A erosão da palavra: quando a linguagem perde a alma, por Paulo Roberto Cannizzaro

Por Paulo Roberto Cannizzaro*

Houve um tempo em que a palavra não era apenas meio, mas um lugar. Lugar de encontros, conflitos, diferenças, mas principalmente de revelação. As palavras eram essencialmente abrigos. Falar, sinceramente, carregava o sentido de expor-se; escrever, comprometer-se. Elas continuam entre nós, multiplicadas em telas luminosas, mas perderam o peso do corpo. Dizem tudo, na maioria não expressam nada. Tocam a superfície do mundo, agora sem atravessá-lo.

A linguagem de hoje parece ter sido exilada de si mesma. Circula em abundância, mas já não habita o valor do sentido. Não é que esteja morta, mas está cansada, anêmica, repetida de expressões tolas, até a exaustão. Escorrem pelo mundo, mas como água pálida, sem sabor, sem risco, com pouco carinho. Vive de ecos, ruídos excessivos, slogans, mas se esvaziando de alma.

A deterioração da linguagem não ocorre por silêncio, mas por excesso, por degradação do seu mal-uso. Falam tudo, escrevem, se comunicam tanto, e paradoxalmente, nunca se disse tão pouco. Palavras como “liberdade”, “amor”, “democracia”, “resiliência”, “igualdade” “propósito” “generosidade” “amizade” e “empatia” tornaram-se moedas gastas, deformadas de sentido. Usam tanto a palavra amor, mal sabem o significado de amar, já não pressupõe cuidar. “Amor” virou etiqueta. “Liberdade”, slogan. “Dor”, estatística.

Assim, repetidas à exaustão vazia, as palavras deixaram de sangrar. Já não ferem, parecem distantes, indiferentes, não nos salvam mais. Apenas passam. Circulam velozes, mas sequer são precisas de verdade. Expressa-se principalmente mentiras, são signos sem lastro, inflacionados pelo uso conveniente de narrativas, estratégicas, publicitárias ou performáticas.

No mundo corporativo e político há uma enxurrada delas. O diretor da companhia promove, por exemplo, uma reunião prolixa, uma apresentação em que o principal tema é a expansão do seu ego, convocando que “todos esses estejam na mesma página”, mas se esquece que o time de seus funcionários não está cativado para a lealdade, a valorização do capital humano, pessoas sem nenhuma sintonia, afinidades, independência pessoal, “são babões”, personagens apenas para balançar a cabeça, mas sem se comportar administrativamente unidas, não estarão é em “página nenhuma”.

No universo político há outro amontoado delas. O Presidente e as suas campanhas políticas usam um monte de expressões, mas elas não significam nada. Massacres humanos são justificadas como “necessidades históricas”. Guerras são “operações de pacificações”. É a linguagem deformada encobrindo a realidade concretas, com frases abstratas, cheias de mentiras. Esse processo da linguagem não é neutro. Quando a linguagem perde a densidade da verdade, o pensamento é esvaziado de profundidade.

Não se trata apenas de uma crise semântica, mas de uma crise ética e existencial. A palavra vazia impede a elaboração do conflito verdadeiro, substitui o diálogo pela reação e transforma o debate e uma reunião em um espetáculo. Onde a linguagem empobrece, a violência simbólica cresce. E a lógica do mundo digital tem culpa disso, agravou esse fenômeno. A palavra foi reduzida a uma faísca. Precisa brilhar por segundos, provocar reação, inflamar afetos rápidos. Não pode hesitar. Não pode duvidar. Não pode ser longa. O pensamento, que precisa de pausa, foi declarado improdutivo. A palavra profunda tornou-se um erro de sistema.

A linguagem é submetida à métrica do engajamento: curta, rápida, emocional, polarizada. O que não cabe em poucos caracteres é descartado. O que exige silêncio, ambiguidade ou reflexão é penalizado pelo algoritmo. Assim, a palavra deixa de buscar a verdade e passa a disputar atenção. Não importa o que significa, importa é se for “performado”. O discurso deixa de ser expressão do pensamento para tornar-se instrumento de pertencimento. Fala-se não para expressar sentido, mas para sinalizar posição. A linguagem vira identidade de grupo, senha moral, escudo simbólico.

Quem repete os códigos do uso dominante é aceito; quem tenta dar sentido é suspeito, sequer será visto, pouco ouvido. O pensamento crítico, que depende da tensão entre palavras e coisas, torna-se incômodo. A deterioração da linguagem também produz um sujeito fragilizado. Incapaz de nomear suas dores com precisão, que recorre a fórmulas prontas, e um monte de expressões de terapias. Sofre, mas não sabe dizer por quê. Ama, mas confunde afeto com consumo. Indigna-se, mas não compreende a estrutura do que o indigna.

Quando faltam palavras verdadeiras, a experiência humana empobrece. Há, ainda, um aspecto político decisivo: Quando conceitos são esvaziados, tornam-se facilmente manipuláveis. A linguagem deteriorada não esclarece nada, apenas tenta governar, e não governa nada. Não revela, apenas encobre. A banalização do discurso é o terreno fértil do autoritarismo suave, aquele que não censura, mas confunde. Resistir a esse processo não é recuperar uma linguagem “pura”, isso seria ilusório. É, antes, restituir à palavra o peso da responsabilidade. Falar menos, mas dizer melhor os sentidos.

Não é fácil mudar isso, reabilitar o silêncio como parte do discurso. Reaprender a escutar. A linguagem só volta a ter alma quando volta a doer, quando volta a arriscar, quando deixa de servir só para agradar. Talvez o gesto mais radical agora seja esse: recusar o vazio. Não repetir o que não se pensa e o que não se sente. Não ser conveniente, não usar palavras que não se sustentam na experiência. Defender a complexidade em um mundo que a odeia.

Enquanto a linguagem for apenas ruído, o humano seguirá perdido, não por falta de voz, mas por falta de sentido. Há algo de trágico nisso: quando perdemos as palavras verdadeiras, perdemos a capacidade de sentir com precisão. A dor sem nome vira angústia difusa. O amor sem linguagem vira posse. A indignação sem pensamento vira fúria. O empobrecimento da palavra é, no fundo, o empobrecimento da vida interior. As palavras vazias criam um mundo plano, mas sem expressão.

 

*Paulo Roberto Cannizzaro é escritor e consultor empresarial. Autor de mais de 40 livros em diversos gêneros como poesia, crônica, romance, além de obras no contexto empresarial
**Os artigos publicados no site da revista NORDESTE são de responsabilidade de seus autores
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