Engajamento não é intenção de voto: especialista explica os limites dos influenciadores na política

O alcance de um influenciador digital pode até colocar um candidato em evidência, mas não garante sua eleição. Uma pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, divulgada em agosto, indica que 77,5% dos eleitores entrevistados não mudariam sua escolha por causa do apoio de um criador de conteúdo. Outros 14,3% afirmaram que a resposta dependeria do influenciador ou do candidato. Para o especialista Thiago Abreu, CRO da WC&A Partners, empresa especializada em marketing de influência e performance, o resultado expõe a diferença entre chamar a atenção do público e, de fato, convencê-lo nas urnas.

“Uma publicação pode repercutir porque convenceu alguém, porque confirmou o que aquela pessoa já pensava ou porque provocou rejeição. Somar essas reações e chamar tudo de influência eleitoral esconde diferenças importantes”, afirma Abreu. 

Na avaliação do executivo, a relação construída entre criador e audiência não funciona como um endosso irrestrito. Um seguidor pode acompanhar recomendações de consumo, se identificar com a rotina de uma personalidade e, ainda assim, rejeitar seu posicionamento político. A credibilidade depende também do assunto e da coerência percebida pelo público. 

Efeito sobre o eleitor

No entanto, isso não significa que os influenciadores sejam irrelevantes para a disputa. Segundo Thiago, sua participação pode ocorrer antes de uma declaração de apoio, ao apresentar uma proposta, compartilhar uma entrevista ou destacar determinado trecho de um debate. Esses movimentos podem ampliar o conhecimento sobre um candidato ou colocar um assunto em discussão, sem necessariamente produzir adesão.

“O criador pode fazer alguém prestar atenção em um candidato sem conseguir seu voto. Esse efeito tem relevância, mas é diferente de convencer. O problema começa quando se atribui à audiência um resultado que não foi demonstrado”, explica.

O alcance desses intermediários aparece no Digital News Report 2026, do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, da Universidade de Oxford: 33% dos entrevistados no Brasil consomem conteúdo de criadores ou influenciadores dedicados principalmente a notícias. O indicador mede consumo de informação, não preferência eleitoral.

Outra limitação está em observar apenas quem reage às publicações. Comentários favoráveis podem vir de pessoas que já apoiavam uma candidatura, enquanto compartilhamentos também podem carregar críticas. Por isso, engajamento isolado não permite concluir se houve convencimento ou apenas mobilização de quem já concordava.

A comparação com campanhas comerciais também encontra limites nas regras eleitorais. A regulamentação do Tribunal Superior Eleitoral permite manifestações políticas espontâneas, dentro dos limites legais, mas veda a remuneração ou a concessão de vantagens econômicas para publicações político-eleitorais nos próprios perfis dos contratados. A contratação de uma publicidade de produto, portanto, não é um modelo que possa ser simplesmente transportado para a eleição.

Na análise do executivo, o ponto de encontro entre os dois ambientes está na necessidade de demonstrar resultados, e não em equiparar a escolha de um produto à decisão de voto.

“No marketing, uma campanha não comprova vendas apenas porque teve visualizações. Nas eleições, o cuidado precisa ser ainda maior: a repercussão é pública, mas o voto é secreto. Não há como atribuir votos a um post olhando apenas para a tela”, conclui.

 

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Ana Júlia Silva

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