Valentina Nobre de Lima, 11 anos de idade, morreu em um hospital em Brasília, na segunda-feira (6 de julho), vítima de picadas de escorpião, depois de passar 8 horas de angústia, à espera de um correto atendimento médico.
Segundo a família, Valentina foi ferida três vezes pelo escorpião, após calçar o tênis, preparando-se para ir à escola. Somente neste ano de 2026 (janeiro-junho), foram registrados pelos órgãos de saúde do DF 1.974 casos de ataques dessa praga de difícil controle, esse último levando a criança a óbito.
O relato dos amigos e familiares, que prestaram os primeiros atendimentos à criança, assusta e preocupa todos aqueles que sabem, e temem, passar por situações parecidas. No caso de Valentina, os ingredientes arremetem para um eterno e conhecido problema, que, ano após ano, aumenta de tamanho e jamais sinaliza soluções que acalmem a população: o precário atendimento médico oferecido pela saúde pública.
A família mora em Riacho Fundo I, cidade-dormitório do Plano Piloto de Brasília, fundada há 16 anos e, hoje, com 50 mil habitantes, classe média baixa e sem um hospital de referência. A narrativa de todos aqueles que prestaram o socorro inicial à criança documenta, com recheada dose de sofrimento e dor, um calvário que se repete a cada caso igual a esse, ou a outros sem muitas diferenças.
A demora no atendimento de urgência, a falta de uma ambulância que levasse a assistência em tempo hábil e a recusa absurda de insensatos burocráticos, amparados em protocolos e hierarquias ultrapassadas.
Segundo especialistas, o veneno do escorpião leva o paciente a sérias complicações ao organismo, desde a perda da consciência temporária, queda de pressão, distúrbios e, também, ao óbito. Um amontoado de explicações foi passado à família, e até a corporação dos bombeiros, eternos guardiões da comunidade, teve citação negativa na tragédia que abalou a cidade e entorno.
Segundo pessoas próximas ao local da residência da criança vitimada, toda a região é infestada por escorpiões, sem que haja nenhuma providência oficial que reduza riscos por ali.
Segundo a Secretaria de Saúde do DF, há 11 hospitais regionais em toda a cidade, habilitados aos primeiros atendimentos a picadas de escorpiões, com a aplicação do soro indicado por médicos, caso a caso. Estranhamente, o Hospital de Base, o maior de Brasília, e que atende, inclusive, a cidades vizinhas, não confirma esse tipo de atendimento, não se utiliza desse soro que, se não evita o mal em definitivo, pelo menos ameniza transtornos mais sérios.
A manifestação de revolta no caso, é bom que se diga, não responsabiliza diretamente as autoridades da saúde pública pela nefasta e intensa proliferação de inimigo tão perigoso. Outras comunidades, Brasil afora, padecem do mesmo mal, talvez até com mais intensidade.
São Paulo e cidades do Nordeste, segundo dados oficiais, lideram essa estatística com alguma frequência.
No caso da capital federal, o lamento ganha forma de crescente agonia, devido à real constatação de um sistema operacional de saúde, muitas vezes carente, quase sempre caótico. Cirurgias remarcadas devido à falta de anestesistas, filas intermináveis nas unidades básicas de saúde, ausência de médicos em escalas de plantões e uma série de outras ações que, muitas vezes já registradas, motivam, inclusive, agressões físicas entre pacientes revoltados e servidores despreparados.
No último mês de junho (dia 20), na Unidade de Saúde do Recanto das Emas, cidade fundada em 1993 e distante 37 km do Palácio do Planalto, um paciente morreu na sala de espera de uma unidade básica de saúde, à espera de atendimento, esquecido ali pelos atendentes.
As histórias de fatos negativos como esses, quase rotina nas páginas dos jornais e dos noticiários da TV, causam à comunidade um transtorno constante e preocupação facilmente explicável a qualquer cidadão.
Com a aquisição e o direito à posse de um plano de saúde cada vez mais caro e de difícil acesso, famílias inteiras dependem da saúde pública como meio possível de atendimento.
A cidade cresce vertical e horizontalmente, espalhando condomínios e áreas de ocupação popular a cada ano. A população cresce, o sistema de saúde encolhe, o cidadão padece.
Na mesa de debates dos candidatos a cargos eletivos em outubro, saúde pública deve ser um tema que merece ser avaliado com atenção redobrada. Saúde é o que, de fato, interessa, cada vez mais.
José Natal
Jornalista

