Antigos interlocutores citam “encastelamento”, tensão interna e impacto no engajamento da militância partidária
Guilherme Levorato
247 – Em sua sétima disputa para presidente da República, Lula (PT) esteve cercado por aliados que não ousaram contestá-lo, e assim se manteve mais isolado do que nunca, segundo avaliação de antigos aliados que participaram de campanhas anteriores do petista, relata a UOL
Além de estar cercado por interlocutores que o reverenciam como a um ídolo, em vez de gente que faz críticas a ele de forma direta e franca, Lula enfrentou ainda um clima de intriga entre integrantes de sua campanha.
A disputa de poder entre eles se manifestou em críticas pelas costas e fofocas espalhadas entre jornalistas — como apelidos jocosos atribuídos a adversários e comentários venenosos que passaram a circular em diferentes panelinhas.
Representantes da velha guarda do PT dizem que esta foi a campanha em que Lula tomou mais decisões por conta própria, contrariando uma prática antiga de se cercar de diferentes opiniões antes de bater o martelo.
Alguns dos que aconselhavam Lula com franqueza no passado já morreram, caso de Marco Aurélio Garcia e Luiz Gushiken, que estiveram na fundação do PT. Mas outros não o fazem porque não se sentem confortáveis para isso, segundo apurado.
Uma queixa que circula desde antes do início do terceiro mandato petista é a de que a primeira-dama Janja dificulta a aproximação deles a Lula. Alguns dos que fazem essa reclamação costumam lembrar que, embora amigos de Lula há décadas, não foram chamados para seu casamento com Janja, que teve ex-BBBs e artistas na lista de convidados.
Dizem que ela privilegia o acesso ao marido daqueles de quem é amiga, como o advogado Marco Aurélio de Carvalho, líder do grupo Prerrogativas — ele coordena a campanha de Lula em São Paulo, integra a coordenação nacional e é tido até por seus adversários como alguém com acesso extremamente privilegiado ao presidente.
“Posso me dar bem com Janja, mas sou militante do PT desde os 16 anos”, diz Carvalho, negando também a influência da primeira-dama em uma suposta dificuldade de acesso de antigos aliados ao presidente.
Além de Janja, outro alvo de críticas é Edinho Silva, presidente nacional do PT e coordenador geral da campanha, que se elegeu deputado federal por São Paulo com 115.287 votos. Ele foi acusado por pessoas do seu entorno de privilegiar a própria campanha para o Congresso e isolar Lula de aliados.
Edinho é um dos principais alvos dos apelidos maledicentes que circulam nos bastidores da campanha. Petistas dizem que ele já foi mais próximo de Janja do que é agora, mas que ela o aceita no círculo próximo do presidente. Ele nega que Lula esteja isolado.
Em entrevista coletiva realizada na sexta-feira (2) anterior à eleição, disse que vinha se reunindo com o presidente a cada dois dias — e uma evidência de sua interlocução frequente com ele teria sido um telefonema que recebeu na conversa com jornalistas, e que o fez se ausentar do evento por um instante.
“É um método antigo dele ouvir diversas opiniões antes de formar a própria”, disse Edinho, afirmando que “críticas numa campanha presidencial desse tamanho sempre vão existir”.

