Copa do Mundo foi a primeira grande demonstração pública do potencial da TV 3.0. O que já foi possível mostrar durante o torneio?
Guido Lemos: Na copa já tínhamos tv 3.0 funcionando no Rio, São Paulo e Brasília, nessas cidades quem tinha receptor conseguiu assistir vídeo 4K com baixo tempo de transmissão. Ou seja, sem delay… Imagem 4k, podendo chegar a 8K se os receptores tiverem capacidade para decodificar. Podemos chegar a uma capacidade de até 60 Mbps por canal.
Nordeste: A inteligência artificial começa a transformar toda a indústria de mídia. Como ela deve se integrar à TV 3.0 nos próximos anos?
Guido Lemos: A inteligência artificial já está no projeto da TV 3.0 e, curiosamente, uma das aplicações pioneiras nasceu no Nordeste. O VLibras, desenvolvido no LAVID/UFPB, usa IA para traduzir automaticamente conteúdo em português para a Língua Brasileira de Sinais, e tecnologias desse tipo estão previstas no novo sistema para tornar toda a programação acessível a pessoas surdas.
O mesmo vale para legendagem automática, audiodescrição gerada por IA e dublagem. Recursos que hoje são caros e limitados poderão ser oferecidos em escala. Nos próximos anos, veremos a IA atuar em três frentes principais. Primeiro, na experiência do telespectador: recomendação personalizada de conteúdo, interação por voz com a televisão e assistentes capazes de responder perguntas sobre o que está sendo exibido.
Segundo, na produção: geração de estatísticas em tempo real, resumos automáticos, múltiplas versões de um mesmo conteúdo. Terceiro, nos serviços públicos: alertas de emergência contextualizados por localização e perfil, por exemplo. O grande desafio, e aqui a academia tem papel fundamental, é fazer isso preservando a privacidade das pessoas e com transparência sobre como os algoritmos funcionam. A TV sempre foi um espaço de confiança; a IA embarcada nela precisa honrar essa confiança.
Nordeste: Durante muitos anos dizia-se que a televisão iria desaparecer diante do streaming. Agora vemos justamente o contrário: a televisão está incorporando internet, inteligência artificial e interatividade. Afinal, estamos assistindo ao fim da TV ou ao nascimento de uma nova mídia?
Guido Lemos: Ao nascimento de uma nova mídia. Essa história já se repetiu antes. A televisão foi declarada morta quando surgiu o videocassete, quando surgiu a TV por assinatura, quando surgiu a internet. Em cada ciclo, ela se reinventou: do preto e branco para as cores, do analógico para o digital, e agora do digital para o híbrido. O que está desaparecendo não é a televisão, é a grade linear como única forma de acesso ao conteúdo.
A TV 3.0 incorpora o que o streaming tem de melhor, como o conteúdo sob demanda, a personalização e a interatividade, e mantém o que só a televisão aberta tem: gratuidade, alcance universal, produção local e a experiência coletiva de milhões de pessoas assistindo ao mesmo acontecimento ao mesmo tempo. O televisor volta ao centro da sala, mas como uma plataforma. Eu diria que estamos assistindo à televisão fazer com o streaming o que ela sempre fez com as tecnologias que prometiam matá-la: absorvê-las e sair maior do outro lado.
Revista Nordeste: O Nordeste reúne universidades, centros de pesquisa e ecossistemas de inovação em expansão. A TV 3.0 pode se tornar um novo vetor de desenvolvimento tecnológico para a região? O que ainda falta para transformar esse potencial em indústria?
Guido Lemos: As duas coisas são verdadeiras. A TV 3.0 pode, sim, ser um vetor de inovação para o Nordeste, pois a matéria-prima já existe. Temos universidades com competência reconhecida internacionalmente na área, como mostram as trajetórias do Ginga e do VLibras; temos jovens talentosos sendo formados em programas de pós-graduação de qualidade; e temos ecossistemas de inovação em consolidação em várias capitais. O Porto Digital provou que a combinação de âncora tecnológica, universidade forte e política pública consistente gera empresas, empregos e exportação de tecnologia.
A TV 3.0 oferece uma âncora dessa natureza: testes e certificação de conformidade, desenvolvimento de aplicativos para a nova plataforma, tecnologias de acessibilidade, produção de conteúdo interativo. Mas a janela de oportunidade não se aproveita sozinha. Falta, de fato, complementar o esforço científico com a política industrial. Precisamos de encomendas tecnológicas que privilegiem o desenvolvimento local, de regras de produção que incentivem a fabricação e o software nacionais, de financiamento para startups do setor audiovisual e de laboratórios de certificação instalados na região.
Lançamos a geração 2 em 2007. Foram quase 20 anos para lançar a geração 3. Os ciclos de troca de tecnologia em tv são demorados porque envolve substituição dos transmissores e dos aparelhos de tv. A transição da TV 3.0 vai durar de dez a quinze anos, e quem se posicionar agora captura a cadeia de valor pelas próximas décadas. O Nordeste já demonstrou que sabe fazer ciência de padrão mundial nessa área. O passo seguinte, transformar essa ciência em indústria, depende de decisão política. E esse é um debate que precisa ser feito agora, não quando a transição estiver concluída.
*Entrevista publicada na edição 235 da Revista NORDESTE

