Na série, “Porque hoje é sábado!”, Carlos Vieira aborda “Os cem contos”, a partir de sebo de livros

O cronista literário Carlos Vieira, também presidente da CEF, avalia neste sábado os efeitos de se deparar com “os cem melhores contos de humor”, a partir de contato com um sebo de livros.

Eis o resumo da abordagem:

“Os cem contos

Os cem melhores contos de humor da literatura mundial me foram apresentados num sebo de livros. Ao comprá-lo, tinha a expectativa de me deleitar com as narrativas dos grandes contistas da literatura universal. Qual não foi minha surpresa: o livro é melhor do que a encomenda.

Tendo lido cerca de um terço da obra, já me vejo amplamente recompensado. A cada conto, uma nova descoberta sobre a capacidade dos grandes escritores de nos deslumbrarem com sua sagacidade, criatividade e habilidade singular de, com leveza, tratar de temas profundamente sérios sob a forma do humor.

O senso crítico — que é comum a todos nós, ainda que muitas vezes adormecido — nos é apresentado com sutileza e inteligência. Não há imposição, mas revelação. O riso, nesse contexto, não é fuga: é instrumento de compreensão.

Ao ler o conto “O roubo do elefante branco”, de Mark Twain, tive a nítida impressão de estar diante de um fato recente. A narrativa, embora construída no século XIX, dialoga com impressionante atualidade. A chamada era vitoriana, com suas formalidades e contradições, parece espelhar comportamentos que ainda hoje observamos.

As instituições ali retratadas — com sua burocracia, vaidade e, por vezes, ineficiência — não diferem substancialmente das que conhecemos. A sociedade, por sua vez, segue capaz de aceitar, com a chancela quase ritual da mídia, situações que beiram o absurdo, ainda que travestidas de normalidade. No conto, o desaparecimento de um elefante é alegórico; na realidade, quantos “elefantes” não desaparecem sob nossos olhos, dissolvidos em narrativas oficiais?

É nesse ponto que o humor de Twain se revela mais profundo: ele não apenas diverte, ele expõe. E o faz com elegância, permitindo que o leitor ria — e, logo em seguida, perceba que talvez esteja rindo de si mesmo.

Assim caminha a humanidade: entre contos e encantos, entre o riso e a reflexão. E talvez seja essa a maior virtude da grande literatura de humor — a de nos entreter enquanto, silenciosamente, nos desnuda.

Fraterno abraço

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Walter Santos

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