Valor SUSTENTÁVEL: ODS, o relógio está correndo. E o mundo ainda não decidiu acelerar, por Luciana Leão

Por Luciana Leão – Valor SUSTENTÁVEL

A divulgação do Relatório dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 2026, feita nesta quinta-feira (9) pela Organização das Nações Unidas (ONU), oferece uma boa oportunidade para refletirmos, nesta coluna, sobre o estágio da Agenda 2030 e os desafios que ainda se impõem ao mundo.

Faltam menos de cinco anos para o prazo estabelecido pela ONU para o cumprimento dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Entramos na reta final de uma agenda construída por 193 países com a promessa de promover desenvolvimento econômico, inclusão social e proteção ambiental.

A boa notícia é que a Agenda 2030 produziu resultados concretos. A má notícia é que eles ainda não acontecem na velocidade necessária.

O relatório deixa isso claro. Desde que os ODS foram adotados, em 2015, quase um bilhão de pessoas passou a ter acesso à água potável gerenciada com segurança. Outros 1,2 bilhão conquistaram acesso ao saneamento seguro. A eletricidade chegou a 92% da população mundial. O acesso à internet saltou de 40% para 74%. As novas infecções por HIV caíram 30%, enquanto as mortes relacionadas à AIDS diminuíram 35%. Pela primeira vez na história, mais da metade da população mundial está coberta por algum sistema de proteção social.

São avanços que mudam vidas. Não são números frios. Representam crianças que sobrevivem, famílias que recebem água limpa, trabalhadores conectados à economia digital e milhões de pessoas que passaram a contar com alguma rede de proteção diante das crises.

Avanços a serem acelerados

Mas basta avançar algumas páginas do documento para perceber que a fotografia está longe de ser confortável.

Dos 139 indicadores monitorados pela ONU, apenas 36% caminham na direção esperada ou apresentam progresso moderado. Quase metade avança lentamente e 15% retrocederam em relação aos níveis de 2015.

Ainda existem cerca de 826 milhões de pessoas vivendo em pobreza extrema. Aproximadamente 2,3 bilhões enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave. Mais de 150 milhões de crianças sofrem com atraso no crescimento. A mortalidade materna permanece quase três vezes acima da meta global. E, talvez um dos dados mais preocupantes, nenhuma das metas relacionadas à igualdade de gênero está no caminho certo.

A pergunta inevitável é: o que aconteceu?

A resposta não está apenas na falta de vontade política. O mundo mudou profundamente desde 2015. Vieram a pandemia, os conflitos armados, os eventos climáticos extremos, a desaceleração da economia, o aumento da dívida dos países mais pobres e, como se não bastasse, a maior queda já registrada na ajuda oficial ao desenvolvimento, justamente quando as nações mais vulneráveis mais necessitam de recursos.

Alerta

O relatório também faz um alerta que interessa diretamente ao setor privado.

Os ODS deixaram de ser apenas uma agenda de governos. A própria ONU reconhece que inovação, tecnologia, inteligência artificial, financiamento sustentável e parcerias serão decisivos para recuperar o tempo perdido. Isso significa que empresas, investidores e empreendedores passam a ocupar um papel central na construção das soluções. Essa talvez seja a maior mudança dos últimos dez anos.

Sustentabilidade deixou de ser apenas uma área das organizações. Tornou-se estratégia de competitividade, gestão de riscos, inovação e geração de valor.

Brasil e Nordeste

Para o Brasil e, especialmente para o Nordeste, essa discussão ganha um significado ainda maior. A região reúne enorme potencial em energias renováveis, economia de baixo carbono, bioeconomia, agricultura resiliente, inovação social e gestão dos recursos hídricos. São áreas diretamente conectadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e capazes de transformar desafios históricos em oportunidades de desenvolvimento.

O Relatório dos ODS 2026 não transmite uma mensagem de fracasso. Transmite um alerta. O mundo já demonstrou que sabe produzir resultados quando existe cooperação, investimento e planejamento.

O desafio, agora, é transformar essa capacidade em ação na velocidade que o relógio da Agenda 2030 exige. Porque, daqui para 2030, o tempo já começou a contar.

Por aí.

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Luciana Leão

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