Carlos vieira, nas suas crônicas “ Porque hoje é sábado! “ narra a força da Viagem na vida

Por Walter Santos

O tema deste sábado de julho no âmbito da crônica literária em atraindo a performance do escritor Carlos Vieira trata de um tema comum na vida social, a Viagem. Leiamos:

A VIAGEM

Viajar é um verbo regular. Intransitivo, não exige complemento.

Viajar, no entanto, pode transformar-se em metáfora quando se diz: viajar na maionese.

Então, vamos viajar comigo na maionese?

É impossível recordar quando esse verbo ganhou sentido para mim. O fato é que viajar sempre esteve presente em minha trajetória de vida.

Talvez por um leve resquício de dislexia, diziam, às vezes, que eu “viajava e ainda viajo””. Na infância, era uma criança que frequentemente brincava sozinha e percorria os caminhos da fantasia, encenando um teatro que imitava a vida.

Transformava-me num grande jogador de futebol, passando horas a fio disputando partidas contra um adversário formidável: a parede lateral de nossa casa, no bairro da Torre. A bola batia incessantemente contra o muro, até que irmãos ou vizinhos, incomodados pela repetição daquele som, interrompiam minha partida imaginária.

Em outras ocasiões, viajava no papel de um executivo que tomava decisões importantes, sentado diante de uma mesa onde repousava uma antiga máquina Olivetti, relíquia dos tempos em que minha mãe trabalhara como agente dos Correios. Ali, entre teclas e papéis em branco, eu construía um mundo que ainda não existia.

Viajar pelos livros veio mais tarde. As estantes improvisadas que construí em casa reproduziam modelos vistos em outros lugares. Cada prateleira tornou-se um pequeno terminal de embarque. Os livros eram bilhetes de passagem para o imaginário.

Depois vieram as viagens pela música. Passei a descobrir, nas letras, o prazer de decifrar o pensamento do compositor e sua intenção oculta. O tic-tac do coração entrava em compasso e descompasso, acompanhando o esforço de compreender o que cada verso realmente queria dizer.

Por fim, veio um barco.

Um barco negro.

Nele, Amália Rodrigues — ou Mariza — me conduzem a uma viagem inesquecível, não sem antes ecoarem o alerta das velhas da praia:

“Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas.
Dizem as velhas da praia: — Que não voltas.

Possivelmente as velhas buscavam alertar para a necessidade do uso da razão imperar diante das transloucadas viagens em pequenos barcos que desafiavam a imaginação e o horizonte.

Fraterno abs”

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Walter Santos

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