Cooperativismo e bioeconomia: o valor do coletivo na construção de um desenvolvimento sustentável, por Luciana Leão

Por Luciana Leão, coluna Valor SUSTENTÁVEL

O avanço da bioeconomia no Brasil tem demonstrado que o desenvolvimento sustentável depende menos da abundância de recursos naturais e mais da capacidade de organização coletiva dos territórios. Nesse contexto, o cooperativismo emerge como um modelo estratégico para transformar biodiversidade em renda, conhecimento e inclusão econômica, especialmente em regiões onde comunidades tradicionais dependem diretamente do uso responsável dos recursos naturais.

Mais do que uma alternativa produtiva, o modelo econômico representa uma lógica de desenvolvimento baseada na cooperação, na partilha de conhecimento e na valorização das vocações locais. Essa abordagem conversa diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas, ao combinar geração de renda, preservação ambiental e redução das desigualdades sociais, desafios que ainda marcam boa parte do território nordestino.

No Nordeste, a expansão de cooperativas voltadas à agricultura familiar, ao extrativismo e à produção sustentável indica uma mudança gradual no padrão de desenvolvimento regional. Em vez de modelos concentradores de renda e dependentes de monoculturas, observa-se o fortalecimento de iniciativas que valorizam a diversidade produtiva e a autonomia econômica das comunidades. Trata-se de um movimento ainda silencioso, mas consistente, que reposiciona a bioeconomia como vetor de transformação social e econômica.

Central de Produção do mel na Cooates, Barreiros (PE)

Essa percepção se torna ainda mais evidente quando observada diretamente no território. Durante uma visita que fiz à Cooperativa Agrícola de Assistência Técnica e Serviços (Cooates), em 2025, instalada em um antigo casarão de usina de açúcar desativada no município de Barreiros, na Mata Sul de Pernambuco,  foi possível verificar in loco a qualidade das plantas cultivadas e o cuidado técnico aplicado às práticas produtivas.

Chamou atenção, de forma particular, a produção de mel extraído tanto da Mata Atlântica quanto do manguezal, resultado de um manejo que respeita os ecossistemas e demonstra o potencial da biodiversidade como fonte de valor econômico e ambiental.

A experiência confirma que a bioeconomia, quando estruturada de forma cooperativa, transforma biodiversidade em oportunidade econômica real. Não se trata apenas de produzir, mas de organizar o território, qualificar o conhecimento local e criar condições para que comunidades historicamente vulneráveis participem de forma mais justa dos resultados da atividade econômica.

Outras iniciativas no Nordeste confirmam essa tendência e demonstram que o cooperativismo tem se consolidado como um instrumento de inclusão produtiva e inovação territorial. Um exemplo emblemático é o da Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercuc), cuja planta agroindustrial está localizada no município de Uauá, na Bahia.

A cooperativa transformou frutos típicos da caatinga, como o umbu, em produtos com valor agregado, ampliando mercados e gerando renda para famílias agricultoras, com destaque para a participação feminina nas atividades produtivas e na gestão.

Na mesma direção, redes de cooperativas voltadas à sociobiodiversidade têm demonstrado que a bioeconomia pode ganhar escala sem perder sua base comunitária. É o caso da Central da Caatinga, sediada em Juazeiro, que articula produtores e fortalece cadeias produtivas sustentáveis, conectando o conhecimento tradicional às exigências de novos mercados.

O que essas experiências revelam é que o cooperativismo não deve ser visto apenas como uma forma de organização produtiva, mas como uma estratégia de desenvolvimento territorial. Ao estimular a cooperação, a diversificação econômica e o uso sustentável da biodiversidade, as cooperativas contribuem para reduzir vulnerabilidades sociais e ampliar oportunidades em regiões historicamente marcadas por desigualdades.

Diante das transformações em curso na economia global, marcada pela busca por produtos sustentáveis, rastreabilidade e responsabilidade ambiental, o fortalecimento do cooperativismo tende a ganhar ainda mais relevância. A bioeconomia, nesse cenário, deixa de ser uma promessa e passa a se afirmar como um caminho concreto para o desenvolvimento regional, capaz de combinar crescimento econômico, preservação ambiental e inclusão social.

O cooperativismo, portanto, deixa de ser apenas uma alternativa produtiva e passa a se consolidar como uma estratégia concreta de desenvolvimento sustentável. Em um cenário de desafios ambientais e sociais crescentes, fortalecer iniciativas baseadas na cooperação e no uso responsável dos recursos naturais não é apenas desejável. É uma necessidade para o futuro do Nordeste.

Curta e compartilhe:

Luciana Leão

Leia mais →

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *