O Brasil se impõe diante dos excessos no mundo

Celso Amorim avalia conjuntura internacional a envolver o Brasil e considera posição brasileira capaz de superar as retaliações, inclusive dos EUA

Por Walter Santos

O governo brasileiro conduz postura de análise e posicionamento diante dos muitos assuntos internacionais envolvendo o Itamaraty. No paralelo, registra-se a conduta atenta de um analista expert a contribuir com o Brasil, no caso o ex-chanceler Celso Amorim sempre atento e equilibrado a sugerir soluções adequadas. Eis a Entrevista Exclusiva:

Revista NORDESTE – A realidade global registra a renúncia do Primeiro Ministro do Reino Unido e a eleição da Direita na Colômbia. São duas situações diferentes mas, na sua opinião, quais os efeitos econômicos e políticos na Europa e América do Sul, respectivamente?

Celso Amorim – A mudança no Reino Unido me parece uma questão puramente interna, na realidade o desgaste do primeiro-ministro em função de outros problemas e escândalos, inclusive envolvendo outras pessoas. Não posso fazer julgamento, mas acho que não tem nenhuma importância geopolítica.

NORDESTE – Mas há uma realidade de efeito na conjuntura sul-americana…

Celso Amorim – No caso da Colômbia, com a confirmação , se traduz em uma mudança importante, porque o Petro era um homem mais voltado para causas progressistas e agora nós temos mais uma extrema-direita na região.

NORDESTE – Como o senhor imaginaria o Brasil nesse contexto?

Celso Amorim – Agora, acho que o Brasil tem que ser muito cauteloso em relação a isso, agir de maneira pragmática para não permitir que a América Latina e a América do Sul em particular entre nesse jogo de áreas de influência. Para o Brasil é muito importante uma boa relação com a Colômbia, o país amazônico, com fronteira ampla, com quem temos relações importantes, eu acho que vamos ter que ver se o pragmatismo consegue vencer as ideologias.

NORDESTE – O conflito no Oriente Médio se mantém gerando grande proporção com novas crises geradas por Israel no Líbano e desconfiança do Irã no acordo com EUA implodindo a Paz na região. Quando, enfim, no seu entendimento pode – se projetar solução definitiva diante da posição israelense intransigente? 

Celso Amorim – O Oriente Médio é, evidentemente, o lugar mais complicado do mundo, uma espécie assim de umbigo geopolítico do mundo. Os conflitos continuam. Acho que há alguma esperança de que seja possível ter, não diria mais uma solução pacífica, porque já houve muita destruição, mas uma solução para a questão em relação ao Irã.

NORDESTE – Como o Brasil precisaria tratar esse grave problema?

Celso Amorim – Lembrando sempre que o Brasil em 2010, junto com a Turquia, fez uma proposta que teria talvez evitado o que ocorreu agora, mas ali há também uma outra ação constante entre Israel e palestinos e os habitantes do sul do Líbano, que também terá que ser resolvida e eu acho que ela é mais complexa. O Brasil quer, obviamente, a paz, defende que seja possível uma coexistência entre Israel e Palestina, mas também deplora todas as ações militares que têm sido tomadas e o verdadeiro genocídio que tem sido praticado contra o povo palestino.

NORDESTE – O senhor acredita em sucesso da Diplomacia brasileira diante das novas sanções americanas ao Brasil, tanto com adoção de altas tarifas e imposições jurídicas contra a Justiça e o crime organizado brasileiro?

Celso Amorim – A diplomacia brasileira, desde os primeiros governos do presidente Lula, sempre procurou atuar no sentido da diversificação de parceiros. E graças a isso, embora, claro, não seja desejável perder o mercado dos Estados Unidos, que é um país importante, que tem com o qual temos relações históricas, mas também, não somos tão dependentes assim. Isso nos dá uma certa segurança. Agora, claro, teremos que continuar discutindo, pois não é simples, sempre mais difícil agora do que no passado, porque vemos uma tendência unilateralista explícita que não foi tão clara nos governos, nem republicanos, nem democratas, que negociaram inclusive a Organização Mundial do Comércio, enfim, a prevalência das normas multilaterais. Então é algo complexo, difícil, mas o Brasil tem a melhor proteção na diversificação das suas exportações em geral das suas relações econômicas.

NORDESTE – Como o senhor projeta o ano de 2026 nas relações do Brasil e EUA diante das projeções eleitorais e tentativa de  interferência do governo americano na sucessão brasileira?

Celso Amorim – Não vou falar de interferências do governo norte-americano, porque parece que eu já estou prevendo algo que talvez não aconteça, pelo menos da forma tão forte como foi no passado. É claro que tem a influência das grandes companhias de tecnologia. Hoje nós estamos mais preparados para enfrentá-los do que no passado, mas é sempre um grande desafio.

NORDESTE – Como o Brasil precisa reagir?

Celso Amorim – O Brasil é um país muito grande, muito forte, muito diversificado, consciente da sua capacidade, sempre foi um país pacífico, mas que tem que também aprender a se defender de outras ameaças e por isso que o presidente tem procurado dar ênfase, por exemplo, ao conselho de minerais críticos ligados com conselho ligado à presidência, porque esse é o tema fundamental para os próximos anos.

NORDESTE – quando as Nações vão resgatar o papel mediador da ONU efetivamente ?

Celso Amorim – O papel da ONU só pode ser resgatado quando houver no primeiro desejo das grandes potências de fazerem isso e segundo dos atuais membros permanentes, mas também quando puder haver uma reforma que torne o Conselho de Segurança mais representativo.

NORDESTE – Pessoalmente como o senhor. Encara essa conjuntura ?

Celso Amorim – Eu tinha grande esperança na criação e tenho ainda de órgãos como o G-20, os BRICS, mas eu vejo que há um desejo vejo de isolar certos países, como a China e a Rússia, e outros, África do Sul, inclusive que não tem não tá nem envolvida em nenhuma guerra e nada, tentando diminuir a importância dos países em desenvolvimento. Então, essa tendência terá que ser revertida e o Brasil tem um papel importante em trabalhar nesse sentido.

*Entrevista publicada na edição 234 da Revista NORDESTE. 
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Ana Júlia Silva

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