Na terra de Celso Furtado, sua obra ainda é incompleta na Biblioteca Pública do Espaço Cultural José Lins do Rego

Na terra de Celso Monteiro Furtado, um dos maiores economistas da história brasileira, os leitores encontram dificuldades para acessar sua obra completa. O alerta é do economista paraibano, Paulo Galvão Júnior, integrante do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, que evidencia o acesso limitado às obras na Biblioteca Pública Juarez da Gama Batista,  localizada no Espaço Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa.

Ao longo de sua trajetória, Celso Furtado publicou mais de 30 livros, muitos deles considerados referências obrigatórias nas áreas de economia, história, ciências sociais e desenvolvimento regional. Apesar disso, a principal biblioteca pública da capital paraibana reúne atualmente apenas 16 títulos de sua autoria, segundo levantamento de Paulo Galvão Júnior. 

Na avaliação de Paulo Galvão Júnior, a ausência de parte significativa da obra de Celso Furtado na principal biblioteca pública da Paraíba representa uma lacuna que precisa ser corrigida.

“Como é possível que a maior biblioteca pública do estado, situada na capital paraibana, não disponha da coleção completa das obras do célebre economista paraibano Celso Monteiro Furtado? Como aceitar que seus leitores, sobretudo os jovens, sejam privados do acesso à produção intelectual do maior economista brasileiro de todos os tempos?”, questiona o economista.

Obra

O acervo reúne títulos publicados entre 1966 e 2009 e contempla algumas de suas contribuições mais conhecidas. Entre elas estão Subdesenvolvimento e estagnação na América Latina, em que aprofunda sua análise sobre os entraves ao crescimento da região; Um projeto para o Brasil, que reúne propostas para o desenvolvimento nacional; e O mito do desenvolvimento econômico, obra em que questiona a ideia de que o crescimento econômico, por si só, seria capaz de promover bem-estar para toda a sociedade. 

Mesmo assim, parte significativa da trajetória intelectual de Celso Furtado permanece fora das estantes da biblioteca. Estão ausentes desde “A economia brasileira: contribuição à análise do seu desenvolvimento” (1954), uma das primeiras interpretações estruturais da economia nacional, até “A Operação Nordeste” e “Uma política de desenvolvimento econômico para o Nordeste”, ambas de 1959, nas quais sistematiza as ideias que orientaram a criação da SUDENE. 

Segundo o economista, a situação contrasta com a importância internacional do pensamento de Furtado. Autor de obras como Formação Econômica do Brasil (1959), o paraibano consolidou-se como um dos principais formuladores do pensamento desenvolvimentista latino-americano. Suas obras seguem como referência para pesquisadores no Brasil e no exterior, especialmente nos estudos sobre desenvolvimento econômico, desigualdades regionais e planejamento do Estado. 

Parceria para ampliar o acervo

A realidade, no entanto, deve começar a mudar nos próximos meses. O Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba iniciou tratativas com o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, sediado no Rio de Janeiro, para ampliar o acervo da Biblioteca Pública Juarez da Gama Batista. A parceria prevê a doação de 23 obras que ainda não integram a coleção da instituição. 

Entre os títulos que deverão ser incorporados estão obras fundamentais da trajetória de Celso Furtado, como A economia brasileira: contribuição à análise do seu desenvolvimento (1954), A Operação Nordeste e Uma política de desenvolvimento econômico para o Nordeste (1959), Dialética do desenvolvimento (1964), Criatividade e dependência na civilização industrial (1978), Brasil: a construção interrompida (1992), O longo amanhecer: reflexões sobre a formação do Brasil (1999) e Raízes do subdesenvolvimento (2003). 

A relação também inclui livros autobiográficos, entrevistas e outras publicações que retratam a evolução de seu pensamento e de sua trajetória intelectual. 

Patrimônio para as novas gerações 

Caso a doação seja concretizada, a Biblioteca Pública Juarez da Gama Batista passará a oferecer um dos mais completos acervos públicos dedicados à obra de Celso Furtado no Brasil. 

Para Paulo Galvão Júnior, ampliar o acesso aos livros do economista significa muito mais do que preservar a memória de um dos maiores intelectuais brasileiros. 

“Ler Celso Furtado é refletir sobre as desigualdades regionais, as disparidades sociais, a pobreza, a miséria, o desemprego, os juros elevados, a falta de educação de qualidade, a importância da cultura e o papel estratégico do planejamento estatal na construção de uma sociedade mais competitiva, próspera, inclusiva e socialmente justa”, afirma. 

“Precisamos agir rapidamente para que os livros que ainda faltam estejam disponíveis nas estantes e possam ser consultados por todos os interessados”, defende Galvão.

A ampliação deverá beneficiar, estudantes, pesquisadores e leitores paraibanos interessados em compreender o pensamento que continua influenciando debates sociais e desenvolvimentistas pelo mundo. 

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Ana Júlia Silva

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