Economista defende uma releitura da região diante dos avanços econômicos, sociais e tecnológicos das últimas décadas, mas alerta para os desafios da renda, do emprego e da inovação
Por Luciana Leão
O Nordeste entrou em uma nova fase de sua trajetória histórica e já não pode ser analisado apenas pelos antigos indicadores de atraso econômico e social. A avaliação é da economista Tania Bacelar, uma das principais especialistas em desenvolvimento regional do país, ao analisar as transformações vividas pela região nas últimas décadas e os desafios que se desenham diante das mudanças globais em curso.

Segundo ela, o mundo atravessa um período de profundas rupturas impulsionadas pela revolução digital, pela inteligência artificial, pela bioeconomia, pela crise climática e pela reorganização geopolítica internacional. Nesse cenário, o Brasil e, em especial, o Nordeste precisam reposicionar suas estratégias para aproveitar as oportunidades abertas pela nova economia.
Apesar desse quadro, a dinâmica regional brasileira vem passando por mudanças importantes. A concentração populacional e produtiva perdeu intensidade, cidades médias ganharam protagonismo e novas fronteiras econômicas foram consolidadas. O Nordeste, em particular, passou a ocupar posição mais relevante nesse processo, beneficiando-se da atuação dos fundos constitucionais de financiamento, da articulação regional promovida pelo Consórcio Nordeste e da atuação de instituições como o Banco do Nordeste.

“O Nordeste precisa ser relido. A região mudou profundamente nas últimas décadas e já não pode ser analisada apenas a partir dos velhos indicadores de atraso”, afirmou a economista, durante palestra “Oportunidades e Desafios para o desenvolvimento do Nordeste”, evento realizado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop) em junho, na capital paraibana.
A análise parte da constatação de que a economia brasileira vive um ciclo prolongado de baixo crescimento, acompanhado pela perda de participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB), pelo fortalecimento do agronegócio exportador e pela crescente influência do sistema financeiro sobre a dinâmica econômica nacional. Em contrapartida, ganham relevância ativos ligados à sustentabilidade ambiental, à produção de energia limpa e à economia do conhecimento.
Nesse contexto, Tania Bacelar observa que o Nordeste deixou de ser apenas uma região receptora de políticas compensatórias para assumir papel mais relevante na economia brasileira. Ao longo das últimas décadas, interrompeu a histórica perda de participação relativa e passou a acompanhar, em alguns períodos, um ritmo de crescimento superior ao da média nacional.
“A região interrompeu sua trajetória histórica de perda de participação relativa e passou a acompanhar, e em alguns momentos superar, o ritmo de crescimento da economia nacional”, destacou.
Nova base produtiva
A economista ressalta que uma das mudanças mais importantes ocorreu na estrutura produtiva regional. O Nordeste ampliou e diversificou sua agropecuária, incorporando atividades de maior valor agregado, como a fruticultura irrigada, a horticultura, a avicultura, a produção de lácteos e o cultivo de flores. Ao mesmo tempo, a expansão da fronteira agrícola do Matopiba integrou parte da região à dinâmica dos cerrados brasileiros.
No semiárido, o declínio do antigo sistema baseado no algodão e na pecuária extensiva abriu espaço para uma nova valorização da Caatinga e de suas potencialidades econômicas, ambientais e produtivas.
A indústria também registrou avanços importantes. Estados como Pernambuco e Bahia atraíram investimentos estruturantes, incluindo complexos automotivos e novos polos produtivos, enquanto os serviços passaram por forte diversificação, especialmente nas cidades médias.
Setores como logística, telecomunicações, turismo e tecnologia da informação ganharam protagonismo. O Porto Digital, no Recife, consolidou-se como referência nacional em inovação, enquanto os ecossistemas tecnológicos voltados para tecnologia, startups e serviços digitais ligados à Universidade Federal de Campina Grande e João Pessoa, na Paraíba, são exemplos dessa nova realidade.
Educação e inovação mudam o cenário regional
Outro aspecto destacado pela doutora em Economia é o avanço da educação e da ciência no Nordeste. O Ceará tornou-se exemplo em alfabetização na idade certa, enquanto Pernambuco se destacou no ensino médio. A expansão das universidades, institutos federais e centros de pesquisa ampliou a oferta de mão de obra qualificada, especialmente nas cidades médias do interior, criando novos ativos para o desenvolvimento regional.
“Os avanços educacionais alcançados por estados como Ceará e Pernambuco mostram que é possível produzir inovação em políticas públicas a partir do Nordeste”, avaliou.
A criação de polos tecnológicos, centros de pesquisa e inovação e a interiorização do ensino superior contribuíram para formar uma nova geração de profissionais qualificados fora das capitais, fortalecendo o papel econômico das cidades médias
Infraestrutura e energia renovável

A região também avançou significativamente em infraestrutura. Portos estratégicos, como Suape (PE), Pecém (CE) e Itaqui (MA), ampliaram sua capacidade operacional, aeroportos foram modernizados e a expansão da rede de fibra óptica elevou os níveis de conectividade.
Mas é no setor energético que o Nordeste desponta como um dos protagonistas nacionais. A região concentra a maior parte dos investimentos em geração eólica e solar em implantação no país, consolidando-se como principal fronteira brasileira da transição energética.
“O Nordeste reúne hoje uma das maiores oportunidades estratégicas do país por concentrar ativos ligados às energias renováveis, à biodiversidade e à nova economia do conhecimento”, ressaltou.
A conclusão do Projeto de Integração do Rio São Francisco também é apontada como um marco importante para a segurança hídrica regional, sobretudo para áreas do semiárido historicamente afetadas pela escassez de água.
Avanços sociais e gargalos persistentes
Tania Bacelar aponta também que os indicadores sociais apresentaram melhorias expressivas. A extrema pobreza caiu significativamente nas últimas décadas e, segundo a economista, as grandes secas deixaram de produzir os dramas humanitários que marcaram a história regional durante boa parte do século XX.
Ainda assim, os desafios permanecem relevantes. Embora concentre cerca de 27% da população brasileira, o Nordeste responde por apenas 14% do Produto Interno Bruto nacional (PIB). A renda média segue abaixo da média brasileira, enquanto o desemprego e a informalidade permanecem em níveis superiores aos observados no restante do país.
“O principal desafio continua sendo transformar crescimento econômico em empregos de qualidade e aumento consistente da renda da população”, alertou.
Uma oportunidade histórica
Na avaliação de Tania Bacelar, o futuro do Nordeste dependerá da capacidade de transformar seus ativos naturais, energéticos, tecnológicos e humanos em cadeias produtivas mais sofisticadas e inovadoras.
A economista alerta que a região não pode repetir modelos baseados apenas na exportação de matérias-primas ou na atração de investimentos sem forte integração com a economia local. O desafio passa por agregar conhecimento, tecnologia e inovação aos novos ciclos de crescimento.
“O Nordeste continua enfrentando desafios históricos, mas chega a esta nova etapa do desenvolvimento com ativos que poucas regiões do mundo possuem. O desafio agora é transformar essas vantagens em prosperidade sustentável”, concluiu.
*Matéria publicada na edição 233 da revista NORDESTE

