Carlos Vieira: Consolida-se o cronista sensível além dos números

Carlos Vieira, presidente da CEF, surpreende universo literário com produção de livros atraentes à leitura pelo nível de abordagens

Por Walter Santos

Quem acompanha o cotidiano das cenas nacionais e internacionais movidas a números e exigências estratégicas no reforço às políticas sociais não imagina, em tese, que na cabeça do formulador de táticas de resultados esteja a figura cidadã de um Executivo, no caso presidente da Caixa Econômica Federal, Carlos Vieira Fernandes, produzindo livros sensíveis e atraentes ao leitor. Agora mesmo em abril ele participa de lançamento do livro que lançou em Brasília, recentemente, “Fragmentos do Cotidiano em Crônicas”, na Academia Paraibana de Letras. Eis a entrevista: 

REVISTA NORDESTE – Os dados públicos expõem que o Sr. ultimamente tem se dedicado à produção literária, com abordagens constantes de crônicas — um ambiente muito distante dos números econômicos e sociais da presidência da CEF. Como é dialogar com situações intelectuais tão distintas?

CARLOS VIEIRA – Aparentemente distintas, mas, na essência, profundamente complementares. A gestão pública, especialmente em uma instituição como a Caixa, lida com números que carregam vidas, histórias e expectativas. A literatura, por sua vez, permite dar voz a essas dimensões subjetivas que os números não capturam. Diria que uma atividade oxigena a outra. A racionalidade da gestão exige objetividade; a crônica me devolve a sensibilidade. No fundo, ambas são formas de compreender o humano — uma pela métrica, outra pela memória.

NORDESTE – O que está na essência dessa sua performance contemporânea enquanto contribuição intelectual?

CARLOS VIEIRA – A tentativa de reconciliar propósito e ação. Vivemos um tempo em que o fazer se sobrepõe ao refletir. Minha contribuição — se assim posso chamar — é insistir na importância de parar, observar e traduzir o cotidiano em linguagem acessível. A crônica tem essa virtude: transforma o ordinário em extraordinário. É, sobretudo, um exercício de escuta ativa do mundo.

NORDESTE – Quem é o produtor de crônicas atemporais, ancoradas em memórias do passado, mas que dialogam com a vida atual?

CARLOS VIEIRA – É alguém que não se desvinculou de suas origens. Minhas referências estão nas pequenas cidades, nas conversas de calçada, nos ensinamentos familiares, nos silêncios e nas pausas. Escrevo como quem revisita — não apenas o passado, mas os significados que ele ainda projeta no presente. A atemporalidade nasce dessa matéria-prima: o humano essencial, que não envelhece.

NORDESTE – Como autor, como o Sr. autodefine o conteúdo do livro “Fragmentos do Cotidiano em Crônicas”?

CARLOS VIEIRA – É um convite à pausa. O livro reúne pequenas narrativas que não pretendem explicar o mundo, mas sugerir olhares sobre ele. São fragmentos — como o próprio título indica — de experiências vividas, observadas ou imaginadas, organizadas não pela cronologia, mas pela sensibilidade. Escrevi como quem se senta à mesa de um bar, sem pressa, deixando que as palavras encontrem seu próprio ritmo.

NORDESTE – Circula nos bastidores culturais que o Sr. está em fase final de um novo livro, agora envolvendo entidades culturais de favelas no Rio de Janeiro. Procede? Do que trata o conteúdo?

CARLOS VIEIRA – Procede, sim. Trata-se de um livro ainda em gestação, que contará a história de um menino chamado Pedrinho, que, mesmo vivendo em uma favela, encontra espaço tanto para a bola quanto para a leitura. Será um livro dedicado às crianças, e espero que o projeto alcance o êxito que desejamos. Mais do que uma narrativa individual, o livro propõe um olhar sobre territórios frequentemente percebidos apenas por suas carências, mas que são, na verdade, ricos em produção cultural, identidade e inovação social.

NORDESTE – Qual o real propósito?

CARLOS VIEIRA – A proposta é revelar essas narrativas invisibilizadas — mostrar que há, nesses ambientes, uma potência criativa que dialoga diretamente com o futuro do país. É um exercício de deslocamento de olhar: sair da carência e enxergar a abundância.

NORDESTE – Quem são seus autores preferidos e desde quando vem seu vínculo com produções literárias relevantes?

CARLOS VIEIRA – Meu vínculo com a literatura é antigo, ainda que não tenha sido contínuo ao longo da vida. Ele se fortalece com o tempo — talvez como um reencontro. Entre os autores que me influenciam, destaco aqueles que conseguem traduzir a complexidade humana com aparente simplicidade.

Foto: Aneac

NORDESTE – Quem são os preferidos?

CARLOS VIEIRA – Citaria Aluísio Azevedo, com Casa de Pensão; Machado de Assis, em toda a sua obra — com destaque especial para O Alienista, que nos provoca a refletir sobre os limites entre razão e loucura; José Lins do Rego, que nos faz reviver a infância em Menino de Engenho; e Luís Fernando Veríssimo, com suas crônicas, como aquela em que um homem se vê nu nos corredores de um edifício.

NORDESTE – Quem mais nesse universo encantado?

CARLOS VIEIRA – Não posso deixar de mencionar Ariano Suassuna, especialmente em Introdução à Estética, uma referência permanente. Entre os estrangeiros, destaco Elias Canetti, pela profundidade e densidade de pensamento — para ser econômico e, ao mesmo tempo, valorizar nossos grandes autores brasileiros.

NORDESTE – Qual o futuro que se pode esperar do produtor literário Carlos Vieira daqui em diante, longe dos números frios da economia?

CARLOS VIEIRA – Não vejo como uma ruptura, mas como continuidade em outra linguagem. Se, por um lado, a economia trabalha com agregados, a literatura me permite trabalhar com singularidades. O futuro é seguir escrevendo — sem a pretensão de respostas definitivas, mas com o compromisso permanente com o olhar atento. Se houver uma expectativa, que seja esta: continuar transformando experiências em palavras que dialoguem com as pessoas. Por outro lado tenho no trabalho profissional e cotidiano a mesma sensação destacada por Hubert Joly: o trabalho deve ser uma fonte de significado, não apenas de remuneração. Destarte, continuarei trabalhando enquanto sentir que tem significado.

*Entrevista publicada na edição 231 da Revista NORDESTE. 

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Ana Júlia Silva

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