Pelo menos nove frigoríficos que fornecem carne ao Grupo Mateus – três deles pertencentes à JBS – compraram gado de propriedades incluídas na lista suja do trabalho escravo;
Terceira maior rede de supermercados do Brasil, empresa não possui compromissos públicos para eliminar o desmatamento da cadeia de fornecimento e não respondeu a diversos questionamentos realizados ao longo da investigação;
Estudo revela que mais da metade da carne bovina encontrada nas lojas apresenta avaliação negativa em critérios de sustentabilidade;
Produto encontrado no Mix Mateus Atacarejo Ubatuba, em São Luís (MA), também registrado em lojas de Fortaleza (CE), ligado ao frigorífico da JBS em Marabá (PA), na lista suja do trabalho análogo à escravidão. Fonte: relatório “Por trás das prateleiras”, da Mighty Earth
A terceira maior rede supermercadista do Brasil, o Grupo Mateus, comercializa produtos de carne bovina provenientes de frigoríficos associados a denúncias de trabalho análogo à escravidão e com risco de desmatamento, revela investigação inédita da organização ambiental Mighty Earth.
O levantamento, que abrange o período de 2023 a 2025, aponta que 54% dos produtos analisados receberam avaliação negativa em critérios de sustentabilidade. O estudo completo está disponível para consulta pública aqui.
A empresa apresenta o pior desempenho entre os grandes varejistas brasileiros em transparência e controle da cadeia de fornecimento de carne. A falta de mecanismos públicos de monitoramento impede que consumidores saibam se a carne vendida pela rede contribui para a perda de florestas e outros biomas brasileiros.
Além das questões ambientais, a investigação também encontrou um extenso histórico de violações de direitos humanos e trabalhistas, incluindo casos de morte e tortura de homens negros em supermercados da rede que somam mais de 2900 processos em andamento com indenizações em torno de R$ 139 milhões desde 2023.
A investigação foi realizada com base em mais de 430 produtos de carne bovina coletados em 38 lojas do Grupo Mateus nos estados da Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Sergipe.
As análises utilizaram dados do aplicativo Do Pasto ao Prato e do sistema de monitoramento Rapid Response, coordenado pela Mighty Earth em parceria com a AidEnvironment, que analisa indicadores de risco e de ilegalidades na cadeia da carne bovina.
Os resultados mostram que 54% da carne encontrada nas lojas da rede foi classificada como “Muito Ruim” a “Pode Melhorar”, categorias atribuídas a produtos oriundos de frigoríficos com histórico de ligação a desmatamento, queimadas ou fornecedores incluídos na chamada “lista suja” do trabalho análogo à escravidão.
Além disso, 85% dos frigoríficos identificados como fornecedores da rede não são signatários do TAC da Carne, principal compromisso setorial para impedir a comercialização de gado associado ao desmatamento ilegal na Amazônia.
Com faturamento superior a R$ 36 bilhões e presença em 110 cidades de 10 estados do Norte e Nordeste, o Grupo Mateus opera mais de 270 lojas entre atacarejos, hiper e supermercados.
A companhia ocupa a terceira posição no varejo brasileiro, atrás apenas de Carrefour e Assaí. Mesmo com a expansão acelerada dos últimos anos, a empresa não acompanhou os movimentos de governança socioambiental adotados por seus concorrentes diretos. Não possui compromissos públicos para eliminar o desmatamento de sua cadeia de fornecimento de carne bovina, não divulga critérios de compra, não apresenta mecanismos de rastreabilidade e não publica relatórios de sustentabilidade.
“Nossa nova investigação constatou que o Grupo Mateus tem comprado carne bovina classificada como ‘ruim’ ou ‘muito ruim’ de fornecedores como a JBS, empresa recorrentemente associada ao trabalho escravo e ao desmatamento. O Grupo Mateus deve escolher entre continuar a impulsionar a destruição do clima e da natureza ou seguir o caminho de seus concorrentes diretos, assumindo compromissos públicos para limpar suas cadeias de suprimento de carne bovina por meio de maior rastreabilidade e transparência”, afirma João Gonçalves, diretor global da organização à frente da campanha de redução do consumo indiscriminado de proteína.
“Estamos tentando contato com a empresa desde abril de 2024 e também não obtivemos resposta. O que pedimos é o mínimo esperado de uma empresa de seu porte – lidar com responsabilidade em relação aos seus impactos sobre o clima e a natureza”, completa.
Frigoríficos ligados ao trabalho escravo na cadeia do grupo Mateus
A análise da Mighty Earth identificou que pelo menos nove frigoríficos que fornecem ao Grupo Mateus compraram, direta ou indiretamente, de propriedades incluídas na Lista Suja do Trabalho Escravo, publicada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Três dessas unidades pertencem à JBS: JBS Marabá (SIF 457) e JBS Santana do Araguaia (SIF 1110), ambas no Pará, e JBS Araguaína (SIF 4001), no Tocantins.
Segundo a Mighty Earth, o número total deve ser maior, dado o limitado controle dos fornecedores e a insuficiência de informações públicas sobre os diferentes elos da cadeia produtiva.
Desde outubro de 2023, o sistema Rapid Response monitora a exposição do Grupo Mateus a áreas de desmatamento na Amazônia, Cerrado e Pantanal. Entre 2024 e 2025, a ferramenta identificou pelo menos 5.147 hectares de áreas desmatadas potencialmente associadas à cadeia de fornecimento da empresa – número que reflete apenas o que a metodologia conseguiu rastrear a partir dos produtos coletados nas lojas analisadas. O total real, segundo a Mighty Earth, deve ser substancialmente maior diante da opacidade da cadeia.
Entre os frigoríficos com pior avaliação identificados pela investigação estão unidades da JBS, além de empresas como Frigorífico Valêncio, Mercúrio Alimentos, Beef Indústria e Comércio de Carnes, Frigorífico Paraíso e Frigoestrela.
Segundo a análise, essas plantas apresentam diferentes combinações de riscos, incluindo compra de gado proveniente de áreas com histórico de desmatamento, vínculos com fornecedores incluídos na lista suja do trabalho escravo e ausência de compromissos robustos de rastreabilidade.
Pior avaliação entre os grandes varejistas
O Grupo Mateus recebeu pontuação zero na avaliação de compromissos de Desmatamento e Conversão Zero (DCF) realizada pela Mighty Earth em parceria com o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Carrefour, Assaí e Grupo Pão de Açúcar, seus concorrentes diretos, possuem políticas públicas para reduzir ou eliminar o desmatamento em suas cadeias de fornecimento.
Segundo a Mighty Earth, o Grupo Mateus não divulga critérios de compra de carne bovina, não publica relatórios de sustentabilidade, não apresenta sistemas públicos de rastreabilidade e não aderiu ao Protocolo Boi na Linha, iniciativa criada para apoiar a implementação do TAC da Carne na Amazônia.
A Mighty Earth cobra que o Grupo Mateus:
Assuma um compromisso público de desmatamento e conversão zero;
Encerre relações comerciais com fornecedores ligados à destruição de biomas e a violações de direitos humanos;
Divulgue sua lista de fornecedores de carne bovina;
Estabeleça um mecanismo público para recebimento e acompanhamento de denúncias relacionadas à sua cadeia de fornecimento.
A Mighty Earth afirma que busca respostas do Grupo Mateus desde 2024, incluindo de executivos da empresa e de sua assessoria de imprensa, mas nunca recebeu retorno sobre os achados da investigação. Em 2009, o Grupo Mateus foi notificado pelo Ministério Público Federal em uma ação judicial sobre compras de carne bovina ligadas ao desmatamento na Amazônia e alertado de que poderia ser responsabilizado solidariamente pelos danos ambientais caso mantivesse essas aquisições.
Sobre a Mighty Earth
A Mighty Earth é uma organização global que trabalha para proteger um planeta vivo. Nosso objetivo é preservar a natureza e garantir um clima que permita o florescimento da vida. Somos obcecados por gerar impacto, e nossa equipe tem alcançado mudanças transformadoras ao persuadir grandes setores a reduzir drasticamente o desmatamento e a poluição climática em suas cadeias de suprimentos globais — incluindo óleo de palma, borracha, cacau e ração animal —, ao mesmo tempo em que melhora as condições de vida de comunidades indígenas e locais em regiões tropicais.
Fonte: relatório “Por trás das prateleiras”, da Mighty Earth.

