Entre o Forró e o Palco Milionário

Transformadas em megaeventos turísticos, as festas de São João movimentam a economia, atraem multidões e reforçam disputas por visibilidade e espaço entre artistas populares e estrelas nacionais

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Por Luciana Leão

As festas juninas do Nordeste sempre foram muito mais do que comemorações religiosas ou folclóricas. Elas representam um território simbólico onde se articulam saberes, identidades e também disputas de poder. No entanto, nas últimas décadas, o que se vê é a consolidação de um modelo festivo ancorado em grandes investimentos públicos e patrocinados com superestruturas de shows, mega estrelas do sertanejo universitário e da sofrência (subgênero musical romântico), e uma narrativa que esvazia o sentido comunitário original da celebração.

“O forró bom é com pífano, xaxado e baião.” A frase de João do Pife, mestre da cultura popular reconhecido como Patrimônio Vivo de Pernambuco, resume o sentimento de muitos artistas nordestinos diante da transformação das festas juninas em grandes eventos comerciais.

A cada ano, o ciclo junino atrai milhões de turistas e movimenta cifras bilionárias, mas deixa para trás — muitas vezes de forma literal — os verdadeiros anfitriões da festa: os mestres do forró tradicional, das bandas de pífano, das quadrilhas de rua e das manifestações que deram origem às festividades de São João, no Nordeste.

Com mais de 80 anos, João Alfredo Marques dos Santos, nascido no sítio Xambá, em Riacho das Almas, é uma testemunha dessa mudança. Fundador da Banda Dois Irmãos de Caruaru, no Agreste pernambucano, percorreu o mundo com o pífano em punho, mas hoje depende de editais públicos para garantir espaço nas festas da sua própria região.

Os palcos vêm sendo ocupados por artistas que tiram nosso espaço da programação, e os cachês são investidos fora da região. Falta sensibilidade política para entender que quem faz a verdadeira cultura somos nós”, afirma o mestre popular, em entrevista exclusiva à Revista Nordeste.

Tradição em risco

O cenário descrito por João do Pife não é isolado. Diversos grupos tradicionais enfrentam dificuldades para se manter nas programações oficiais dos festejos juninos. A predominância de ritmos como o sertanejo universitário e o piseiro (vertente acelerada do forró) nas grandes arenas montadas em cidades como Campina Grande (PB) e Caruaru (PE) tem reduzido o espaço para o forró pé de serra, o xaxado e o baião — expressões centrais da identidade nordestina.

Segundo relatos de artistas, é comum que as atrações locais tenham de se adequar aos editais e exigências que muitas vezes desconsideram a realidade dos grupos de tradição. Além disso, a visibilidade na programação oficial é muitas vezes simbólicos: horários alternativos, palcos secundários e baixa divulgação.

A força dos números

Por outro lado, a expansão das festas juninas como grandes eventos turísticos movimenta fortemente a economia local dos estados no Nordeste. Segundo dados recentes da Empresa Pernambucana de Turismo (Empetur) e da Secretaria de Turismo da Paraíba, respectivamente os estados com maior fluxo turístico, o ciclo junino pode injetar mais de R$ 600 milhões nas economias das cidades-sede, entre hospedagem, alimentação, transporte e comércio.

Pernambuco

Caruaru terá mais de 1.400 atrações distribuídas em 27 polos ao longo de 65 dias de programação

Em Caruaru, considerada a “Capital do Forró”, a festa começou no dia 25 de abril, com a abertura do projeto “São João na Roça”, uma iniciativa que leva shows e manifestações culturais para comunidades da zona rural. Com mais de 1.400 atrações distribuídas em 27 polos ao longo de 65 dias de programação, espera-se uma edição ainda maior que o ano passado, mais segura e sustentável, informou a gestão municipal, durante coletiva para divulgar a programação.

E a diversidade de ritmos nos polos espalhados pela cidade terá espaço para o sertanejo, axé, MPB, gospel, samba, rap, até o pagode. Entre os estreantes da festa estão Vanessa da Mata, Tribo de Jah, Léo Foguete, Natanzinho Lima, Seu Desejo, Sem Compromisso e Filhos de Gandhy.

Estamos preparando uma estrutura que atenda às expectativas do nosso público e que valorize nossa cultura. Este será o maior, mais seguro e mais sustentável São João que Caruaru já viu”, afirmou o prefeito Rodrigo Pinheiro.

Em 2024, a cidade chegou a contratar mais de 60 atrações musicais e contabilizou R$ 688 milhões em impacto econômico. Porém, boa parte dos recursos públicos — oriundos de emendas parlamentares e parcerias com patrocinadores privados — é destinada à contratação de grandes nomes do mercado nacional. Esse é o modelo.

Paraíba

Parque do Povo, em Campina Grande (PB)

Na vizinha Campina Grande(PB), a história segue em ritmo similar. Em 2024, a cidade paraibana recebeu mais de 2,9 milhões de visitantes durante os dias de festa do intitulado “Maior São João do Mundo”. E, para este ano, o modelo permanece. A festa acontece entre os dias 30 de maio e 6 de julho de 2025, cinco dias a mais no calendário junino da cidade em relação a 2024.

Serão 103 artistas se apresentando ao longo de 38 dias de festival, com pelo menos dois patrocinadores já confirmados: Will Bank e a cervejaria Bhahma. A edição 2025 traz como novidade a ampliação da infraestrutura. A área total do Parque do Povo com a integração do Parque Evaldo Cruz vai permitir um espaço de quase 40 mil metros quadrados – uma área 28% maior – com capacidade para receber agora 73.500 pessoas por dia.

A expectativa da prefeitura é conseguir superar os 2,9 milhões de visitantes que passaram durante todo o festejo no ano passado e que ajudaram na movimentação de quase R$ 700 milhões, segundo a Secretaria de Desenvolvimento Econômico.

Sergipe

Arraial do Povo e a Vila do Forró, em Aracaju (SE). Foto Arthuro Paganini

Outro polo que vem se destacando na região é o estado de Sergipe, que se intitula “O país do forró”. Para 2025, nos dois grandes locais da festa em Aracaju, o Arraial do Povo e a Vila do Forró serão 60 dias de festa. O Governo investiu R$40 milhões com expectativa de arrecadar R$15 milhões em patrocínio, além de previsão de arrecadação de R$80 milhões no Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICMS).

Na avaliação do governador Fábio Mitidieri, o potencial econômico e de desenvolvimento do Nordeste através dos festejos juninos, além de outras datas festivas como o Carnaval deve ser levado em conta, já que geram emprego e renda, movimentam a economia local, o turismo.
Costumo dizer que “a sua alegria movimenta a economia” porque efetivamente é isso. Os festejos juninos geram emprego, renda, e trazem um viés forte para cultura e para o turismo”.

Contraponto ao modelo

Mitidieri, quando questionado pela reportagem da Revista NORDESTE sobre a perda da tradição do São João nos últimos tempos para os mega festivais, concorda que em alguns locais isso possa estar ocorrendo.

Respeito às escolhas de outras cidades, mas aqui em Sergipe 90% de nossas atrações são sergipanos. Nosso diferencial de outros polos como Campina Grande, Caruaru é que mantemos os artistas do forró e os artistas sergipanos preservando a nossa cultura local e a tradição raiz. Não vejo muita lógica em você trazer axé, pagode. Até compreendo que possa haver alguma similaridade no ritmo do sertanejo com o forró, com o arrocha (genuinamente sergipano), mas não vejo sentido em colocar outros ritmos sem nenhuma congruência com a musicalidade, o ritmo do tradicional forró nordestino. Essas festas que adotam esse modelo terminam virando festivais, ou seja vale tudo”, pontua o governador.

A polêmica dos cachês e o modelo atual da festa

Números à parte, enquanto retorno econômico para as cidades-sede das festas juninas, os valores pagos em cachês para artistas nacionais em detrimento aos recebidos por protagonistas locais revelam desigualdades.

Enquanto nomes do piseiro e do sertanejo universitário, e da MPB recebem cachês de até R$800 mil por show, artistas locais relatam valores que mal cobrem os custos de produção. “É preciso haver atualização dos cachês, valorização real. Temos um custo alto para colocar a apresentação na rua”, afirma João do Pife.

Apesar de ser considerado um “modelo de sucesso”, como é chamado por gestores e patrocinadores, por atrair multidões e movimentar a economia, vem sendo criticado por esvaziar a participação dos mestres populares e dos elementos que construíram a identidade junina.

Para Hugo Menezes Neto, professor do Departamento de Antropologia e Museologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), é preciso ampliar a lente de análise.

As festas juninas viraram grandes empreendimentos públicos. Mas isso não se resume a criticar o palco de estrelas nacionais como Wesley Safadão, Ivete Sangalo e só gostar do palco do pé de serra. É muito mais complexo. A cidade, a comunidade, as pessoas gostam desse modelo. Ele foi sendo construído paulatinamente e é aceito como sucesso.

O público como legitimador e o silêncio sobre os mestres

Hugo Menezes Neto: ” A adesão popular ao modelo atual faz com que o gestor público interprete como um termômetro

Essa adesão popular, segundo Menezes, não pode ser ignorada. O público lota os shows das estrelas nacionais enquanto palcos dedicados à tradição muitas vezes permanecem vazios. Isso gera um ciclo: o gestor interpreta a multidão como termômetro, reforça os contratos milionários e relega os fazedores locais a espaços simbólicos ou secundários.

É nesse contexto que surge o desabafo de João do Pife, Patrimônio Vivo de Pernambuco, mestre de pífano e figura central da tradição musical do Agreste: “O poder público ignora a cultura da gente. Eles nem procuram saber. Só querem saber de artistas que enchem espaço. Mas quando precisam mostrar a tradição, aí vêm atrás do pife. A gente vira vitrine, é só pra mostrar.”

João do Pife avalia que existe o uso instrumental dos mestres, chamados apenas para legitimar uma ideia de “tradição” já esvaziada de significado. Seu depoimento evidencia a exclusão vivida por muitos artistas que sustentam as raízes da cultura popular, mas que são mantidos à margem dos grandes palcos e decisões.

Mudanças inevitáveis, mas para quem?

Para o antropólogo Hugo Menezes Neto, as mudanças são parte natural do processo cultural, mas a forma como elas ocorrem hoje revela um modelo excludente.

O bom seria que essas mudanças fossem inclusivas, que potencializassem o local, que ouvissem os próprios fazedores, porque eles também querem mudar coisas. Mas essas mudanças operam em outra ordem, não escutam a comunidade, não consideram o repertório simbólico da tradição. Apenas o mobilizam como produto.

Esse deslocamento impacta diretamente o sentido da festa: ela deixa de ser uma experiência vivida no chão, na casa, na transmissão entre gerações, para se tornar espetáculo. “O modelo festivo só ilumina o palco. Apaga o chão, a casa, a experiência comunitária, os mestres e mestras que fazem a festa ser o que ela é”, acrescenta o antropólogo.

O que está por trás do palco?

Não se trata apenas de uma mudança estética ou de gosto musical. As festas juninas, hoje, espelham uma lógica estrutural mais ampla: de financiamento, de poder e de mercado. Menezes chama atenção para os bastidores:

“O modelo atual reflete uma disputa interna no Brasil. Ele está ligado à política de financiamentos, aos empreendimentos e à captação de recursos das grandes festas públicas. Isso beneficia um segmento cultural muito específico — o sertanejo e a sofrência — porque é esse setor que tem apoio do agronegócio, que financia as grandes duplas. A festa apenas espelha esse movimento.”

O impacto disso é duplo: desvaloriza os artistas locais e reforça um padrão que uniformiza a festa junina, apagando sua diversidade regional. A cultura popular vira ornamento em um projeto que não dialoga com quem a produz.

Festa como espelho da sociedade

A análise proposta tanto por João do Pife quanto por Hugo Menezes Neto aponta para uma mesma direção: a festa mudou porque a sociedade mudou. E, ao espelhar essas transformações, a festa também revela os conflitos, as exclusões e os dilemas de um país em disputa simbólica constante.

Enquanto isso, João do Pife segue tocando seu pífano, ensinando jovens, construindo instrumentos à mão, resistindo no seu lugar — mesmo que fora do grande palco: “Não preciso de milhões para tocar meu pife. Só preciso que respeitem o que a gente faz. Porque isso também é cultura. Isso também é festa.”

A adesão popular legitima o modelo atual — mas até que ponto ela pode conviver com a preservação dos mestres e saberes que originaram a festa?” Eis a questão.

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Luciana Leão

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One thought on “Entre o Forró e o Palco Milionário

  1. Inventário resgata a força do forró tradicional no interior de Pernambuco - Revista Nordeste 7 de junho, 2025 at 4:56

    […] Leia mais sobre a temática entre o forró, festas juninas e o palco milionário […]

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