Por Luciana Leão
Em meio à desaceleração global e à instabilidade geopolítica, o setor mineral volta a ser visto como um dos pilares da economia brasileira e um ponto de interesse para investidores e governos. A atividade, que vem impulsionando exportações e geração de empregos, ganha destaque tanto pelos resultados regionais — como na Bahia — quanto pelo potencial nacional de transformar reservas estratégicas em valor industrial.
Na Bahia, a Produção Mineral Baiana Comercializada (PMBC) alcançou R$ 6,7 bilhões no primeiro semestre de 2025, o maior valor dos últimos três anos, segundo dados da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE). O crescimento foi de 31% em relação a 2024 e de 27,6% sobre 2023, impulsionado pelo avanço das exportações de ouro, cobre, níquel, magnesita e vanádio.
“O setor tem apresentado resultados consistentes e tem sido essencial para o desenvolvimento das regiões do interior, com geração de empregos e oportunidades”, afirmou o secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia, Ângelo Almeida.
Esse desempenho reforça a importância da mineração no cenário nacional, especialmente em um momento em que o Brasil busca fortalecer sua posição global na produção de minerais críticos, como as terras raras — grupo de 17 elementos químicos essenciais para a fabricação de turbinas eólicas, motores de veículos elétricos, painéis solares e equipamentos eletrônicos.
Embora não sejam realmente “raros” na natureza, esses elementos estão dispersos em baixas concentrações e exigem tecnologias complexas para extração e separação. No Brasil, as maiores jazidas conhecidas estão localizadas em Minas Gerais, Goiás, Bahia e Amazonas, com destaque para áreas como Araxá (MG), Catalão (GO) e Poços de Caldas (MG). Há também projetos em andamento em Caetité (BA), onde já há atividade minerária consolidada voltada à exploração de urânio e outros minerais associados.
Na última reunião do Conselho de Mineração da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o tema ganhou destaque. O colegiado defende a criação de políticas industriais e regulatórias que permitam ao país avançar na cadeia produtiva, agregando valor à produção e reduzindo a dependência externa.
“O momento é propício para transformar o potencial geológico brasileiro em políticas reais, que permitam não apenas exportar minério, mas também desenvolver indústria de ponta e ampliar a participação do Brasil na economia verde”, afirmou o presidente do conselho, Sandro Mabel.
Mercado
Com cerca de 23% das reservas globais conhecidas, o Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China, responsável por cerca de 60% da produção mundial. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a demanda nacional por esses elementos deve crescer seis vezes até 2034, passando de cerca de 1 mil toneladas para mais de 6 mil.
Em entrevista ao portal Brasil 61, o professor Nilson Francisquini Botelho, do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB), destacou que o desenvolvimento da cadeia produtiva é essencial para o país deixar de ser mero exportador de matéria-prima.
“Os benefícios seriam maiores com o investimento na parte de transformação, ou seja, a transformação desses metais em produtos tecnológicos. Atualmente, o que se faz é exportar para a China como matéria-prima bruta, e isso acaba agregando muito pouco valor na indústria”, afirmou.
Especialistas também apontam desafios como a burocracia nos licenciamentos ambientais, a insegurança jurídica e a falta de incentivos à pesquisa e inovação, considerados entraves para atrair investimentos estratégicos e consolidar o país como referência em minerais críticos.

