Em Campina Grande, CFM debate desafios e protagonismo da nova geração de médicos

Realizado em Campina Grande (PB), cidade que concentra três cursos de medicina do País, o VI Fórum de Integração do Médico Jovem realizado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) debate desde ontem,
terça-feira (12), sobre os desafios da carreira para os recém-formados, incluindo formação profissional, residência médica, mercado de trabalho e qualidade do ensino. O encontro com estudantes e residentes também abordou temas como saúde mental, pejotização, publicidade médica, inteligência artificial, segurança e autonomia profissional.

Em seu discurso na abertura do evento, o presidente do CFM, José Hiran Gallo, lembrou que o País precisa formar médicos cada vez mais qualificados para assegurar assistência de qualidade aos pacientes, o que passa pela aprovação do projeto de lei que cria o Exame Nacional de Proficiência em Medicina (ProfiMed). Ele também chamou atenção para a proteção do ato médico, conforme previsto na Lei nº 12.842/2013, diante de diversas tentativas de ampliação indevida de competências por profissionais não médicos.

“É preciso defender as prerrogativas médicas em diferentes frentes de ação, o que envolve também a luta pela construção de ambientes de trabalho seguros, livres de violência, onde médicos e equipes de saúde possam atuar com dignidade”, afirmou. Já o coordenador da Comissão de Integração do Médico Jovem do CFM, Bruno Leandro de Souza, ressaltou que o País tem hoje mais de 682 mil médicos, sendo cerca de 281 mil (41% do total) com até 10 anos de formado. Mais de 175 mil médicos têm até cinco anos de formado; e quase metade dos médicos brasileiros tem até 40 anos de idade.

“Esses números revelam uma transformação profunda. A medicina brasileira está se renovando em velocidade acelerada. O perfil etário, profissional, social e formativo do médico mudou. A presença feminina também é cada vez mais expressiva: as mulheres já são maioria entre os médicos brasileiros, representando pouco mais de 51% do total nacional”, ressaltou.

Souza descreveu a situação na Paraíba, onde cresce o número de médicos, com ampliação da presença em diferentes regiões, mas que ainda convive com concentração de oportunidades, dificuldades de fixação no interior, desigualdade na oferta de campos de prática, necessidade de fortalecimento da residência médica, pressão por inserção precoce no mercado e exigência cada vez maior de qualificação.

O evento conta com a presença de novas lideranças médicas, entre elas o especialista em Saúde Mental, Vinícius Santos do núcleo do CRM/PB e professor da Faculdade AFYA.

Redes sociais – O integrante da Comissão de Integração do Médico Jovem Caio Chaves Limeira avalia que, atualmente, existe uma armadilha de comparação entre os profissionais recém-formados. Segundo ele, a rede social encurtou a paciência das novas gerações: o médico jovem se compara o tempo inteiro com colegas ricos rapidamente, influencers, ‘especialistas’ vendendo sucesso, rotinas irreais e faturamentos espetaculares.

“Isso gera ansiedade, imediatismo, decisões antiéticas e busca por atalhos. Não podemos esperar estar no topo aos 30 anos, quando o tempo médio de carreira é de 50 anos. Carreiras rápidas podem impressionar, mas somente as sólidas se provam com o tempo. Reputação é a soma de competência, consistência, prudência, responsabilidade e confiança ao longo dos anos”, destacou.

Precariedade no continente – A secretária técnica de Médico Jovem da Confederação Médica Latino-Iberoamericana e do Caribe (Confemel) Rocio Orihuela Calixto falou sobre a difícil situação dos médicos jovens no continente, com dados sobre a inserção laboral precária em vários países. No Equador, o salário mínimo setorial mensal é de 513 dólares e o multiemprego, segundo ela, se torna a única estratégia de sobrevivência. No Peru, para cada dez candidatos, apenas um consegue especialidade; o restante usa contratos sem estabilidade trabalhista nem benefícios plenos, com jornadas de 24-36 horas não remuneradas.

Ela explicou que 55% dos médicos jovens trabalham mais de 24 horas consecutivas por mês. Na Bolívia, há 40% de evasão do serviço rural obrigatório devido a condições precárias. No Chile, há fuga massiva para o setor privado por falta de condições competitivas.

Segundo Rocio, há um “círculo vicioso” em tudo isso. “Quando os profissionais saem, o sistema fica mais sobrecarregado, piorando ainda mais as condições para quem permanece. Há poucas oportunidades de formação; os profissionais acabam em empregos precários, enfrentam condições difíceis em regiões remotas, sofrem desgaste psicológico, e, como consequência, abandonam o sistema ou emigram”, resumiu.

O VI Fórum de Integração do Médico Jovem segue ocorrendo em Campina Grande, com painéis de debates nesta quarta-feira (13).

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Walter Santos

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