Desastres anunciados: o custo da infraestrutura precária, por Luciana Leão

Por Luciana Leão, coluna Valor Sustentável

 

As chuvas que atingem o Nordeste deixam um alerta que vai além dos alagamentos e transtornos momentâneos: muitas cidades da região já operam no limite de sua capacidade urbana diante dos eventos climáticos extremos. Ruas inundadas, canais transbordando, barreiras deslizando e famílias desalojadas voltam a ocupar o noticiário em um cenário que, infelizmente, deixou de ser episódico.

A cada início do período chuvoso, a região revive tragédias previsíveis que expõem problemas históricos de infraestrutura, habitação e planejamento urbano. Mas reduzir o problema apenas ao volume das chuvas seria uma simplificação perigosa.

O que se observa hoje é a combinação entre mudanças climáticas, fenômenos meteorológicos extremos e décadas de crescimento urbano sem infraestrutura adequada. E poucas capitais representam tão bem esse desafio quanto o Recife.

Localizada praticamente ao nível do mar, a capital pernambucana possui uma condição geográfica extremamente delicada. Cortada por rios, cercada por manguezais e marcada historicamente pelo avanço urbano sobre áreas alagáveis, a cidade expandiu sua ocupação ao longo de décadas por meio de aterros e intervenções que reduziram espaços naturais de drenagem.

Especialistas alertam que sistemas de drenagem concebidos décadas atrás já não conseguem responder adequadamente à nova realidade climática das grandes cidades costeiras, reflexo de uma crise histórica de planejamento urbano.

Segundo a geógrafa Larissa Warnavin, mestre e doutora em Geografia e docente da Área de Geociências do Centro Universitário Internacional Uninter, além do aumento no volume das chuvas, outros fatores ampliam a preocupação, como a elevação gradual do nível do mar provocada pelo aquecimento global e a combinação de fenômenos meteorológicos que vêm intensificando a instabilidade climática no litoral nordestino.

Entre eles estão a atuação mais intensa da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) e o fluxo constante de ventos marítimos, que favorecem a formação de nuvens carregadas e concentram volumes extremos de chuva em áreas costeiras. Em cidades de baixa altitude, como Recife e parte de sua região metropolitana, esse cenário se torna ainda mais delicado, especialmente em períodos de maré elevada.

O custo dessa ausência de planejamento vai muito além dos prejuízos materiais. Afeta a mobilidade urbana, interrompe atividades econômicas, sobrecarrega os serviços públicos e aprofunda desigualdades sociais históricas.

A realidade, porém, não atinge todos da mesma forma. São as populações que vivem próximas a rios, canais, encostas e áreas de ocupação irregular as mais expostas aos riscos. Vale lembrar que quem habita essas áreas são famílias que, muitas vezes, ocupam esses espaços por ausência de políticas habitacionais e falta de alternativas de moradia.

Portanto, o desafio das cidades nordestinas já não é apenas enfrentar a chuva. É sobreviver a décadas de urbanização desordenada, falta de saneamento básico, e de um clima cada vez mais extremo. Soma-se a esse desafio a dificuldade histórica das gestões públicas em atuar de forma preventiva. As respostas continuam concentradas em ações emergenciais, obras paliativas e medidas temporárias. A prevenção segue avançando em ritmo muito inferior ao crescimento urbano e à intensificação dos eventos extremos.

Enquanto tragédias previsíveis continuarem sendo tratadas como acontecimentos excepcionais, milhares de famílias seguirão vivendo entre a precariedade urbana e os efeitos cada vez mais visíveis da crise climática.

Essa é a realidade.

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Luciana Leão

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