Estudo do ETENE aponta recuperação da produção regional, mas destaca que competitividade dependerá cada vez mais da inovação, do clima e da disputa entre açúcar e etanol
Durante décadas, produzir mais açúcar significava plantar mais cana. Hoje, no Nordeste, essa lógica mudou. Sem espaço para expandir os canaviais nas áreas tradicionais, o futuro do setor sucroenergético depende cada vez mais de tecnologia, produtividade e adaptação às mudanças do clima.
Um estudo do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (ETENE), do Banco do Nordeste, mostra que a rentabilidade das usinas será influenciada pela disputa entre a produção de açúcar e etanol, pelas oscilações do mercado internacional, pelas mudanças climáticas e pela capacidade de incorporar novas tecnologias ao campo.
A expectativa inicial é de crescimento de 10,3% na produção regional de açúcar em relação à safra anterior, impulsionado pela maior disponibilidade de matéria-prima. No entanto, o próprio levantamento pondera que o cenário permanece incerto.
As chuvas intensas registradas em Pernambuco e na Paraíba no início de maio podem afetar parte dos canaviais, enquanto uma eventual ampliação da mistura obrigatória de etanol na gasolina tende a estimular as usinas a destinarem mais cana ao biocombustível.
Mesmo mantendo a liderança mundial na produção e exportação de açúcar, o Brasil deverá enfrentar um mercado internacional mais desafiador. A expectativa de aumento dos estoques globais e a pressão sobre os preços da commodity reduzem as margens do setor, ao mesmo tempo em que a valorização do petróleo torna o etanol mais atrativo para parte das usinas.
Produtividade como estratégia
Nos tradicionais polos canavieiros do Nordeste, o futuro da produção passa menos pela expansão das áreas cultivadas e mais pelo aumento da eficiência no campo.
A mecanização da colheita, a ampliação da irrigação e o uso de bioinsumos, drones e outras tecnologias vêm transformando o manejo da cultura, em resposta à escassez de mão de obra e à necessidade de elevar a produtividade.
Para a coordenadora de Estudos e Pesquisas do ETENE e autora do estudo, Maria de Fátima Vidal, a incorporação dessas ferramentas será decisiva para fortalecer a competitividade do setor.
“A adoção de tecnologias, aliada a um bom gerenciamento empresarial, constitui condição fundamental para tornar o setor sucroenergético nordestino competitivo frente às demais regiões produtoras de açúcar e etanol do país.”
O estudo mostra que esse desafio já encontra exemplos bem-sucedidos dentro da própria região. Embora o Nordeste ainda apresente a menor produtividade média de cana-de-açúcar do país, a Bahia se destaca ao atingir rendimento próximo de 88 toneladas por hectare, resultado associado principalmente ao uso da irrigação. O contraste evidencia o potencial de ganhos de eficiência que pode ser alcançado com investimentos em tecnologia e gestão.
Entre a inovação e o clima
Se a tecnologia amplia a capacidade de resposta do setor, as condições climáticas permanecem como um dos principais fatores de risco para a atividade.
O levantamento alerta que eventos extremos, como secas prolongadas, enchentes e ondas de calor, tendem a se tornar mais frequentes.
Além dos prejuízos provocados pelas chuvas registradas recentemente em Pernambuco e na Paraíba, a possibilidade de formação do fenômeno El Niño pode provocar irregularidade das chuvas ao longo do ano, afetando a produtividade dos canaviais nordestinos.
Exportações buscam novos destinos
No mercado externo, o estudo aponta que o faturamento das exportações brasileiras de açúcar recuou 24,4% em 2025. No Nordeste, a receita caiu 18,8%, refletindo principalmente a queda das cotações internacionais e as restrições impostas pelos Estados Unidos.
Como resposta, as usinas ampliaram a presença em mercados como Argélia, Mauritânia, Geórgia, Congo e Líbia. A expectativa é que o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia também abra novas oportunidades para o açúcar brasileiro nos próximos anos.

