A primeira impressão que o cidadão comum, razoavelmente equilibrado e de posse de suas condições normais de racionalidade, tem ao assistir, na TV, aos debates entre os candidatos à Presidência da República é que ele, dentro da sua casa, está sendo chamado de despreparado e que deve ficar calado, em silêncio.
Isso não acontece apenas agora. Talvez por culpa minha, sua, dos nossos vizinhos de copo e de lar, essa anomalia se propaga, ano após ano, e nada acontece que possa mudar. Conversa fiada, agressões, exposição ridícula e desprovida de qualquer veracidade, e todo aquele pacote de providências e medidas salvadoras do mundo, sempre apresentadas por pessoas que mal conhecem a rua onde moram, nunca ficaram sequer um dia com sede ou com fome, e cuja única dificuldade que de fato enfrentam na vida é escolher onde melhor passar o fim de semana.
Por detrás de tudo isso, infelizmente, uma estranha passividade nos impede, ou nos proíbe, de evitar que a comunidade (todos nós) concorde, discorde, aceite ou engula goela abaixo tantas promessas e desatinos que, sabemos, saem da boca vendendo ilusões e, na vida real, sempre foram levados a Deus dará.
Todos aqueles com mais de trinta anos, ou perto disso, com certeza, por mais de uma vez, já se viram diante dessa desagradável constatação, por mais admiradores que sejam de seu tribuno em exposição.
Para refrescar a memória (cada vez mais plugada à Inteligência Artificial) daqueles mais distraídos, basta uma rápida lembrança do que se viu no último debate entre os candidatos Ronaldo Caiado (PSD), Renan Filho (Missão) e Augusto Cury (Avante), na Rede Bandeirantes (domingo, 23.08). Algumas cenas são dignas de serem inseridas nas páginas negras da nossa história, tal o nível de agressividade e grosserias que a comunidade nunca quis saber e jamais vai pesquisar.
Renan Filho, um sujeito que surgiu do nada e ao nada voltará em breve, dispara ofensas e xingamentos aos candidatos Lula e Flávio Bolsonaro, como se estivesse no quintal de casa, refastelado entre os seus, e mandando às favas princípios básicos do que pedem os bons costumes e a civilidade.
Difícil (ou impossível) elaborar qualquer raciocínio primário sobre o que de fato passa na cabeça de um elemento desses, almejando nada mais, nada menos do que ser eleito presidente de uma Nação, representante de um País.
Por essas e outras atitudes similares é que os debates entre pessoas civilizadas, que outrora serviam para que o cidadão se orientasse com ideias e informações corretas, tivessem a escolha de seu voto facilitada e segura.
Hoje em dia, em um palco que permite que qualquer aventureiro lance mão, o debate entre iguais é mais visto por aqueles que se divertem com a bizarrice sem fim do que por aqueles que buscam qualquer outra informação que lhes seja útil na opção do voto, na escolha do candidato.
De uma só vez, quem assim procede esbofeteia os dirigentes da emissora que o convidou, os adversários ali presentes e o eleitor, quase sempre a maior vítima, que, carente de informação responsável, espera de seu escolhido revelações que incentivem o seu voto e justifiquem sua escolha.
Ausentes do debate, estrategicamente se distanciando de um evidente massacre, Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Zema (Novo), também distantes de qualquer coisa parecida com troca de gentilezas, ao adotar essa postura, sinalizam que, no entender de cada um, comparecer aos debates significa mais prejuízo do que qualquer lucro.
Claro que não deveria ser assim. A democracia pede (ou exige) que a postura seja outra. Mas, devido ao descontrole, à agressividade e à postura dos próprios candidatos, a lógica é contrariada e inverte-se a normalidade.
A triste realidade é que utilizar o debate como bandeira da democracia, de repente, transforma o que seria uma mensagem de paz em uma ameaça.
Uma pena que o eleitor seja o primeiro a ser punido.
José Natal
Jornalista

