Investimentos globais se concentram em setores estratégicos e ampliam desigualdade entre países, aponta Unctad

Os investimentos internacionais estão mudando de direção. Se antes eram distribuídos de forma mais diversificada entre diferentes setores da economia, agora se concentram cada vez mais em áreas consideradas estratégicas para o futuro, como inteligência artificial (IA), semicondutores, minerais críticos e tecnologias ligadas à transição energética.

É o que revela o Relatório Mundial sobre o Investimento 2026, divulgado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad). O estudo mostra que essa nova configuração do mercado global amplia a distância entre as economias desenvolvidas e os países de menor renda.

Entre 2020 e 2025, os setores estratégicos passaram de 16% para 44% do investimento mundial em novos projetos. No mesmo período, o volume de recursos anunciados saltou de US$ 109 bilhões para US$ 576 bilhões, refletindo a corrida global por tecnologias consideradas decisivas para a competitividade econômica nas próximas décadas.

Apesar da expansão, os benefícios permanecem concentrados. Segundo a Unctad, países de baixa renda e de renda média-baixa receberam apenas cerca de 10% dos investimentos globais destinados a esses segmentos entre 2020 e 2025.

O relatório identifica uma divisão cada vez mais clara na geografia dos investimentos. Os Estados Unidos lideram a aplicação de capital em inteligência artificial e tecnologias avançadas, enquanto a Europa desponta como principal destino desses aportes. Já a China consolida sua posição nos investimentos relacionados aos minerais críticos, exercendo influência em diversas etapas das cadeias produtivas.

Para a Unctad, a localização dos futuros polos industriais e tecnológicos será determinada pela capacidade dos países de atrair investimentos nesses setores. Entretanto, fatores como domínio tecnológico, tamanho do mercado interno, políticas industriais e acesso a recursos estratégicos vêm concentrando os recursos em um número reduzido de economias.

O estudo também alerta que essa concentração ocorre em um momento de retração das formas tradicionais de financiamento internacional e da ajuda bilateral ao desenvolvimento, cenário que afeta principalmente os países menos desenvolvidos.

Como resposta, a agência das Nações Unidas defende investimentos em infraestrutura digital, qualificação da mão de obra e fortalecimento de mercados regionais como estratégias para ampliar a capacidade de atração de capital. O relatório também destaca a importância da cooperação internacional, por meio de parcerias de investimento e mecanismos de compartilhamento de riscos, como forma de reduzir as desigualdades e ampliar a participação das economias em desenvolvimento na nova dinâmica global de investimentos.

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Luciana Leão

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