Valor Sustentável: Nordeste transforma combate à desertificação em agenda estratégica do pós-COP30, por Luciana Leão

Por Luciana Leão, coluna Valor Sustentável

 

O Nordeste começa a consolidar uma nova frente de protagonismo climático internacional ao transformar o combate à desertificação em política regional articulada entre estados, governos locais, instituições multilaterais e comunidades tradicionais.

O movimento ganha força nesta semana, durante o 5º Encontro Nordeste ICLEI Brasil (Governos Locais pela Sustentabilidade), realizado em Salvador, a partir desta quinta-feira (28), com apoio do Consórcio Nordeste, que reúne representantes públicos para discutir o recaatingamento como solução baseada na natureza no enfrentamento à degradação do semiárido. Fundado em 1990, o ICLEI é uma rede global de governos locais e regionais dedicada ao desenvolvimento urbano sustentável.

Mais do que um fórum técnico, o encontro sinaliza uma mudança de escala no debate ambiental nordestino. A região passa a defender uma estratégia integrada que combina restauração ecológica, desenvolvimento econômico e adaptação climática em um cenário pós-COP30, realizado em Belém, em 2025.

O evento ocorre em um momento simbólico para o Consórcio Nordeste, que amplia sua atuação na agenda ambiental e prepara uma nova etapa de integração regional voltada à transformação produtiva sustentável. Atual presidente do Consórcio e governador de Alagoas, Paulo Dantas afirma que o Nordeste pretende manter a execução dos projetos estruturantes independentemente do calendário político.

“A agenda técnica do desenvolvimento regional não pode ser interrompida pelo ciclo eleitoral. O Nordeste não pode parar”, afirmou o governador em entrevista exclusiva à Revista NORDESTE.

Segundo ele, a estratégia regional passa pela consolidação do Plano Brasil Nordeste de Transformação Ecológica, iniciativa que articula projetos voltados à bioeconomia, transição energética, restauração ambiental e industrialização verde.

“Neste plano temos indicativos para enfrentar os grandes desafios ambientais de nosso tempo, com base na ciência, na valorização dos saberes tradicionais e na cooperação regional”, destacou Paulo Dantas.

Recaatigamento

O conceito de recaatingamento surge justamente nesse cruzamento entre ciência, conhecimento tradicional e regeneração produtiva. A metodologia em construção pelos nove estados nordestinos busca recuperar áreas degradadas da Caatinga por meio da regeneração natural assistida, isolamento de áreas, preservação da vegetação nativa e adoção de práticas sustentáveis pelas comunidades locais.

Para Rodrigo Perpétuo, diretor-executivo do ICLEI América do Sul, o Nordeste começa a ocupar posição estratégica no debate climático global ao apresentar soluções adaptadas às condições extremas do semiárido.

“A partir de uma articulação que envolve todas as esferas de governo, o Nordeste tem fortalecido suas ações contra a desertificação e hoje já se posiciona como um laboratório de soluções para desafios globais”, afirma.

A discussão ganha relevância internacional diante da articulação política para que a região venha a sediar futuramente uma Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD). A proposta é sustentada pela construção de uma Política Regional de Combate à Desertificação e pelo avanço de experiências integradas entre os estados.

Passada a COP30, o desafio do Nordeste agora é transformar compromissos ambientais em cadeias econômicas concretas. Nesse sentido, Paulo Dantas defende que o Consórcio Nordeste avance para uma etapa de industrialização conectada à transição energética e à integração produtiva regional.

“Priorizaremos energia renovável, hidrogênio verde, agroindústria de valor agregado, química, petroquímica, fármacos e biotecnologia. São setores em que o Nordeste já possui vantagens competitivas e forte capacidade de atração de investimentos”, afirmou.

A estratégia inclui ainda a criação de câmaras setoriais integradas e a ampliação de compras compartilhadas entre os estados, mecanismo que ganhou notoriedade durante a pandemia e agora deve ser expandido para áreas como segurança pública, tecnologia e infraestrutura produtiva.

 

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Luciana Leão

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