Nova fase da regulamentação das bets mira publicidade em mercado bilionário e em expansão

A exigência de advertências como “apostar pode causar dependência” em todas as publicidades das casas de apostas inaugura uma nova fase da regulamentação do setor no país. A determinação, publicada pelo Ministério da Fazenda na última sexta-feira (10), amplia as regras para a publicidade das bets em um momento de forte expansão desse mercado, que já movimenta bilhões em investimentos publicitários e exerce influência crescente sobre o esporte e os meios de comunicação. 

Somente em 2025, as empresas de apostas destinaram R$ 1,44 bilhão à compra de mídia no país, o equivalente a cerca de 5% de todo o investimento publicitário nacional, segundo dados do Fórum da Autorregulação do Mercado Publicitário e da plataforma Tunad.

Em Pernambuco, esse crescimento também reflete na economia local. O estado sedia duas das 10 maiores empresas do setor, a Esportes da Sorte e a Betnacional, empresas que expandiram sua participação, patrocinando eventos esportivos e culturais como São João e Carnaval. 

Segundo levantamento da consultoria internacional H2 Gambling Capital, referência mundial no setor, a Esportes da Sorte respondeu por aproximadamente 4% do mercado brasileiro de apostas online em 2025, enquanto a Betnacional alcançou 3,2%, ocupando, respectivamente, a quinta e a sétima posições no ranking nacional.

Rodrigo Abreu Pinto. Foto: Divulgação.

Para o presidente do Instituto Brasileiro de Finanças Digitais (IFD), Rodrigo de Abreu Pinto, a medida representa um avanço no combate à indução ao jogo. Porém, o novo modelo de financiamento das mídias tem despertado cada vez mais a discussão sobre os impactos sociais e a responsabilidade de cada elemento desta cadeia.

“A decisão do Ministério da Fazenda representa um avanço importante. A inclusão de advertências claras, deixando explícito que a aposta não é investimento e pode causar dependência, aproxima o Brasil de boas práticas já adotadas para outros produtos que apresentam riscos ao consumidor. É uma medida que contribui para tornar a comunicação mais transparente”, afirma.

Na avaliação do especialista, a regulamentação entra agora em uma etapa mais madura, voltada não apenas ao funcionamento das operadoras, mas também à forma como o serviço é apresentado ao público.

“O governo deixa de concentrar esforços apenas na autorização das operadoras e passa a atuar também sobre a forma como o produto é ofertado ao consumidor. Esse movimento reforça o princípio de que a publicidade deve informar, e não induzir comportamentos de risco.”

Publicidade das bets cresce com a Copa 

A discussão ganhou força durante a Copa do Mundo de 2026, quando a presença das bets nas transmissões esportivas reacendeu o debate sobre os limites da publicidade do setor. A CazéTV, por exemplo, passou a ser alvo de apuração do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) por ações envolvendo empresas de apostas. 

Apenas no primeiro trimestre de 2026, as dez maiores empresas do setor aplicaram R$ 327,2 milhões em propaganda, um volume que já indicava tendências de alta por conta do ano da Copa.

A expansão das apostas acompanha o aumento do número de usuários. Um levantamento da fintech Klavi, com base em dados do Banco Central, indica que a participação de brasileiros em bets saltou de 11% para 34% durante o período da Copa do Mundo. 

O aumento da atividade também provoca efeitos sobre outros segmentos da economia. Estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estima que R$ 143,8 bilhões deixaram de circular no varejo brasileiro entre janeiro de 2023 e março de 2026 por terem sido direcionados às plataformas de apostas.

No mesmo período, o gasto mensal dos brasileiros com bets aumentou de R$ 4 bi para  R$ 29 bilhões, enquanto 269 mil famílias ingressaram na inadimplência por causa da expansão das operadoras. 

Os impactos também aparecem na saúde pública. Dados do Ministério da Saúde registraram alta de 140% nos atendimentos por dependência em apostas no SUS. Em resposta, o governo lançou um serviço de teleatendimento em parceria com o Hospital Sírio-Libanês e destinou R$ 6 milhões à Unifesp para pesquisa sobre os impactos do setor.

Regulamentação tenta acompanhar o mercado

Diante desse cenário, os parlamentares também estão se movimentando. O Senado já aprovou o PL 2.985/2023, de autoria do senador Styvenson Valentim (PSDB-RN), que torna mais rígidas as regras para a propaganda de apostas. Entre as novas medidas está a proibição de usar a imagem de atletas, ex-atletas, artistas, comunicadores, influenciadores e autoridades nesses anúncios. O projeto, porém, ainda precisa ser aprovado pela Câmara dos Deputados e sancionado pela Presidência para entrar em vigor. 

 

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Ana Júlia Silva

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